ARTICULISTA CONVIDADO

A doutrinação comunista nas escolas de classe média

Por Joel Nunes dos Santos


Nota prévia: Este livro ("História & Vida, volume 2. Brasil: do Império aos dias de hoje", de Nelson Piletti e Claudino Piletti, Editora Ática, 18a. ed., 1997, onde consta "Edição totalmente reformulada e atualizada") foi adotado (por imposição do MEC) na escola de meu filho, no ano passado(1999): ele tinha então 12 anos e cursava a 6a. série.

 

BRASIL:
DO IMPÉRIO
AOS DIAS DE HOJE

1. Após a Independência, os donos do poder tentam organizar o Império segundo seus interesses

2. Em várias províncias, surgem revoltas e tentativas de separação

3. Com dom Pedro II, o Império se consolida e se mantém por quase meio século

4. Novos grupos sociais colocam em xeque o Império

5. Os novos donos do poder acabam com o Império e implantam a República

6. O povo continua insatisfeito e revoltas sacodem o país de norte a sul

7. Diante de tantas revoltas, os donos do poder aplicam vários remédios: repressão, revolução e ditadura com mais repressão

8. Vencida a ditadura, voltam as eleições e o povo conquista alguns avanços

9. Os militares impõem nova ditadura, anulam as reformas e submetem o país à mais violenta repressão

10. Finalmente, o povo reconquista a liberdade e caminha para a democracia

11. Enquanto isso, a riqueza de poucos continua provocando a miséria de muitos

12. No campo, os trabalhadores lutam pela terra

13. Na cidade grande, o povo procura trabalho, salário justo e melhores condições de vida

14. No campo e na cidade, a cultura apresenta várias visões do Brasil

15. Nosso país se relaciona com outros países

16. Muitos brasileiros tentam mudar nosso país por meio da participação democrática

O Prefácio é como se lê abaixo:

Caro aluno

Esta não é uma história que conta apenas a vida e as ações de quem manda, dos governantes e dos poderosos grupos econômicos, mas uma história que conta a vida e as ações de todo o povo: índios, negros, brancos, mulheres, homens,crianças, jovens, velhos...

Não é uma história que se limita a datas e nomes de pessoas importantes, mas uma história que inclui o dia-a-dia do povo, suas condições de vida: trabalho, lazer, alegrias, crenças, condições de alimentação, moradia, educação, saúde...

Não é uma história que se resume ao estudo de um passado distante, morto e enterrado, e que nada tem a ver com a vida dos dias de hoje, mas a história de um passado que continua no presente, e do qual todos participamos.

Não é uma história fechada, baseada numa única versão, mas uma história aberta, que favorece a reflexão e a discussão, com numerosas leituras e atividades diversificadas em cada capítulo.

A história que contamos nesta coleção é uma história ligada à vida do passado e do presente - uma história que é vida.

Com os livros desta coleção você vai ligar sua vida à história. O dia-a-dia de suas atividades vai ajudar a construir a história.

Bom estudo.

Os autores (Nelson e Claudino Piletti)

(Os grifos são todos meus).

 

É livro dirigido a meninos e meninas de 6a. série. Pinta um panorama do passado que é cópia do que só existe no presente. Assim, o título Novos grupos sociais colocam em xeque o Império, O povo continua insatisfeito e revoltas sacodem o país de norte a sul, e demais títulos, dão a impressão de que a população daquela época era tal e qual é a atual população de São Paulo, do Rio de Janeiro ou de alguma outra metrópole atual ("novos grupos sociais"... "o povo..." "...revoltas sacodem o país..."). Claro que qualquer um que leia isto formará uma imagem do passado que é cópia do que vê no presente: população altamente organizada em grupos distintos e dotados de força reivindicativa considerável; meios de comunicação de massa sofisticadíssimos; ação organizada... Quanto mais crianças de 6a. série, que irão formando uma imagem do passado não pelo que o passado era (ou mesmo poderia ser, considerados os recursos da época e tipo de pessoas e valores então vigentes), mas de acordo com o que estes doutrinadores gramscianos desejam que seja visto. Claro que tal maneira de abordar o passado (falsificando, como é próprio do comunista fazer, a História) realiza (ou tenta realizar) a promessa constante no final do Prefácio: "O dia-a-dia de suas atividades vai ajudar a construir a história." "Construir a história" significa: falsificá-la.

A causa de revoluções que houvessem é sempre fundada num mesmo motivo: grana. Assim, a respeito da Confederação do Equador, lê-se na Ficha:

Causas: Miséria da população e autoritarismo do imperador.
...
Resultados: Os revoltosos foram derrotados; dezenove foram condenados à morte, sendo desseis deles executados; o imperador continuou mandando e desmandando no Brasil até 1831, quando foi forçado a renunciar.

A "Noite das Garrafadas" (13/3/1831) é explicada como uma luta entre "os populares" e o Imperador: "...do alto das janelas os portugueses jogavam garrafas nos brasileiros, enquanto estes pediam a renúncia do imperador...", dando, o modo como a coisa é apresentada, a parecer que o que lá ocorreu foi algo semelhante a uma passeata de bancários ("os populares") sendo violentamente reprimida por algum esquadrão de choque da polícia ou do exército. Os autores nem mencionam o fato de que, com a renúncia de D. Pedro I ao trono de Portugal e decretação da independência do Brasil (naturalmente que tais coisas sendo mero resultado da ação da Maçonaria - que, de "popular" não tinha, nunca teve nem tem nada), tornava-se problemático a administração exercida por portugueses em terras brasileiras. Os tais "populares" a que os autores se referem são a aristocracia brasileira (que, de "populares" não tinham nada). Mas do jeito como colocam as coisas, o termo "brasileiro" naturalmente que tem a força de fazer as crianças evocarem , bancários, professores, taxistas, perueiros, etc. Há ainda a citação de trecho de um livro (cfe. Consta, "Adaptado de: Luís H. D. Tavares, O fracasso do imperador: a abdicação de d. Pedro I, São Paulo, Ática, 1986, p. 12), onde, no fim se lê: "E a portuguesada, de cacete em punho, embriagada pela vitória, avançando e malhando, malhando como se malha o Judas em Sábado de Aleluia. Os feridos, jogados no chão, eram chutados e pisoteados." E o livro inteiro mantém esta mesma cantilena, num clima de constante "luta de classes", com muito sangue e heroísmo por parte dos revolucionários. Assim, na pág. 21 lê-se: "No Pará, os cabanos lutam por melhores condições de vida", título do trecho que começa: "A fome e a miséria do povo e a revolta contra o presidente da província...".

Na pág. 43, a respeito da escravidão: "E o tráfico negreiro chega ao fim", título cujo texto a seguir assim começa: "Os escravos que trabalhavam nas fazendas não se submetiam facilmente à escravidão. Resistiam de diversas maneiras: alguns se matavam, outros fugiam, reuniam-se nos quilombos e organizavam-se para lutar contra os ataques dos seus perseguidores. Os quilombos foram numerosos em todo o Brasil." O que nada mais é que a superposição da figura do escravo pela do revolucionário (os perdedores na disputa pelo poder no Brasil na época da luta armada). Bem no estilo: já que não ganhamos realmente, vamos inventar, para as crianças, que no passado, mas bem passado mesmo, nós ganhávamos.

A idéia de apresentar simples bandidos como heróis populares permeia todo o livro. Alguns exemplos:

Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel):
"Filho de um pequeno comerciante de Quixeramobim, Ceará, Antônio nasceu em 1828. Aos seis anos perdeu a mãe e, aos 27, ficou órfão de pai. Passou então a cuidar do negócio da família, que abandonou dois anos mais tarde para casar-se e ser professor numa escola de fazenda. Tornou-se escrivão de cartório e rábula (advogado sem diploma). Mas um grave problema pessoal acabou por mudar totalmente a sua vida: traído pela mulher, que fugiu com outro homem, Antônio começou a andar pelo Nordeste, restaurando igrejas e cemitérios. Ao mesmo tempo, começou a ler e pregar o Evangelho, ouvindo os problemas das pessoas e dando-lhes conselhos." Nem precisa comentar: de corno a líder revolucionário.

No tópico "Palavras-chave", na pág. 64, lê-se:

Cangaço: Movimento formado por grupos armados existentes no sertão nordestino nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX. Esses grupos invadiam cidades e fazendas espalhando a justiça com as próprias mãos, muitas vezes tirando dos ricos para dar aos pobres; eram considerados bandidos por uns e heróis por outros. Significa, também, o modo de vida do cangaceiro, participante do cangaço. (O grifo é meu).

Lê-se, em "Camaradas", de William Waack: "...em relação ao movimento cangaceiro, o PCB deve empenhar-se na tarefa de estabelecer contatos mais estreitos com as massas de grupos cangaceiros, postar-se à frente da sua luta, dando-lhe o caráter de luta de classes, e em seguida vinculá-los ao movimento geral revolucionário do proletariado e do campesinato do Brasil".

A idéia de que o bandido, o assaltante, é algo assim como um Robin Hood resulta, como já se sabe, do aprendizado, pelos da Ilha Grande, das técnicas de agitprop. Como desconheço quem sejam os autores deste livro, por certo que não desconhecem (uma vez que a aplicam com maestria, para crianças de 12 anos) a técnica retórica, revolucionária, que consiste em levar o "povo" a ver como protesto político condutas simplesmente criminosas (como assaltos a bancos, seqüestros, assassinatos, etc.). Lampião é apresentado como o modelo do homem movido pelo ideal de justiça, coisa essa só crível pelos próprios comunistas (que, aliás, também não acreditam nisso) e por, talvez, crianças de 12 anos ou menos ou um pouco mais e que não tenham pais que se dêem ao trabalho de darem uma olhada no que dão a seus filhos para lerem.

Na pág. 71, há o "Manifesto de Luís Carlos Prestes", com um desenho da figura do "herói", atrás, no desenho, silhuetas de pessoas que representam "povo", acima das quais há o desenho da foice e do martelo, bem como na frente da figura do Prestes - dando a entender ter ele a missão de conduzir o povo a algum jardim delicioso, por certo epicúreo... Eis o manifesto:

Não nos enganemos. Somos governados por uma minoria que, proprietária das terras das fazendas e latifúndios e senhora dos meios de produção e apoiada nos imperialismos estrangeiros que nos exploram e nos dividem, só será dominada pela verdadeira insurreição generalizada, pelo levantamento consciente das mais vastas massas das nossas populações dos sertões e das cidades.

Lutemos pela completa libertação dos trabalhadores agrícolas de todas as formas de exploração feudais e coloniais, pela confiscação, nacionalização e divisão das terras, pela entrega da terra gratuitamente aos que trabalham. Pela libertação do Brasil do jugo do imperialismo, pela confiscação e nacionalização das empresas estrangeiras de latifúndios, concessões, vias de comunicação, serviços públicos, minas, bancos, anulação das dividas externas. Pela instituição de um governo realmente surgido dos trabalhadores das cidades e das fazendas, em completo entendimento com os movimentos revolucionários antiimperialistas dos países sul-americanos e capaz de esmagar os privilégios dos atuais dominadores e sustentar as reivindicações revolucionárias.

Assim, venceremos. (Diário da Noite. São Paulo, 29/511930.) (Grifo meu).

Nenhuma menção a alguns fatos da vida de Prestes:

- recebeu, de Getúlio Vargas, em janeiro de 1930, 800 contos de réis (cerca de 80 mil dólares). Ficou com o dinheiro para si ("Camaradas", de William Waack, pg. 29), dos quais levou 20 mil dólares, considerando-o seu próprio dinheiro, para internacional(pg.43);

- recebia salário de Moscou: em cifras de hoje, corresponderia a mais ou menos 1.015,00 dólares americanos (idem, pg. 115);

- foi defendido por Sobral Pinto, advogado cristão (não se tendo registrado conduta semelhante de algum comunista em bem de algum cristão ou de convicções distintas das suas próprias);

- nada se diz a respeito da mulher que ele pediu que matasse por suspeitar (estava enganado) que ela fosse espiã. Ele, Prestes, considerava isto um "erro menor", uma pequena falha.

Considerando que o livro do Waack foi escrito em 1993 e aquele, da escola, que estou comentando, é de 1997, e sendo uma "edição totalmente reformulada e atualizada", não seria crível que aqueles autores desconhecessem tal livro. Logo, omitiram dados para poderem mentir (como omitiram dados a respeito de quem eram os contendores na "Noite das Garrafadas"). Quer ver? Olha só o "retrato'' que fizeram de Luís Carlos Prestes (no tópico "Retrato", na pág. 81):

"Verdadeiro símbolo do comunismo brasileiro, sempre perseguido por suas idéias - viveu 9 anos preso, 16 anos no exílio e 18 anos na clandestinidade -, Luís Carlos Prestes nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 3 de janeiro de 1898.

Em 1919, formou-se na Escola Militar do Rio de Janeiro e foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul, onde ocupou o cargo de tenente-engenheiro.

Como líder da revolta do Batalhão Ferroviário de Santo Angelo, Rio Grande do Sul, em 1924, uniu-se aos chefes do movimento revolucionário de São Paulo, em Foz do Iguaçu, formando a Coluna Prestes, que percorreu cerca de 25.000 quilômetros do território nacional.

Exilado na Bolívia, em 1927, Prestes começou a interessar-se pelos ideais comunistas e entrou no Partido Comunista do Brasil no início da década de 1930, do qual se tornaria secretário geral em 1943, mesmo estando na prisão.

Após alguns anos de exílio na União Soviética, voltou ao Brasil para organizar a revolta comunista de 1935, tendo sido preso no ano seguinte e solto por força da anistia de 1945, ano em que foi eleito senador. Cassado em 1947 passa a viver na clandestinidade.

A ditadura militar de 1964 cassou seus direitos políticos, o que fez com que ele se exilasse novamente na União Soviética, de onde voltou com a anistia de 1979. Em 1980, perdeu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro. Morreu no Rio de Janeiro em 7 de março de 1990."

Há ainda outros "heróis": Olga Benário, Lamarca (com convite a que as crianças assistam "Lamarca, Capitão da guerrilha), Carlos Marighela, Vladimir Herzog (chamado "Vlado"), Lula, os católicos comunistas, o MST (e todas as pessoas a ele ligadas, direta ou indiretamente, como as ligas camponesas e sindicatos), Francisco Julião; os "injustiçados negros", os quais "sofrem as maiores injustiças no campo da educação", a "classe operária"...

Quanto à música, nenhuma menção a Carlos Gomes, a Heitor Villa Lobos; apenas Noel Rosa, Vinícius de Moraes (que nem músico é), Chico Buarque de Holanda...Realmente, os autores são caras-de-pau.

 

Paro por aqui. Mas creio que isto é o bastante para se dar uma idéia de por que eu disse tratar-se, pura e simplesmente, de doutrinação comunista (portanto, revolucionária, o que significa transformar crianças em sabotadoras, primeiro dos pais, em seguida de todo o país e, pior ainda, de todos os mais caros valores, nunca negados por nenhuma civilização). Considerar cada título do livro, cada texto, seria trabalho para livros e mais livros, o que está fora de questão. Acho de extrema maldade o conteúdo deste livro, bem como do de Geografia, do de Português (que cita letras de músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque, trechos de jornais e nunca nenhum autor nacional que tenha criado alguma obra de valor universal, como, por exemplo Machado de Assis - só fala dele para exaltar o fato de ele ser de "origem humilde, trabalhador de tipografia, etc.", omitindo-se de dizer que ele, como mulato, naquela época, vivia muito bem - obrigado! -, estudou francês e foi recebido na Maçonaria e também pela própria Princesa Isabel). Há limites para a força do estômago, e já fui além do que o meu agüenta.

05-03-2000
Joel N. dos Santos, SP.


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