CARTAS DOS LEITORES

Racismo brasileiro

Carta e resposta sobre o artigo "O mito da superioridade americana"


Sobre o artigo de " racismo" de Alvaro V. de Carvalho

04/03/99

Em primeiro lugar, peço desculpas por cometer premeditadamente alguns erros de acentuação - o fato é que escrevo de um Macintosh, e por algumas vezes, a acentuação neste sistema é lida de maneira errada num PC.

Sobre o artigo de Álvaro de Carvalho, concordo com a maioria das coisas que ele diz, e um dos motes que me levou a admirar o Prof. Olavo foi justamente o capítulo em que ele trata no "O Imbecil..." sobre racismo. Muito bem posto. Só que tenho algumas ressalvas a fazer em relação ao artigo.

Quando Alvaro diz que nós, brasileiros, já "esculhambamos a divisão racial, pondo de lado a questão racial" , eu , em primeiro lugar, gostaria de saber se Alvaro é negro ou branco. E me desculpe a ignorância caso a cor da pele de Álvaro seja algo público e notório. Porque, como negra, não acho que a questão racial esteja tão posta de lado assim, ou esculhambada, ou que nunca tenha sofrido quaisquer tipos de catalogação cromática como nos EUA. Porque, com a mais absoluta certeza, eu sofro, sim. Diariamente, de hora em hora, de minuto em minuto, de segundo em segundo. Não acho que no Brasil saibamos conviver entre nós e " tolerar uns aos outros" , não. Poderia até me considerar branca , ou ainda, talvez nem tanto, mas mulata clara, marrom bombom claro, ou quaisquer outras destas classificações bestas que vemos por aí - porque meu pai é negro (mesmo!) e minha mãe é branca , não alemã , mas descendente de portugueses, franceses e pitadas de indígenas, porque nasceu no Amazonas. Tive professores na faculdade que falavam na minha frente, " ...mas nesta classe não temos negros..." e coisas parecidas.

Passei por isso durante toda a minha vida, e continuo passando. O que há que se esclarecer é que, mais importante neste país do que ser negro epidérmico, é ser negro social ou não. E socialmente, sou branca, porque estou terminando a terceira faculdade, morei no exterior, moro na Zona Sul, tenho carro importado, meu pai é notório no que faz como profissão, tenho " boas" relações sociais (que babaquice!), só convivo com brancos, metade da minha família é branca (o que facilita muito em algumas coisas), minha pele não é retinta como uma africana, meu cabelo não é tão "carapinha" assim etc. Portanto, socialmente, sou branca. Mas ainda assim, com todas estas "facilidades" , sem saberem de meus "antecedentes" que provavelmente amenizam-me a negritude, sou discriminada, sim - sem paranóia, sou discriminada todos os dias. Grande parte dos brancos com os quais convivo não sabem conviver comigo, não (isso me lembra Aimée Cesaire, " ...acomodai-vos comigo, eu não me acomodo convosco" .). Porque trabalho na maior empresa de mídia deste país (se é que vc me entende, e não acho vantagem nenhuma nisso, ao contrário) e estou tomando o lugar de um branco lá.

Considero muitas das coisas na relação racial norte americana artificiais, como o tal sistema de cotas. E também acho um saco essa coisa de movimento negro, retorno à África etc. Detestaria andar vestida de túnica e turbante neste calor dos diabos. Mas prefiro o tratamento que recebo nos Estados Unidos, porque lá sei quem é quem, quem vai com a minha cara e quem não vai, e como já morei lá, sei até que ponto um negro pode chegar, que a princípio é: qualquer ponto. Morei em um bairro caro de Los Angeles, chamado Marina Del Rey, ao lado de Santa Monica, do ladinho dos grandes astros hollywoodianos do grande pai branco. A síndica do condomínio uma vez veio perguntar à mãe da minha amiga que lá morava - branca - quem eu era e quando pretendia voltar ao Brasil. É grosseiro? É. Mas prefiro esse jogo feito às claras do que os meus vizinhos aqui do bairro decadente chique que é o Flamengo que me olham de rabo de olho, fazem cara feia no elevador, parece que estou com sovaco ou não escovei os dentes. E não é paranóia, não. É, infelizmente, a verdade.

Portanto, prefiro que me perguntem quem eu sou, de onde vim e pra onde vou, em vez de me chamarem de " negra" entredentes, como já fizeram várias vezes em que me comportei " mal" diante de um branco - fila de supermercado em que não dei a vez a um senhor com um saco apenas, estacionamento em que cheguei na vaga primeiro etc. Não que "negra" seja ofensivo pra mim, mas é pra quem fez uso da palavra. Eu, pra dizer a verdade, não estou ligando muito.

Como já diria o grande Tony Tornado, não sou do movimento negro, sou um negro em movimento. Enfim, acho que este desabafo está longo. Só queria comentar o artigo de Álvaro. Álvaro, não estou falando por um grupo nem por uma classe social, ou raça, ou associação, não falo nem mesmo por minha família ou meu marido que está aqui do lado - e que, ocasionalmente, é negro. Falo por mim. Eu sofro, sim, discriminação, catalogação diária. Aliás, uma pequena correção: tire a palavra "sofro" porque é muito paternalista. Eu diria então: passo diariamente por uma seleção em função da minha cor, do meu cabelo, do meu beiço. E isto, amigo, infelizmente, não posso fingir que não percebo, que não sinto, que convivo bem ou tolero.

Obrigada pela atenção,

Alda Gonçalves Cambui, 29 anos

 

 

Resposta de Alvaro R. Velloso de Carvalho

05/03/99

Prezada senhora,

sou, como a maior parte da população brasileira, mestiço, ou moreno. Meio branco, meio preto.

A senhora me perdoe, mas num país em que a maior parte da população pode dizer isso de si mesma, não é possível que haja a prática sistemática do racismo. Quem odeia a outra raça não vai para a cama com ela.

Veja os EUA, por exemplo: lá não existe mestiçagem.

Era a esse fato sociológico, i.e., geral, que meu artigo se referia. A inexistência das manifestações sociológicas do racismo não quer dizer que não existem pessoas racistas.

É impossível abolir o racismo, porque ele é tão natural como o caipirismo: racista é um sujeito a quem o diferente causa desconfiança ou repúdio; todo preconceito é burro, mas pode ser entendido (o que não quer dizer justificado). No caso do racismo, é o horror à diferença.

À medida que o ser humano cresce e se integra socialmente, esse horror vai cedendo e diminuindo. Algumas pessoas, porém, ficam infantis até o fim, e não há medida política no mundo que possa fazê-las crescer.

Ora, no Brasil, as manifestações de racismo nunca passaram desse tipo de caso. O racismo, no Brasil, nunca passou de um preconceito de algumas pessoas. Nunca houve, em toda a nossa história, uma manifestação sociológica de racismo, isto é, um grupo organizado com o fim de pôr em prática políticas racistas.

Nos EUA, até hoje, existem certos lugares aonde os negros não podem ir, sob pena de serem assassinados. Nos EUA, existem conflitos raciais diretos, como o caso Rodney King; nos EUA, a paranóia é tanta que O.J. Simpson, obviamente culpado, foi absolvido porque o juri de maioria negra quis defender sua própria raça.

Ora, essa "consciência racial" só existe em muito pequena escala no Brasil (embora sua tendência, com o movimento negro, seja aumentar e, com isso, aumentar o racismo de ambos os lados. Prevejo - sem querer ser profeta, mas apenas enxergando o óbvio - para breve lutas raciais ao estilo americano por aqui). Da mesma forma como a senhora se sente discriminada, tenho amigos negros que nunca reclamaram desse tipo de coisa, e que concordam com minhas posições.

Fica claro que existe entre as duas nações uma grande diferença, no que diz respeito a essa questão. Se a senhora prefere o tratamento grosseiro, as leis discriminatórias e o anti-racismo racista tipicamente americano, só posso dizer que é uma questão de gosto.

Quanto a mim, prefiro continuar no Brasil, onde posso sair com amigos negros nas ruas sem ser mal visto e onde ninguém vai me olhar feio por ser moreno.

Um abraço,

Alvaro Velloso de Carvalho

http://www.oindividuo.com