CARTAS DOS LEITORES

Sociobiologia - carta e resposta


Sociobiologia

28/02/98

Uma tese que firma a ditadura do indivíduo como solução das questões ontológicas aproxima-se muito e de forma preocupante das idéias defendidas pela sociobiologia. Esta nova ciência inventada pelo zoólogo americano Edward Wilson atribui aos genes a base das formações sociais. É uma teoria que propõe um determinismo genético e que sufoca qualquer possibilidade de iniciativa humana para se tentar mudar o meio. O fator genético seria a força preponderante nas relações do homem com o mundo que o cerca. Com isso o homem teria pouca ou quase nenhuma chance de mudar as condições que o oprimem. Está claro que algo já vem determinado no indivíduo, sobretudo quando se sabe que parte da rede neural já está montada no feto mesmo antes do desenvolvimento dos órgãos responsáveis pela apreensão do meio (órgãos dos sentidos). No entanto atribuir aos genes o papel de imobilizador social é reduzir os homens a insetos (aliás, estes são a especialidade de Wilson como zoólogo). Por tais razões é que essa nova ciência tem tido ampla recepção por parte da nova direita francesa.

"A nossa vontade e o nosso pensamento

são as mãos pelas quais outros nos guiam,

para onde eles querem e nós não desejamos"

Fernando Pessoa

O poeta português refere-se aos deuses. Um fatalismo arraigado. Creio que o homem permanecerá nesta condição enquanto continuar na crença de que sozinho poderá resolver seus problemas. E já nem falo daqueles que, coletivamente, procuram resolver seus problemas individuais. Estes estão abaixo dos insetos, quanto mais dos deuses por eles mesmos criados.

Temo que, após a aceitação de uma tese que move o foco das questões sociais para o indivíduo, queiram "aperfeiçoá-la" e nomear, através de argumentos como os da sociobiologia, um grupo de super-indivíduos para que as soluções daquelas questões venham mais rapidamente - se é que, agrupadamente, os defensores desses ideiais já não sonham com tal possibilidade.

Rogério Prado de Macedo

Fev/1998

 

Reposta de Alvaro R. Velloso de Carvalho

05/05/98

Caro Rogério,

creio haver uma confusão no que você entendeu de nosso pensamento.

Tenho tanto horror à sociobiologia quanto você. Acho aterrorizante que alguém pretenda encontrar a chave para a explicação das coisas na Genética.

Não conheço a obra do prof. Edward Wilson, exceto pelo que li dela no caderno "Mais!" e não poderia opinar diretamente sobre ela.

Um outro sujeito que defende teses semelhantes é o sr. Jacques Monod, que afirma textualmente que tudo que precisamos saber sobre o comportamento humano já é dado nos gens. Monod faz a síntese de Epicuro e Demócrito, afirmando que tudo que ocorre, ocorre ou por necessidade (no sentido de "fatalidade") ou por acaso. - Esquece de responder se escreveu o livro por necessidade, por acaso ou porque quis escrever.

Aí é que está a nossa tese: os indivíduos são, em princípio, livres para optar. Eles resolvem fazer ou não fazer, eles resolvem seguir o consenso ou não seguir.

Ninguém em sã consciência vai negar a influência que os diversos elementos exercem sobre as decisões pessoais.

Todos somos influenciados pela genética, pelo condicionamento social, pela hereditariedade, pela condição econômica, pelo Espírito, talvez até pelo inconsciente (tese mais controversa, não sei se concordo). Mas a todos nós é dado transcender essas condições e afirmar nossa individualidade.

Quando Antonio Gramsci afirma que tudo que um intelectual diz é apenas produto do "pensamento da classe", esquece de responder à seguinte pergunta: e essa afirmação, é produto de quê?

Gramsci se coloca acima do resto da humanidade, pretendendo descobrir o que condiciona todos os outros, menos ele mesmo.

Da mesma forma, todos aqueles que pretendem encontrar as limitações do pensamento humano e determinar um único fator que condicione todo o pensamento e todas as ações humanas, reduzindo o ser humano a apenas uma de suas dimensões - seja ela a genética, a econômica, a inconsciente ou a "classe".

O problema está em tomar por absoluta uma descoberta relativa, em afirmar um fator como único condicionante, sem se lembrar de que você só descobriu esse fator porque você é capaz de transcendê-lo.

Por tudo isso, defendemos não um individualismo ideológico, no sentido de legitimar a "ética do egoísmo", tão em moda nos meios neoliberais. Não - temos verdadeiro horror a isso também.

O primado da consciência individual que defendemos se restringe EXCLUSIVAMENTE a um aspecto GNOSEOLÓGICO, que consiste basicamente no seguinte: quem percebe as coisas não é o consenso coletivo, mas a consciência individual. Na base de todas as revoluções do pensamento, desde a filosofia grega à Física moderna, passando por cristianismo, escolástica, racionalismo, romantismo, marxismo, freudismo, darwinismo, etc etc, estava sempre um indivíduo, uma consciência que, transcendo o meio que a cercava (mas sempre dentro de determinadas condições históricas), foi capaz de enxergar mais do que os outros e nos legar um conhecimento efetivo. Isso é sempre obra da consciência individual.

Essa afirmação tem, obviamente, conseqüências éticas, que se resumem no seguinte: tenho eu que viver minha própria vida e aceitá-la em todas as suas dimensões. O responsável pelos meus atos sou eu mesmo e eu é que vou responder por eles e aceitar suas conseqüências. Isso vale tanto para atos concretos quanto para atos de consciência. Daí, a necessidade de ser inteiramente fiel às intuições intelectuais tais quais elas se apresentam diretamente à consciência, mas submetendo-as, evidentemente, ao rigor lógico e histórico.

Não há nenhuma afirmação política aí, nenhuma "ditadura do indivíduo". O dia que eu pensar um sistema político, talvez eu o apresente. No momento, não tenho nenhum sistema articulado, nenhuma "concepção geral" da vida política. Uma filosofia demora a se realizar - seria um absurdo se eu saísse por aí dando opinião em tudo, seria anti-filosófico. Tenho muito o que aprender ainda.

Isso não me impede, claro, de dar opiniões em assuntos menores, em temas menores, mas sem esperar que essas opiniões configurem um sistema geral de crenças políticas.

Mas é óbvio que a crença no poder da consciência individual implica que eu defenda a garantia de que essa consciência possa se desenvolver, razão pela qual tenho verdadeiro horror a qualquer tipo de tirania, seja ela explícita (como no fascismo, no nazismo, no stalinismo, etc), seja ela implícita (como no modelo liberal hoje em voga, em que a consciência individual é bombardeada pela propaganda, pela deturpação das notícias, pelo apelo aos valores materialistas, pela ditadura mercadológica, e todos os meios de controle de consciência - manipulação subliminar, programação neurolingüística, etc.), seja feita por meio do Estado, ou por meio de empresas privadas (alguém duvida de que a Rede Globo é mais responsável pelo aprisionamento das consciências do que o Estado brasileiro - e que é o sr. Marinho que está no poder e não o don Fernando?).

Tudo isso me coloca meio à parte da cena política, preferindo olhá-la de longe. Essa distância permite ver as coisas como elas são, sem o apego a paixões partidárias, em que o adversário está sempre errado e o aliado sempre certo. Esse desapego não implica desinteresse, mas independência verdadeira. (Nada mais longe de mim do que o intelectual descompromissado das coisas da "polis", encastelado em sua redoma universitária. MAs nada também mais longe do que o intelectual militante ativo, disposto a sacrificar tudo pelas paixões partidárias. Não: o compromisso intelectual é com a verdade - ou pelo menos com a verdade tal qual ela lhe aparece no momento).

Para encerrar, acrescento que se existe alguma proposta política em "O Indivíduo", é a de lutar pelo estímulo ao pensamento crítico, para o desenvolvimento da consciência individual, para que ela possa contribuir para a melhora da coletividade. (Entenda-se bem: não se trata da imposição do que acreditamos sobre os outros, mas exatamente o contrário: mostrar a todos que eles também são capazes de perceber as coisas e pensar por conta própria). Acreditar que é possível melhorar a coletividade primeiro e os indivíduos depois é fonte de inúmeras tiranias, que vão acabar mandando pro espaço todos aqueles que fugirem ao padrão imposto. A mudança social só pode vir de dentro para fora, não de uma imposição de algum intelectual que pensa saber o que é melhor para os outros e pretende guiá-los.

Saudações,

Alvaro R. Velloso de Carvalho

Jornal "O Indivíduo"