ARTICULISTA CONVIDADO

 

JOEL NUNES DOS SANTOS


Cinderela, o Encanto da Sabedoria

 

jonusant@node1.com.br;

jonusant@sol.com.br

 


PREFÁCIO

Eu já tinha planejado escrever este livro há uns cinco anos. Na verdade, não era bem este livro, mas, sim, um livro sobre o "Complexo de Cinderela", de Colette Dowling.

A primeira vez que vi o livro da Colette foi nas mãos de uma secretária de um dos consultórios onde trabalhei. Ela pediu que eu o lesse e lhe contasse do que tratava, já que a outra psicóloga a quem ela secretariava o havia recomendado. Li o livro e lhe disse que o ponto de vista da autora é o seguinte: "as mulheres são educadas para se sentirem sempre parte de uma outra pessoa e, quando têm chance de serem livres, assustam-se e a rejeitam. Diz que 'de modo igualmente sistemático, as mulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum modo, serão salvas. Este é o conto de fadas'...".

Colette começa seu livro narrando uma experiência de terror-pânico por sentir-se só. Depois, menciona a solução que encontrou: fazer terapia, onde acabou "descobrindo" que seus problemas atuais decorrem da sua infância. Crê que a educação que recebeu - e que as mulheres recebem - é no sentido de manutenção de uma mentalidade de eterna dependência. Enxerga Cinderela como o símbolo desta dependência, do viver à espera de que alguém (um homem) apareça e resolva os problemas, na medida mesma em que cuida da mulher, a qual dificilmente se corrige de sua dependência.

À luz de seu próprio diagnóstico, é possível admitir que a história de Cinderela a marcou muito desde a infância e a levou a concluir a respeito de Cinderela o que seria admissível concluir a respeito das irmãs da Cinderela. A autora preferiu manter sua opinião (infantil) em detrimento de um exame mais razoável da história mesma, em qualquer de suas versões, a original, alemã, ou a americana, que lhe introduz ligeiras modificações para acomodá-la ao ascéptico gosto americano.

Imbuída do propósito de contribuir para a solução deste grave problema educacional na vida das mulheres, escreveu o livro "THE CINDERELLA COMPLEX - Women's Hidden Fear of Independence" ("O COMPLEXO DE CINDERELA - O Medo Inconsciente das Mulheres por Independência"). Diz: "A tese deste livro é a de que a dependência psicológica - o desejo inconsciente dos cuidados de outrem - é a força motriz que ainda mantém as mulheres agrilhoadas. Denominei-a "Complexo de Cinderela": uma rede de atitudes e temores profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e impede-as de utilizarem plenamente seus intelectos e criatividade. Como Cinderela, as mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas."

Como eu já conhecia a história de Cinderela tanto na versão (adocicada) americana quanto na versão ("seca") alemã, dos Irmãos Grimm, pareceu-me um despropósito o ponto-de-vista da autora. Por cinco anos, sem ter tido tempo de dedicar-me à tarefa de tirar a limpo esta história, o lamentável porém providencial desemprego que me acometeu permitiu-me algum tempo para pôr no papel o que já deveria ter escrito. Escrevi num fôlego só, num prazo de dois dias, todo o conteúdo do livro. Mas acabou que a coisa tomou um rumo diferente do que eu havia pensado. Primeiro, eu pensei em escrever um livro diretamente sobre as idéias da Colette Dowling. Mas aí eu pensei: "Ué! E se o leitor não enxergar na história de Cinderela o que está lá tão evidente? Se uma americana, com tempo de sobra para ler e pesquisar o que quisesse, diz da Cinderela o que poderia apenas ser dito de suas irmãs, que dirá dos brasileiros, que não têm o hábito de ler e vivem atribulados por males, geralmente da esfera política, que os impedem de ter um certo mínimo de tranqüilidade: primeiro, aparece um presidente que toma a grana de todo mundo; depois aparece um outro que, para defender a população dos bandidos desarma a população!... Ainda por cima os letrados, que deveriam orientá-los, rejeitam in limine o que não coincide com seu receituário de preferências...". Achei então melhor, primeiro, apresentar Cinderela ao leitor, de modo que o leitor possa dizer: "Bom, aí está a Cinderela, alegoria da Sabedoria e apologia da mulher, ela mesma mulher em torno do qual tudo gira!" para, então, posteriormente, poder dizer: "Puxa vida, os americanos têm tantos recursos e deixaram o mais importante de fora!...". O que deixaram de fora é o que sempre fica de fora quando a casta letrada destrona Deus e põe qualquer outra coisa em seu lugar. E não digo "destronar Deus" no sentido de dar com o pé no traseiro de uns quantos religiosos. Não, quero dizer: reduzem todo o real àquilo que ou é resultado da natureza ou da cultura, sem se perguntarem como, dentro dos estreitos limites de um mundo instável, precário, como é que algumas coisas no meio disso tudo dá certo? Como é que coisas como o amor, a piedade, a compaixão e diversas outras manifestações humanas, algumas das quais desnecessárias para a "sobrevivência do mais apto", sempre conseguiram encontrar algum lugar privilegiado na alma de tantos e, principalmente, daqueles cujas vidas resumem-se em disto dar testemunho? Não concluem, à vista da existência de pessoas tão superiores, tão amantes da verdade, que em geral recebem como paga de seu exemplo ou o puro ódio ou as condutas mais vis (foi assim com Sócrates, Platão, Aristóteles, Cristo e toda a galeria de santos e místicos das diversas épocas e culturas), que há algo de fato superior e ao que a vida do homem razoável deve consagrar-se. Preferem, antes, adotar como verdade a pura contingência e como verdadeiras as coisas a que essas contingências obrigam. Passam a crer no que os meios de comunicação apregoam: consuma, "faça amor" ( se amor pudesse ser feito), vença desafios, faça seu marketing pessoal, atualize-se, mantenha a forma, não fume, não engorde, não amamente (para depois dizer "Amamente!")... Caso reconhecessem a Sabedoria quando a vissem, não cometeriam tais enganos, como Colette parece cometê-lo e multiplicá-lo.

Talvez se se dessem ao trabalho de julgar a época atual por alguma outra época anterior, conseguissem notar que havia algo que dava sentido à vida e pelo que viviam e morriam os mais razoáveis representantes dessa época passada. Aí, seria possível notar que, acima da contingência mais imediata, algo havia e um ou outro homem o percebia; percebia que há um saber que, por mais que se alterem alguns dados da história (como Disney alterou as histórias que desenhou para ajustá-las ao gosto americano, que despreza tudo quanto tenha a aparência e o cheiro da natureza intocada, não industrializada), continua perenemente válido. É precisamente o caso da história de Cinderela, alegoria da Sabedoria e apologia da mulher: é a exposição de um saber imenso, numa linguagem simples e por isso mesmo capaz de ser decorado ainda que não compreendido por quem o recita. Impressiona as crianças, grava-se em suas mentes, à espera de que alguém lhes conte, quando em idade de compreender realmente a vida, seu mais elevado sentido.

Apenas para resumir meu ponto-de-vista, creio ser possível afirmar sem medo de estar enganado que a história de Cinderela é a história da busca, pelos detentores do poder temporal, da Sabedoria. A Sabedoria é dócil com quem a ama e inexistente para quem não experimentou uma mínima parte sua; ela não força ninguém, mas também não se entrega fácil. Ela tem de ser buscada e, mesmo crendo tê-la encontrado, é possível estar enganado. Mas se quem a busca a ama, os enganos são vencidos. É disto que trata a história. E se alguém perguntar por que, se ela é mesmo isto, apresenta-se como uma "história para crianças"? Digo que é porque este é o modo universal de apresentar alguma verdade necessária, a qual se revela a quem com ela topa. Para os de pouco entendimento, funciona apenas como um ideal, como um sonho bom, que faz esquecer os problemas do que se considera a vida "real"; para os que conhecem certas chaves da cultura universal, é algo assim como um manual, um esquema criado para ajudar na recordação tanto daquelas chaves culturais como também das possíveis aplicações que admite. Assim, instrui os simples e organiza o pensamento dos que já ouviram falar do eterno drama do homem, que é o de encontro e perda e busca do que, sendo verdadeiro, não muda no que tem de essencial.

Quando alguém, como aquela mencionada autora, rebaixa o sentido de algo assim à contingência mais degradada, é porque é mais que necessário retomar o assunto, orientar as pessoas em direção ao verdadeiro e superior sentido que a história encerra. Tal é o propósito que me animou a escrever este livro.

 


Interessados em adquirir o livro por R$20,00 (mais despesas de envio) escrevam para Joel Nunes dos Santos, num dos dois e-mails abaixo:

jonusant@sol.com.br

jonusant@node1.com.br


 

ÍNDICE

AGRADECIMENTOS

PREFÁCIO

CINDERELA
(HISTÓRIA ORIGINAL)

INTRODUÇÃO
Cinderela, o Encanto da Sabedoria

1a PARTE - As chaves interpretativas
O que é a bondade e o que é a piedade?
E a piedade, o que é?
Velarei por ti e te protegerei sempre...
Nova família, dias tristes para a enteada...
Luz e calor, atributos do sol
A piedade e seu contrário, a malícia
A aparência e a consistência do ente
O intelecto superior e a vitória sobre a malícia
A sábia escolha
As lágrimas, aparência exterior da compaixão
Conhecimento e domínio da natureza
O mundo da cultura e suas vaidades
Lentilhas, símbolo do imediato, do concreto
Os seres naturais como manifestações sensíveis dos atributos da inteligência
As partes da alma
Os animais e as partes da alma
As pombas e as rolinhas, o Intelecto e a corporalidade
Autoridade e poder, Sabedoria e força
O plano mais denso

2a PARTE - As chaves interpretativas reunidas
Vislumbre de todo o conjunto: reino vegetal, animal, humano, supra-humano...
A inteligência como atributo que o homem adquire
A inteligência como aptidão a tudo conhecer e não como mera eficiência prática
Reconhecida, a Sabedoria é buscada - mas não é fácil encontrá-la
O engano como condição a ser superada para o encontro com a Sabedoria
Intelecto autônomo: diferença específica do homem
Sinais exteriores e vocação do ser
A chave interpretativa de Paul Diel
As "pombinhas" - instrumentos da Sabedoria
O príncipe, homem imperfeito
A dependência do poder temporal com relação à autoridade espiritual
A mulher, o amor e a superação dos enganos
Cinderela - o esplendor da mulher
O reconhecimento, pela natureza, de quem lhe é superior
Cinderela e as irmãs, a Sabedoria e os sentidos inferiores
O homem e sua busca fundamental: a busca do interlocutor
O amor: a condição primeira da elevação ao divino
Explicações finais

 

IFH. Apoio: Algodão Doce, Berçário e Recreação Infantil.


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