Solidão de Croce
incluído nos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux
Enquanto uns jovens esportivos, fantasiados de correspondentes de guerra, se entusiasmavam com as "chuvas de bombas" sobre Nápoles, pensei num homem muito velho, o homem mais solitário da cidade castigada e deste mundo castigado. Ainda menino, escapou, como por milagre, ao terremoto que lhe roubou os pais e todos os irmãos; está acostumado, desde então, a meditar sobre as catástrofes, cidadão, ele próprio, dessa paisagem histórica de Nápoles que já viu as catástrofes históricas dos gregos, dos romanos, dos godos e longobardos, dos árabes, normandos, suábios, franceses e espanhóis; de modo que aquele homem não se surpreende com a derrota que ele profetizou, citando os versos dum poeta alemão:
"Não convém jubilar. Não haverá triunfo.
Muitas derrotas, só. Sem dignidade."
O contraste, admito, é eloqüência baratíssima: o homem de gênio, encarnando as tradições milenárias da sua cidade de Nápoles, onde conhece, como nenhum outro, a história dos bairros, das ruas, das casas, das famílias, de cada pedra, ele, o maior dos críticos literários, o maior dos filósofos vivos, o maior dos historiadores vivos, a maior autoridade espiritual da Itália e talvez do mundo atual, olhando a derrota da sua cidade e da sua pátria pelo ativismo diletante dos semicultos. Não é trágico?
Não, isto não é trágico. Cumpre protestar contra a linguagem daqueles mesmos jornalistas de guerra e de paz, que chamam "trágico" a cada acidente de automóvel. Os acidentes da reportagem, na guerra e na paz, não são trágicos, são simplesmente tristes. Benedetto Croce, porém, não é uma figura triste. É uma figura trágica; porque ao seu destino não falta o elemento da culpa.
O que é triste na vida quase octogenária de Croce é o seu destino de grande mestre abandonado sucessivamente por todos os discípulos. Na sua dialética hegeliana, cheia de oposições dialéticas, inspiraram-se românticos e classicistas, livres-pensadores e tradicionalistas, conservadores e liberais, marxistas, sindicalistas, fascistas; e, enfim, todos os abandonaram. Visto do alto daquela sua colina de Nápoles, o mundo está cheio de apóstatas. Sou também apóstata, eu que aprendi do velho mestre o método do pensamento dialético e o rigor da sua crítica, sem aderir a nenhuma das suas opiniões; e, todavia, seguir o seu próprio caminho talvez seja a mais alta fidelidade aos mestres. Da minha capacidade ilimitada de admirar os que são realmente grandes, deduzo o direito da crítica mais severa. Admirando a imensa riqueza espiritual de Croce, não desconheço o contraste entre a agudeza do seu exame negativo e a pobreza deste em resultados positivos. Perante o olhar implacável de Croce, o mundo real da arte, da história, da vida, desaparece.
E isto explica a impotência desse alto espírito no mundo das realidades. Era admirado, querido e temido como nenhuma autoridade espiritual desde Tolstoi; e, por aqueles que agiram conforme os seus preceitos, foi logo abandonado.
O problema central da filosofia hegeliana, o da relação entre a teoria e a prática, o problema que transformou os "jovens hegelianos" de Berlim em conservadores reacionaríssimos ou em marxistas revolucionários, é também o problema central do velho hegeliano de Nápoles. Encontrando no congresso filosófico de Oxford, em 1930, o comunista russo Lunatcharski, Croce confessou-se, com orgulho, o mais velho marxista italiano, citando o verso de Tasso: "un di quei che la gran torre accese". Mas a torre do capitalismo não foi a única incendiada por esse poderoso espírito negativo. O problema hegeliano da realização do espírito tornou-se-lhe o seu problema: como pode o espírito conseguir o poder? Para resolver tal problema, juntou ao romantismo, com o que o seu patrício Vico tinha descrito as vicissitudes cíclicas da história, o duro realismo clássico de Machiávelli: o espírito só pode vencer, na história, pela força. Mas estava sempre longe do comodismo das adesões. Na sua Itália das autoridades artificiais, nunca encontrou a verdadeira força, a força do espírito, nos poderes estabelecidos. Croce, espírito essencialmente negativo, estava sempre em oposição.
Benedetto Croce foi sempre um homem solitário. Nunca ensinou, o grande mestre, numa Universidade. Nunca pertenceu a uma academia, senão àquela Academia Pontaniana de Nápoles, que ele fundara e sustentava, da qual era a alma e da qual foi, em 1934, vergonhosamente excluído. A sua nomeação para senador do reino não obedeceu ao reconhecimento do mérito pessoal, tendo sido mera conseqüência legal da sua condição de pessoa que pagava os maiores impostos na sua província. Contudo, essa condição de homem riquíssimo — Benedetto Croce, latifundiário e grande burguês — não explica satisfatoriamente a sua altiva independência em face de todos os poderes do Estado e das massas. É preciso saber que o socialismo italiano foi sempre o mais violento de todos, quase anarquista, em reação a um Estado que — isto também seria útil saber hoje — revestido de todas as aparências do parlamentarismo e da liberdade liberal, era, já antes do fascismo, um dos Estados mais reacionários da Europa, Estado de polícia, e de uma polícia que sabia atirar. Benedetto Croce, porém, figura ridícula de burguês gordíssimo, não conhecia o medo. Estava sempre numa oposição irreconciliável.
Por volta de 1890, na Itália "liberal" de Crispi, Croce era adepto dos ideais conservadores de Cavour e da "Direita Histórica". Na Itália policial de 1900, quando as ruas de Milão estavam cheias de cadáveres de operários fuzilados, Croce tornou-se socialista, marxista — "un di quei che la gran torre accese"(1). Na Itália de 1910, quando o marxismo se burocratizava e toda a atmosfera intelectual do país estava cheia de um tépido socialismo humanitarista, introduziu a violência sindicalista do seu amigo Georges Sorel. Na Itália bolchevizante de 1920, apoiou — pelo menos indiretamente — a violência fascista, para depois opor-se publicamente, com coragem incrível, ao ditador manchado do sangue de Matteotti. Nunca pensou em fugir, nem quando lhe irromperam em casa, destruindo-lhe os livros, ameaçando-lhe a vida. No seu exílio voluntário dentro do país, ele foi durante vinte anos o único que enfrentou realmente o vivere pericolosamente(2).
Apoiando-se na sua imensa autoridade espiritual, sem poder nenhum na realidade, evocou a sombra do velho liberalismo, para justificar a sua luta solitária contra a força coletiva. A sua presença, sempre protestando, no país das autoridades infalíveis, era uma pergunta permanente, inquietante, à juventude fascista. Não podiam deixar de ouvir a acusação da sua lógica dialética, implacável, contra o ativismo diletante dos semi-intelectuais. Mas não era o mesmo Croce — o reacionário, o marxista, o sindicalista, o fascista, o liberal Croce — que lhes tinha ensinado o gosto da aventura do espírito e da aventura da ação? Ao ocidente histórico da sua vida perturbada, Croce juntou a condição que Aristóteles exige do verdadeiro herói de tragédia: a culpa. Benedetto Croce não pôde vencer. Só pôde ver a derrota do inimigo.
"Não convém jubilar. Não haverá triunfo.
Muitas derrotas, só. Sem dignidade."
Neste sentido, Benedetto Croce é uma figura trágica.
As contradições de Croce não são daquelas que se refutam facilmente.
"Nenhum sistema filosófico foi jamais refutado" — disse o seu mestre Hegel. Não há ninguém entre nós que não lhe devesse muito — seja o agudíssimo método de crítica literária e o método mais agudo de crítica moral, seja a grandiosa visão do processo histórico, seja o mais grandioso exemplo da vida humana — e as contradições dialéticas da sua doutrina e da sua vida não se refutam, assim como não se refuta nenhuma dialética e não se refutam as contradições da própria vida. O exemplo de Benedetto Croce é uma grande inquietação para nós outros. Ainda em 1938, o fascista Giansiro Ferrata, na revista Letteratura, confessou "il suo esilio politico, facendo di Croce una cosa adatta a turbare i sonni"(3).
Dessa insônia dos jovens, causada pelo espírito insone do velho, nasceram umas explicações simplistas. Realmente, a independência do homem "che la gran torre accese" tem sólido fundamento econômico. O senador por censo é grande burguês, latifundiário, riquíssimo; e isto facilita. "Tipico orgoglio di borghese, filosofia di classe"(4)— diz aquele fascista, lembrando, para explicar a atitude de Croce, a resistência dos últimos barões feudais contra a monarquia absoluta; e um pobre emigrado, macaqueando o pseudo-marxismo do inimigo, falou em "cretinismo senatoriale". Acho, porém, que o nosso mundo atual dos totalitarismos fascistas, marxistas, capitalistas e idiotas, poderia aprender com aquele velhinho gordo alguma coisa mais do que crítica literária e filosofia da história. Podemos aprender algo da independência pessoal que era o espírito do velho liberalismo, antes de ser absorvido pelo liberalismo econômico, e que é hoje o liberalismo ideal do velho Benedetto Croce. É — eis a fonte das suas contradições e dos seus choques com a realidade — o último representante da impossível autonomia do espírito.
O problema não é para os amadores dos simplismos; é antes para os que "ruminam Croce" do que para aqueles pobres que se revoltam contra essa atividade perigosa. A estes o marxista emigrado que se oculta sob o pseudônimo de "Subalpino" respondeu na insuspeita revista Giustizia e Libertà, de 25 de agosto de 1938: "Sua opera sul marxismo merita tutta la nostra reconoscenza, e non le critiche de asilo infantile dei marxisti pretesi ortodossi, ignoranti."(5) E acrescenta: "Questa critica e limitazione crociana del marxismo non è solo fondalmente vera, ma è ancora attuale."(6) E o mais impetuoso dos seus discípulos-apóstatas, G. A. Borgese, admira-se "della filosofia crociana, assai differente dei prodotti intellettuali della sua classe."(7) Mas quem aprendeu dialética na escola do próprio Croce reconhecerá com franqueza a porção de verdade na acusação à independência cômoda do latifundiário. Afinal, Croce nunca se libertou inteiramente das bases da sua liberdade. Não realizou a autonomia do Espírito — com maiúscula — que é o centro da sua filosofia, porque é uma autonomia teórica, que nunca se realiza na vida prática.
Croce, cuja filosofia hegeliana gerou mais conseqüências práticas do que qualquer outra — com exceção da do próprio Hegel — é um espírito contemplativo, quase conventual. Para os outros que, sem a sua independência econômica, não podiam respirar a atmosfera difícil da sua dialética contraditória, para os que apostataram, forjou a doutrina de ação. Nas noites de insônia, apareceu-lhe, talvez, aquela personagem sinistra que Heine imaginara, o homem com a espada da justiça escondida sob a capa rubra, cochichando-lhe: "Sou a ação do teu pensamento."
Mas Benedetto Croce não morre assim. Vive com os seus poetas, com o seu Vico, na região das idéias platônicas, onde se sente em casa como se sente em casa no passado da sua velha e querida Nápoles, nos velhos palácios, igrejas e conventos com as inúmeras recordações históricas. Alí cada pedra lhe é um amigo, consolando-o da abjeção do presente. "Tutta la sua filosofia è sorta come un’incoercibile necessità della perplessità della vita morale e delle oscurezze e contradizioni, e della insoddisfazione che lo tormentava"(8) — diz o seu biógrafo e amigo Giovanni Castellano. Croce é esteta e moralista na maneira de olhar a vida e a arte, que se lhe confundem na irrealidade do passado. Confessou ao mesmo amigo: "Como filósofo e critico, non recedo innanzi ad alcun pensiero, per radicale e distruttivo che sembri; e, como uomo, accetto le più dure prove. Eppure, quando mi sorprendo a sognare, sapete quale aspirazione trovo nel fondo della mia anima? Un convento secentesco napoletano, con le sue bianche celle e il suo chiostro, che ha nel mezzo un recinto di aranci e di limoni, e, fuori, il tumulto della vita fastosa e superba, che batte invano alle sue alte muraglie."(9)
Nessas palavras está todo o Croce: a audácia do seu espírito negativo — "che la gran torre accese" —, a negação da realidade, a elevação estética e a indignação moral, a consciência da imensa responsabilidade do intelectual e a consciência da própria culpa trágica. Na negação — que é a própria índole do espírito, por isso suspeito aos simples de todas as cores — reside a culpa trágica e a grandeza moral do velho liberal Benedetto Croce, que edificou na própria alma a única torre indestrutível no meio das ruínas da cidade castigada. Vive com todos os espíritos num mundo em que a violência sofre a derrota pela violência e em que sobrevive, aplaudindo, apenas o riso frenético dos imbecís.
"Não convém jubilar. Não haverá triunfo.
Muitas derrotas, só. Sem dignidade."
NOTAS:
(1) "Um daqueles que entraram na grande torre." [Nota do Editor dos Ensaios Reunidos, Olavo de Carvalho] Voltar
(2) "Viver perigosamente." Lema de Mussolini, adaptado de D’Annunzio. Voltar
(3) "O seu exílio político, fazendo de Croce uma coisa apta a perturbar os sonos." [N.E.] Voltar
(4) "Típico orgulho de burguês, filosofia de classe." [N.E.] Voltar
(5) "Sua obra sobre o marxismo merece todo o nosso reconhecimento, e não as críticas de internato infantil dos marxistas pretensamente ortodoxos, ignorantes." [N.E.] Voltar
(6) "Esta crítica e limitação croceana do marxismo não só é verdadeira, mas é ainda atual." [N.E.] Voltar
(7) "Da filosofia croceana, muito diferente dos produtos intelectuais da sua classe." [N.E.] Voltar
(8) "Toda a sua filosofia brotou, como uma incoercível necessidade, da perplexidade da vida moral e das obscuridades e contradições, e da insatisfação que o atormentava." [N.E.] Voltar
(9) "Como filósofo e crítico, não receio nenhum pensamento, por radical e destrutivo que pareça; e, como homem, aceito as mais duras provas. E, no entanto, quando me surpreendo a sonhar, sabeis qual aspiração encontro no fundo de minha alma? Um convento setecentesco napolitano, com suas celas brancas e seu claustro, que tem no meio um pátio de laranjeiras e limoeiros, e, fora, o tumulto da vida faustosa e soberba que em vão vem bater nas suas muralhas." [N.E.] Voltar