ARTICULISTA CONVIDADO

A perplexidade que a crise provoca

Dr. Júlio Fleichman


Ao longo desses 39 anos que vem durando aquilo que chamamos "a crise da Igreja", interrogam-se os católicos fiéis: — Como é possível que uma crise dessa ordem tenha ocorrido e dure tanto? Como é possível que a Igreja, que tem a garantia celeste do dom da infalibilidade na pessoa do Papa, tenha encontrado, justamente no Papa, o agente principal que deu origem à crise, assegurou sua continuidade e seus desdobramentos e continue a expandir cada vez mais suas maléficas conseqüências? Como é possível que nas constituições eclesiais todas, nas autoridades eclesiásticas, nos bispos, nos organismos de governo da Igreja, em toda a parte a linguagem católica tenha desaparecido e a natureza do que dizem, escrevem, ensinam, pregam indique, com evidência cada dia maior, que já não é o catolicismo que inspira seus pronunciamentos. Será, se quiserem, a linguagem da ONU, dos jornais, dos dirigentes das nações, uma filantropia mundana, uma pregação da paz e da fraternidade que não é incompatível com as maiores crueldades, uma preocupação com assuntos ditos "sociais" que assimila a mais impudente parcialidade na discussão dos problemas econômicos e políticos. E, como se não bastasse, todos esses pronunciamentos (e de seus êmulos leigos) caracterizam-se pela mais obtusa incompetência, pela falta de sabedoria. A mentira preside, muitas vezes oculta, esse festival de autoridades civis e eclesiásticas a falarem a mesma língua e a proclamarem a mesma e hipócrita preocupação com o bem dos povos. A mim, lembram-me, nesse espetáculo sinistro, a "furiosa fornicação da grande Meretriz com os reis da terra" do Apocalipse (caps. XVII e XVIII).

Diante de tal crise, dividem-se os espíritos. Para uns, não há propriamente crise, as autoridades da Igreja continuam a dirigi-la santamente, o Papa continua sendo o Santo Padre e, no máximo, acham que aqui e ali alguns dos cardeais ou bispos extrapolam, exageram, dizem inconveniências e o Papa corta suas asas. Para outros, a Igreja, sendo uma sociedade perfeita, tem obrigatoriamente meios de defender-se de uma crise de tal magnitude, cujas conseqüências são evidentes e a malignidade destas mais evidentes ainda. Por isso entendem que o Direito Canônico e a resistência de alguns poucos bispos e fiéis permite a seus raciocínios encontrarem formulações em que reconhecem a Igreja como acéfala, o Papa declarado ilegítimo, sua eleição nula ou sua autoridade extinta pela auto-deposição. Para nós, que nos resignamos a sofrer com a Igreja, acompanhando Monsenhor Lefèbvre e Dom Antonio de Castro Mayer, para nós que consideramos uma graça dos céus podermos efetivamente, profundamente, sofrer com a Igreja, reconhecendo-nos preparados por circunstâncias acidentais a bem experimentar esse sofrimento que nos honra, para nós porém, subsiste um impasse, um mistério. Por um lado não podemos negar que o Papa atual e bem assim seus três predecessores imediatos foram legitimamente eleitos e sua eleição aceita pelo clero de Roma, critério tradicional pelo qual se reconhece na Igreja Católica a legitimidade da eleição de um Papa. Porém, por outro lado, não podemos deixar de constatar que tudo aquilo que os últimos Papas e seus cardeais e bispos dizem soam a uma outra e estranha linguagem, rescendem a um outro e maligno odor e isso mesmo nos seus pronunciamentos menos ostensivamente contrários ao que a Igreja Católica sempre ensinou. E é por isso que não os podemos seguir, não os podemos acatar embora reconhecendo que são eles os legítimos dirigentes da Igreja.

Como sustentar esta posição que se vê diante de um impasse no qual sabemos, sentimos que devemos manter os dois pontos terminais da corrente mas não os sabemos unir?

Vemos que o mundo continua a girar e os homens a se ocuparem com seus afazeres ainda que temerosos diante de uma angústia mais ou menos difundida, que muitos nem sequer sabem que experimentam no fundo de suas almas. Talvez por isso não nos lembremos que esta crise tem todas as notas de uma crise terminal e que vivemos dias de fim de mundo. E se isso é assim, a crise atual da Igreja é ainda mais vasta, mais grave e terrível do que ousa sonhar a nossa limitada inteligência. Mas isso não foi predito? Não está escrito que os homens, nos últimos dias, comerão e beberão e darão suas filhas em casamento até que venha o Filho do Homem (Mateus XXIV, 37-39)? E que esta vinda será súbita e terrível como foi a ocorrência do dilúvio?

Os recentes episódios públicos em torno de "predições" de fim de mundo com data marcada de antemão, predições desmentidas pelos fatos, expuseram ao ridículo seus expectantes porém deixaram no espírito de muitos a impressão de que falar em fim de mundo é, também, ridículo. Ora, o mundo vai acabar mesmo e isso de modo súbito. As profecias a respeito, que não incluem nenhuma data marcada, são dos próprios Evangelhos e não de "profetas" avulsos. Nos Evangelhos, as profecias a respeito do fim do mundo são, principalmente, de Nosso Senhor e a Ele é que devemos recorrer para pedir não só uma direção sobre a atitude que devemos tomar diante de um evento dessa magnitude como também uma explicação para o impasse em que nos encontramos, impasse que, como dissemos, de um lado nos assegura que as autoridades mais altas da Igreja foram legitimamente eleitas, estão dotadas do legítimo direito de mandar mas nós não podemos obedecer porque elas falam uma linguagem que vem do inferno.

As palavras mais impressionantes de Nosso Senhor a respeito de tudo isso começam assim:

"Quando, pois, virdes a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel posta no lugar santo - o que lê, entenda - ..." (Mateus XXIV, 15).

O que lê, entenda... Dir-se-ia que Nosso Senhor não quer que nos ponhamos a esmiuçar tanto o que está predito no profeta Daniel mas apenas, depois de constatar o que ele profetizou, usá-lo com inteligência e aplicá-lo aos tempos presentes. E por quê? Porque, evidentemente, muitos dos detalhes não foram e nem podiam ser esmiuçados antecipadamente nas profecias nem do Antigo nem do Novo Testamento. Não seria possível antecipar uma referência direta à Igreja Católica que ainda nem existia nos tempos do profeta Daniel e, mesmo nos tempo em que foi escrito o Apocalipse, estava ainda só começando.

As palavras de Nosso Senhor foram escritas para homens comuns e não apenas para especialistas em exegese. Os especialistas, certo, devem ser ouvidos; porém, a interpretação do que está escrito deve ser alguma coisa que os mais simples entendem.

Se quisermos conceituar o que é a "abominação da desolação" não podemos deixar de considerar o fato de que as mais altas autoridades da Igreja, o próprio Papa, cardeais do tipo Martini, Etchegaray, Ratzinger e outros, rescendem a enxofre do inferno. Monsenhor Lefèbvre escreveu que o que nos vem de Roma é uma espécie de Aids espiritual e eu mesmo, antes de ler isso, já havia escrito que o que nos vem de Roma é uma espécie de lepra espiritual, infecciosa e altamente contagiosa, uma lepra que inclina à perdição. Ora, isso é, parece-nos evidente, a abominação da desolação por excelência. Essa evidência nos é dada, a nós que sofremos em silêncio com a Igreja perene, pela dor que nos aperta o coração. E para nós é também evidente que o "lugar santo" a que se refere a profecia de Daniel, retomada por Nosso Senhor, não é apenas, como pensaram alguns, uma questão de missas sacrílegas produzidas pelos ritos novos ditos de Paulo VI. O que é insuportável, o que clama aos céus e inclusive produz as missas sacrílegas, o que nos sufoca é a abominação da desolação posta no mais alto ponto da Santa Igreja Católica. E se disso é que se trata, então não vem ao caso, não tem pertinência, insistir no fato de que a Igreja é uma sociedade perfeita. Ela é, sim, uma sociedade perfeita mas nem por isso imune aos assaltos imprevistos e de tal magnitude por parte de inimigos que excedem a capacidade dos humanos. Trata-se de um cataclisma inimaginável, impossível de previsão detalhada, cuja terrível significação abala o firmamento e aponta para um fim que não pode estar muito longe porque, do contrário, não se salvaria pessoa alguma se "não se abreviassem aqueles dias" (Mateus XXIV, 22). A pretensão de resolver com soluções canônicas ou jurídicas tal portento excepcional parece-se com a idéia de que numa batalha, em plena guerra, os tanques que atacam uma cidade se detenham com sinais de trânsito ou recuem diante de ruas na contramão.

Se estas considerações têm cabimento, damo-nos conta de que, ao contrário do que a inércia atual poderia fazer-nos crer, ao contrário do que as coisas que ainda guardam sinais de normalidade poderiam nos fazer esquecer, a crise da Igreja é, efetivamente, muito mais grave, terrível, gigantesca do que poderíamos imaginar. E de que os tempos estão, efetivamente, mais próximos do fim. Pois, tamanha é a extensão dessa crise, tamanha a gravidade de sua natureza que, podemos dizer, não é possível haver crise mais grave do que esta, pelo menos quanto à sua natureza, já que se trata de ter-se calado, quanto à sua ortodoxia, a voz da mais alta autoridade da Igreja. Lembramo-nos das palavras dessa mesma profecia: "O sol e a lua deixarão de dar a sua luz e as estrelas do céu cairão" (Mateus XXIV, 29). Pensará alguém que se trata aí de profecia geográfica ou astronômica? Evidentemente o sol e a lua que não mais darão a sua luz nos últimos tempos significam que a Igreja (e o Papa) não mais ensinarão a verdadeira doutrina como predisse São Gregório Magno que, por estas palavras, assustou o Pe. Emmanuel - vide Permanência no 206-207 (1) - cem anos atrás. E as estrelas que cairão dos céus são os bispos como, aliás, conceberam vários autores.

Mas, voltemos aos ensinamentos de Nosso Senhor. Que nos diz Ele diante de tal quadro? "... Então, os que se acham na Judéia fujam para os montes..." (Mateus XXIV, 16). Que significa isso: os que se acham na Judéia? E o que são os montes?

A Igreja Católica, no século XVI, cindiu-se em dois grandes pedaços: de um lado, os protestantes que, como acontece com os cadáveres, primeiro incharam e se alastraram pela Europa e depois começaram a se subdividir em seitas inúmeras, assim como numa decomposição gradual; de outro lado, a Igreja Católica que conservou por 400 anos a fidelidade e a santidade que lhe são próprias embora, ao longo de abalos sucessivos que a foram marcando e multiplicando a iniqüidade, não pudesse impedir que se resfriasse a caridade entre os sacerdotes e fiéis. O mesmo fenômeno ocorreu com Israel. Depois do reinado de Salomão, cindiu-se em dois reinos, Israel e Judá. Israel logo perdeu-se nos desvarios de reis pecaminosos enquanto que Judá, figura da Igreja, conservou durante longos anos uma seqüência de reis fiéis, às vezes entremeados de reis iníquos mas, ainda assim, recuperando seu caminho para a santidade até que, prevaricando também, acabasse por desaparecer sob o jugo dos helenizantes, primeiro, e dos romanos depois. E então veio o tempo de Nosso Senhor. Assim, entendo eu, "aqueles que se acham na Judéia" (e note-se, só para eles é que Nosso Senhor dá diretivas) significam aqueles que se acham na Igreja Católica, os fiéis católicos de modo geral. Só para estes, só para nós, Nosso Senhor dá suas recomendações. E o que diz ele? "Fugi para os montes". Que são os montes?

Esta expressão, os montes, aparece freqüentemente no Antigo Testamento, ora significando, sobretudo quando se fala no monte Sião, a sinagoga, o lugar santo, o lugar em que Deus habita entre seu povo; assim, por exemplo:

"Visão que teve Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém. E acontecerá nos últimos dias que o monte da casa do Senhor terá seus fundamentos no cume dos montes e se elevará sobre os outeiros." (Isaías II, 2)

Note-se que este texto inclui mais de um significado para a palavra "montes". No singular, o monte da Casa do Senhor, é Jerusalém e Judá, isto é, prefigura a Igreja Católica. Mas, diz o texto, nos últimos dias seus fundamentos estarão sobre "os montes", no plural, e também sobre os "outeiros", isto é, os montes menores. Estas mesmas palavras são repetidas pelo profeta Miquéias (IV, 1-3) que diz: "E acontecerá que, nos últimos tempos, o monte da casa do Senhor será fundado sobre o alto dos (outros) montes e se elevará sobre os outeiros" (a palavra "outros" é uma interpolação do texto da Vulgata). Assim, uma primeira conclusão se impõe: nos últimos tempos a casa do Senhor terá seus fundamentos em alguma coisa que não sua base habitual. Fundar-se-á nos (outros) montes e nos outeiros.

Há assim que se procurar a outra significação para a palavra "montes" no plural. Vamos aos Salmos:

"Levem os montes paz ao povo e os outeiros, justiça." (Salmo LVXXI, 3)

"[Ó Deus]... que dás firmeza aos montes com a tua força..." (Salmo LXIV, 7)

"Quem subirá ao monte do Senhor ou quem estará no seu lugar santo?

"O inocente de mãos e limpo de coração, o que não entrega às vaidades a sua alma, nem fez juramentos dolosos ao seu próximo". (Salmo XXIII, 3 e 4)

Aos salmos que utilizam a expressão nesse sentido, juntamos o comentário de São Gregório Magno sobre Isaías II,2:

"Ora, a Casa do Senhor foi o povo israelita, de modo que aquele monte que se dignou encarnar no povo de Israel é chamado Casa do Senhor. É verdade que neste povo houve varões santos que, com razão poderiam chamar-se montes porque, por méritos de sua vida acercaram-se aos céus..." (São Gregório Magno, Obras, BAC, Madri, 1958, p. 395, em espanhol).

Parece-nos assim cabível considerar que a palavra "montes", naquele texto, significa "os santos". E o que Nosso Senhor nos está dizendo é que, quando virmos a abominação da desolação posta na Igreja, fujamos para os santos, isto é, para os exemplos de santidade e reta doutrina que a Igreja, ela mesma, antes que a abominação da desolação a tenha maculado e desfigurado, tinha posto nos altares para a nossa edificação. Fujamos para a Igreja do passado tal como ela foi durante os vinte séculos de sua história e até o reinado de Pio XII.

Fujamos para a Igreja do Papa Santo, São Pio X e sua encíclica "Pascendi" e a condenação do movimento "Le Sillon" e o juramento anti-modernista que exigiu de todos os padres e bispos e que, os que fizeram a atual revolução da Igreja, traíram.

Fujamos para o Papa Pio IX e o decreto do "Sillabus" que condenou os erros da mentalidade contemporânea.

Fujamos para o Concílio Vaticano I e o Concílio de Trento que consolidaram a doutrina católica e a defenderam doa ataques dos protestantes.

Fujamos para o Santo Papa São Pio V que proclamou a missa católica tradicional intocável e anatematizou quem a pretendesse modificar.

Fujamos para a Igreja tal como foi dirigida durante vinte séculos pelos santos Papas e os Papas que, sem serem santos, jamais tocaram na doutrina, jamais faltaram à verdade católica, jamais deixaram de guardar fielmente e fielmente transmitir o Depósito Sagrado da Revelação católica.

E com isso, fujamos da Igreja oficial atual com seu ecumenismo, suas inovações, suas novidades, seus escândalos que se sucedem impunes há tantos anos. Fujamos dessa linguagem dúbia, pérfida que nos traz sinais de uma inspiração malévola e odor de uma origem infernal.

Porque Nosso Senhor acrescenta, nessa mesma mensagem, depois de nos dizer que fujamos para os montes, o seguinte:

"O que se acha sobre o telhado não desça a tomar coisa alguma de sua casa e o que está no campo não volte a tomar a sua túnica." (Mateus XXIV, 17-18).

Isto é, se bem entendo: as pessoas timoratas não tenham escrúpulos, não procurem contemporizar com a Igreja oficial, não se deixem tolher por regras formuladas para os tempos comuns e não para os tempos extraordinários de fim de mundo em que vivemos. Não pretendamos tomar coisa alguma das normas do passado. Não tenhamos hesitações. Não voltemos a pedir nada, a esperar nada da Igreja oficial atual. Fujamos para os montes.

 

(1) Nota de Pedro Sette Câmara: Dr. Júlio Fleichman se refere à revista editada pelo grupo formado em torno da figura de Gustavo Corção. Tenho em minhas mãos o referido número, datado de janeiro-fevereiro de 1986, e este contém os valiosos comentários do Pe. Emmanuel a respeito das profecias de São Gregório Magno. Como seria bom se pudéssemos colocar tudo isto na Internet!


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