ARTICULISTA CONVIDADO

A Indigência da Língua Portuguesa

Por Carlos Nougué


De par com a arte arquitetônica, progressivamente esmagada por contêineres de cimento niemayerescos, ou com o pouco de autêntico saber que por estas plagas se produziu, já quase de todo calado pelo poder acadêmico, vai-se-nos aos brasileiros pelo ralo o patrimônio que compartimos com os lusíadas e alguns povos africanos, rebento temporão do latim: a língua portuguesa.

Não lhe bastasse a nosso idioma o ter brotado inculto, já eivado de barbarismos como a pessoalização do infinitivo, não um ilustre e enriquecedor idiotismo, senão espantosa deformidade por confusão com o futuro do subjuntivo; não lhe bastasse, após a glória da obra de Camões - o conformador do português moderno, o cantor das conquistas ultramarinas de suas gentes - terem os colonizadores lusos extraído do solo brasileiro quanta riqueza puderam sem todavia plantar nesta terra, que tudo dá, as raízes do vernáculo, nisto muito diversos dos vizinhos peninsulares: escolas, até a centúria passada, em rara ocasião as vimos fundadas no Brasil, ao passo que já em meados do século XVI os espanhóis tinham erigida universidade no México e no Peru; não lhe bastasse que, depois das alturas alcançadas pelo verbo de Antônio Vieira, a metrópole deixasse medrar no cadinho étnico de sua maior colônia uma rasteira "língua franca", ou melhor, uma algaravia nutrida de idiomas díspares, enquanto os de Castela enviavam à América professores para, desde cada Kindergarten, instruir os criollos no escorreito uso do castelhano; não lhe bastasse, já entregue o Brasil à sua própria sorte, os criadores tupiniquins da "língua brasileira" e da "literatura"-manifesto terem na Semana de Arte Moderna ceifado a foiçadas de futurismo a tradição que, apesar de tantos pesares, vinha vicejando pela seiva dum Machado de Assis, dum Raul Pompéia, dum Euclides da Cunha, prósperos herdeiros de Bernardim Ribeiro, de Alexandre Herculano, de Camilo Castelo Branco, sega que, levada a cabo em campo já de fertilidade incerta, o mudou em deserto, de muitas espécies de cactos: a me-dá-um-cigarro, a há-dez-anos-atrás, a você-por-tu, vulgarmente degenerada na tu-vai, a deixa-eu-passar, a nem-ele-e-nem-ela, a cheguei-tarde-em-casa, a te-esconjuro-mesóclise, a saíram-para-passearem, a vende-se-demagogias, a cocei-minha-cabeça, a vi-eles-dormirem, a dá'qui-a-gramática-pra-mim-queimá (esta, verdade seja dita, não se radicou entre os escritores), a não-tem-livro-na-estante, a híbrida eu-prefiro-mil-vezes-ir-na-praia-do-que-assistir-uma-peça-de-teatro e, dentre muitas outras, a aguda a-nível-de, a qual, além de ter adquirido foros catedráticos, elegantemente se poderia chamar ao-rés-do-chão; não lhe bastassem três décadas quase ininterruptas de populismo, em que se geraram importantes teorias e práticas educativas, qual a internacionalmente reconhecida Pedagogia do Oprimido, que infaustamente, por não atinar que o não domínio do saber universal é o que abisma qualquer na mais negra margem, acaba por acumular opressão sobre opressão na alma do pobre coitado, três décadas a que se seguiram dois decênios de muito progresso econômico, nos quais porém se pôs fim ao curso clássico e de roldão ao ensino da filosofia, do latim, do francês e de fato da gramática portuguesa, em prol dum inglês de tour e de ciências exatamente de molde, mínimo, para a indústria que entre nós aportava, dois decênios a que se seguem já quase quinze anos de menoscabo de quanto importa fundamentalmente ao espírito humano, quinze anos em que, das cátedras à presidência da República, os adversários do regime anterior se vêm empenhando na idiotização das elites, incluídos eles próprios, com CIEPs e que tais, com diplomas universitários produzidos em escala e ritmo industrial e com um exército de mestres que maioritariamente já não o são stricto sensu, tudo coroado por estulto desdém do idioma, tornado em mero instrumento auxiliar da troca de mercadorias e de efemeridades; não lhe bastasse, pois, tudo isso e muito mais, ainda deu de florescer neste canto do mundo estranha, mui estranha vergôntea: helvética de raiz, fundada por homem que aborrecia a escrita e codificada a partir das anotações de pupilos embevecidos com o guia, a Lingüística, que assomou arrotando a própria condição científica, desprezando toda a longa cadeia de pensamento gramatical que remonta à Antiguidade grega e arvorando-se em saber exclusivo de todos os fatos da língua - os quais para ela, pelo cândido motivo de ser fatos, não se sujeitam a critérios de valor nem a normas - mas, além de não ter conseguido transpor o umbral dos fenômenos fonéticos e de ter dado à luz abortos vários, aqui se destacou sobretudo por ter-se tornado no leito de Procusto da língua portuguesa e na macia cama dos que, avessos a toda e qualquer disciplina, a todo e qualquer esforço de aperfeiçoamento e aprendizagem, a, enfim, toda e qualquer tradição, entraram, do Oiapoque ao Chuí, com o Curso de Lingüística Geral e quejandos em riste, a predicar aos quatro ventos que a língua tem de ter curso livre, sem amarras que lhe tolham o evolvimento, o fluir, não dependesse ela incontornavelmente da intervenção normativa do homem: Haveria idioma qualquer, ainda que analfabeto, sem a constante correção paterna dos erros morfológicos e sintáticos da criança? E haveria civilização qualquer sem língua formal, com que se fundam os Códigos e Cânones e por que vela a gramática?

Em suma, terra arrasada: não apenas a crescente dificuldade de compreender períodos com "demasiada" subordinação ou com o sujeito distante do verbo - o não poder ler senão Paulo Coelho - mas também, e conseqüentemente, o culto ao solecismo, e a falência da inteligibilidade, e o grassar de traduções pífias, e a incensação de escritores menores, e a rendição de grande parte dos gramáticos à deriva da língua, e, cúmulo dos cúmulos, a entronização de dicionário que comercialmente depôs autoridades como o Caldas Aulete, o Melhoramentos, o Laudelino Freire, o Lello Universal, e, no catar exemplos, foi beber em fontes tão lustrais quanto a inolvidável Marisa Raja Gabaglia!

É tal, pois, o estado de indigência da língua portuguesa no Brasil, tão justamente podemos dizê-la, aqui e agora, a flor do Lácio inculta e feia, que havemos de perdoar a algum seu amador se, tomado de desespero, tentar constituir uma como associação: Os Remanescentes Cultores do Vernáculo, ou, aturdido, convocar em data próxima algo como uma Semana de Arte Parnasiana.

 

Carlos Nougué é professor de latim e português e revisor; seus trabalhos mais recentes incluem, entre outros, os Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, A Sociedade de Confiança, de Alain Peyrefitte, e As seis doenças do espírito contemporâneo, de Constantin Nöica.

 


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