ARTICULISTA CONVIDADO

Os clones e os seus (e os nossos) problemas

Por Joel Nunes dos Santos


O artigo a respeito da oficialização da clonagem de seres humanos fez-me retomar algumas reflexões que fiz a respeito dos clones, há alguns anos.

Durante uma aula, uma aluna me perguntou o que eu achava do aborto de da clonagem. Quanto ao aborto, o que eu penso a respeito já tornei conhecido através desta mesma página. Aproveito para expor o que penso a respeito do clone.

Assim que a ovelha Dolly foi apresentada à mídia, alguns médicos, geneticistas, físicos, biólogos, emitiram opiniões a respeito das maravilhas da clonagem, em princípio de órgãos (quando se viu, pela TV, um rato com uma orelha humana nele implantada) e, por que não?, diziam, de seres humanos. "Afinal, diziam, imagine uma mulher que tenha perdido seu tão amado filho. Que maravilha ela poder substituí-lo com uma cópia fiel dele mesmo: a partir de alguma parte do corpo do finado, ela poderia ter sua cópia exata caminhando pela casa, rindo, brincando, em suma, preenchendo aquele espaço vazio no coração que, até então, só possuiria o consolo de vê-lo por fotos. Estava aí a Dolly para mostrar que isto era possível."

Para os geneticistas, então, foi a maravilha, a ponto de um ou outro dizer que "não precisamos mais de Deus, pois os homens criaram vida...". Foi um delírio geral. E agora, o que era coisa informal virou coisa oficial. De minha parte, eu não tinha a menor dúvida a respeito de que seria assim, que mais cedo ou mais tarde a clonagem de seres humanos seria coisa mostrada ao público. E mais ainda: o intervalo de tempo entre a aprovação da lei até a mostra do primeiro exemplo, por certo será coisa de meses ou de poucos anos; será coisa tão rápida quanto a da apresentação de relatórios de investigação da vida e conta de desafetos da esquerda no Brasil, os quais são acusados num dia e no dia seguinte já aparece na televisão até a cor e modelo da cueca que usou ao longo dos anos.

Estes a quem maravilhou - e maravilha - a idéia de duplicação do ser humano - justamente porque, na sua ignorância, imaginam que o ser humano possa ser duplicado completamente - são os que Éric Weil (1) mencionou, os homo teoreticus, que vivem da negação do dado, quer dizer, vivem de encontrar meios que permitam ação eficiente sobre a natureza, conformando-a aos desejos humanos. É natural que a manifestação de agrado por parte destes homens atraia e convença a muitos, porque sua linguagem parece ser razoável, na medida em que é lógica e, sendo assim, acaba deixando de fora o que realmente interessa. Mas a premissa da qual parte é uma falsa premissa, a de que tudo pode ser substituído, tudo possui sucedâneo, inclusive o ser humano ou, mais especificamente, aquele determinado indivíduo, por exemplo, o filho que morreu ou aquele "gênio" em particular.

Não é difícil, contudo, demonstrar a falsidade da premissa, ou seja, que não é possível a repetição do ser humano. Para crer que é, é preciso ser espírita. Mas o espiritismo é algo assim como um escárnio do ser humano, uma brincadeira mórbida com a inteligência humana (2). Uma criança sabe disto, que não é possível repetir o ente. O que é de fácil verificação: experimente dar um cãozinho a uma criança. Depois de ela ter-se apegado a ele (o que requer poucos meses), digamos que aconteça alguma coisa com o cão, que ele seja roubado, por exemplo. Dê outro cão de mesma raça à criança e observe se ela por algum instante acredita que este novo cão é aquele de quem ela gostava. Ela sabe que não é, por mais que se tente convencê-la disto. Ela pode até, com o tempo, conformar-se que as coisas são assim mesmo, que perde-se aqui, ganha-se ali na frente - mas isto não altera o que ela sabe, que um não é o mesmo que o outro. Daí que, quando alguém chega a admitir a hipótese da repetição do ser humano, acreditando que isto resolverá a questão das dores da perda, tal pessoa está dando mostra de um retrocesso cognitivo só comparável à condição espírita, a qual é a manifestação da falência completa da inteligência e sua submissão aos aspectos mais inferiores do psiquismo.

Mas a clonagem humana, que para qualquer pessoa sensata sempre foi coisa de admissão pacífica, desde o momento em que alguém aventou a hipótese de clonagem de algum ser vivo, deixou de ser coisa de "fundo-de-quintal" e passou ao plano das coisas legalmente permitidas. Resta, então, proceder não apenas a modo do homo teoreticus, que restringe seu interesse aos limites da causa eficiente - só se preocupa em como fazer - mas como homo sapientae, o qual investiga o sentido das coisas, o aonde ela vai levar. Para tanto, ele aceita o dado, não como aquele outro, que o faz apenas no limite necessário para negá-lo (ou transformá-lo), mas para de fato compreendê-lo. Como ele, aceitemos o dado: o clone é uma realidade que não tem como ser negada. Em seguida, façamos a seguinte pergunta: que problema necessariamente ele terá? Tendo-o, como este mesmo problema afetará aos demais homens, clones ou não?

Sendo o clone uma realidade, deve-se começar pela pergunta: o que é o clone? À qual respondo dizendo que o clone é um ser humano cuja figura é idêntica à daquele de que é cópia. Ele é portanto a cópia e o outro, a matriz. Não é inoportuno dizer que, sendo assim, ele será tratado, desde criança, a partir de algo que ele não é, o que permite admitir que o primeiro de seus problemas será o da identidade pessoal: ao longo da vida, irá desenvolvendo uma imensa dúvida a respeito de quem ele mesmo é. Os seres humanos que são animados por tal tipo de dúvida costumam desenvolver uma personalidade esquizóide (3). Claro, nem todas as pessoas que têm tal tipo de questão se tornam esquizofrênicos. Mas não se pode perder de vista que este problema sempre ocorreu de maneira acidental, o que não é o caso do clone: ele é a cópia "cuspida e escarrada" de um outro. Daí que as relações que com ele irão se estabelecendo já serão do tipo que vemos apenas em certas famílias, por exemplo, na família Kennedy, onde quem não queira entrar na política e conquistar o poder de mando simplesmente é descartado. Lá, é melhor morrer tentando ter poder - e acaba-se morrendo, como a história tem demonstrado, assim como tem demonstrado que alguns gostam deste esquema (alguns dos membros da família parecem se sentir muito bem no papel de lutar para ser presidente dos EUA). Mas para o clone, já ter parte de seu destino planejado, seja informalmente (no caso de pai e mãe amorosos, que acabaram acreditando no discurso de algum homo teoreticus) ou formalmente (no caso do que for a cópia de um Einstein, um Newton ou qualquer outro tido como persona grata pelos da casta dominante).

Outros problemas por certo os clones terão, sendo que o que vem à mente, imediatamente, é o da questão da exceção que se tornará coisa comum: sempre se pôde falar em pai e mãe (ou num ou noutro). O clone não tem propriamente pai ou mãe, mas, sim, matriz e proprietário. Quanto a que terá matriz não é, acredito, questão polêmica; quanto a não ter pai, e, sim, proprietário, sim. Pois a clonagem de determinado sujeito, digamos, de Fulano de Tal, será decisão de quem? Do pai, da mãe, de ambos ou de apenas um dos dois ou do Estado? Mesmo que seja produto de decisão do casal, não se poderá dizer que este casal seja seus pais no mesmo sentido que o termo pai sempre teve. A inseminação artificial já coloca um problema nesta mesma questão da paternidade, na medida em que introduz um princípio de incerteza que, antes, só existia quanto ao pai, nunca quanto à mãe. Sempre foi possível à mulher ela saber que o filho era dela. Com a inseminação artificial, porém, a mulher passa à condição de mera incubadeira, à condição de "barriga de aluguel", ou seja, de coisa. O que, por certo, terá desdobramentos ainda não mencionados: um deles é o fato de a gravidez perder a nobreza e o aspecto mesmo de manifestação de algo divino, o qual é o surgimento e cuidado da vida (pois o passo seguinte ao aluguel da barriga é a construção de alguma máquina que substitua a mulher no papel de nutriz da vida); outro é que, na medida em que a tecnologia consiga substituir a mulher quanto à gestação, é admissível que a mulher grávida seja vista como coisa repugnante, sendo mais conforme a beleza e a elegância ser mãe sem parir ou sem gestar. A revolução psicológica que tudo isto é tem amplitude ainda não suficientemente imaginada.

Apenas para não alongar muito a conversa, pois acredito que já deve ter dado para sentir que a fundura do buraco onde os homo teoreticus estão metendo (êpa!) a humanidade, prossigo especulando a respeito de qual será um ou outro problema para terceiros, clones ou não, gerado pelo clone.

No processo de desenvolvimento da personalidade humana, é necessário que haja, na alma da criança, uma firme certeza a respeito de ela ser amada. Mas para ela ter esta certeza, não basta que uma ou outra pessoa ou organização lhe dêem coisas - é preciso que ela possa ter, cuidando dela, alguém que lhe é fiel e que esta fidelidade se manifeste como presença física constante. Tal condição só pôde (e só pode) ser preenchida pela figura (principalmente) da mãe e também (secundariamente, nos primeiros anos), do pai. E se existe algo de entendimento comum para qualquer um que seja mãe ou pai é que a paciência, a atenção, o carinho e coisas do gênero só existem, de maneira constante, quando não há dúvida da filiação da criança. Antes da inseminação artificial, toda mulher sabia que ela era a verdadeira mãe daquela criança; mesmo prostitutas o sabiam, ainda que não pudessem garantir quem era o pai. Esta simples certeza, materna, por certo, já constituía condição suficiente para, ao longo dos anos, dar à criança uma certeza capaz de permitir-lhe saber-se amada. Claro que já ouvi quem dissesse coisas como: "E São João Bosco e outro santo ou santa, como a madre Teresa de Calcutá, que se caracterizaram pelo cuidado de crianças, adotando as que fossem rejeitadas?..." Mas esses exemplos não valem de consolo, pois é reduzidíssimo o número de pessoas que fazem os votos que eles fizeram, de castidade, pobreza, obediência, de amor por ser casto, pobre e obediente... Nesta linha de raciocínio, alguém poderia invocar que a hostilidade prematura e permanente não distorcem o psiquismo das pessoas na medida em que Jesus, pelo simples fato de ter nascido, foi causa da morte de uma quantidade enorme de crianças (35.000 crianças - número elevadíssimo considerado o total de habitantes da época; número, proporcionalmente, que transformava Hitler em mero "garoto levado").

Ora, sendo o clone a figura "cuspida e escarrada" de um outro, mesmo considerando que alguém se diga sua mãe ou pai, o será impropriamente, pois agirá, com relação a ele, como se fosse um homo teoreticus, ou seja, como quem quer evitar certo problema ou reforçar certo traço que, está persuadido, ele - o clone - possui, como uma capacidade matemática, ou musical ou outra qualquer. Os pais do clone serão muito parecidos com funcionários encarregados do cuidado de crianças (4), preocupados antes com alguma doutrina que aprenderam do que em verdadeiramente amar aquela criança.

Que problemas isto pode gerar para terceiros, clones ou não? Respondo que os mesmos que um sociopata cria, como os EUA têm exemplificado à exaustão. Lá, quando alguma criança beija alguma outra, já são acusadas de assédio sexual. Quando essas crianças crescem um pouco mais, não é de espantar que uma nota baixa as faça balear colegas, professores...É compreensível, digo, que se comportem assim dada as motivações psicológicas que acabam tendo em virtude da intromissão do Estado nos domínios antes exclusivos da família ou da comunidade próxima.

Claro que nem todas as crianças americanas reagem a partir de tais motivações psicológicas mórbidas. Claro que não. Porque um grande número delas ainda não questionam, no profundo de si mesmas, a figura materna e paterna - são filhos de mãe e pai definidos. As que não sentem as coisas assim, baleiam quem podem.

E os clones, cuja existência estará envolta em dúvidas quanto à maternidade, paternidade e também outras, de ordem jurídica? E quando me refiro a tais dúvidas, não quero dizer que as disposições jurídicas a respeito de tais vínculos serão dúbias ou emanadas de mente maligna. Não. O simples fato de ter de ser definido, pelo Estado, "tintim por tintim" as mais sutis nuances de tais vínculos já será condição de fracasso humano, pois onde se repreendia com um olhar, agora se punirá com meios impessoais, jurídicos. Refiro-me, portanto, à maneira como os clones verão a vida, a sentirão e às pessoas, mesmo àquelas que tentarão desempenhar o papel de seus pais.

Nada disso é questão irrelevante nem mera abstração. Pois se é perfeitamente possível fazer repetir a figura humana, não é possível, no intervalo de vida de poucas gerações, fazer repetir a forma da inteligência deste mesmo homem.

De todos os aspectos da personalidade humana (que resultam da hereditariedade, da história do desenvolvimento da linguagem, da história pulsional e afetiva, do aprendizado da autoexpressão, do aprendizado de tarefas, da vivência de papéis sociais, e dos demais âmbitos da vida humana), um só e apenas um é fixo: a forma da inteligência, também denominada caráter. A estrutura do caráter, entendido como forma fixa da personalidade (5) é repetível, sim, mas a intervalos longos de anos, que cobrem várias gerações. Como este aspecto da questão exige explicações muito longas, vou deixá-lo assim como está, apenas mencionado. Interessa apenas ter em mente o fato de que ser tratado como se fosse um outro é condição, sim, capaz de fazer emergir o que há de pior em cada um. Basta citar como exemplo disto as conseqüências, reais e possíveis, de, na hora de maior intimidade, ouvir-se chamado por um nome que não é o próprio. Como quando o amante, na hora do intercurso sexual, chama a amante por um nome que não é o seu. Não tem como consertar isto, ainda que ocorra uma só vez. Agora, imagine que isto ocorra sempre, que, depois de consertado o "ato falho", a amante lhe dê uma segunda chance, e uma terceira e uma quarta...Não há "terceira chance". Nunca. A vida psicológica do clone será necessariamente uma sucessão de acontecimentos parecidos, só que não ligados ao sexo, mas à vida inteira e por parte de quem até o ama. Mas aí que está o problema: ama-o por causa de um outro que viveu e morreu e informou ao mundo ser único e irrepetível, irrepetibilidade agora negada em ato que resulta do coração mesmo de quem crê amá-lo - porque não o ama verdadeiramente, mas a um outro que, de fato, não é ele, o sujeito presente.

Joel Nunes dos Santos, 23/08/00, SP.

NOTAS:

(1) V. Logique de la Philosophie, Libr. Phil. J. Vrin, Paris, 1985.

(2) Sem desfiar argumentos metafísicos que demonstram irrefutavelmente a irrepetibilidade humana, basta mencionar o que está na cara de todo mundo: o autor da obra espírita não é quem a redige, mas quem a inspira (aceitando o que o próprio espírita diz de si mesmo). Na medida em que ela gera ganhos financeiros, tais ganhos deveriam ou ser da família do falecido a quem se invoca a autoria ou, na ausência deste, do Estado. Ora, qualquer pessoa ou instituição que se torne beneficiária de tais ganhos está apropriando-se indevidamente de algo que não lhe pertence, o que configura crime de estelionato. Para não haver a punição correspondente, é preciso considerar o faltoso como inimputável, ou seja, conferir-lhe a condição ou de criança, ou de índio ou de pessoa com retardo mental. Ora, o mais elevado representante do espiritismo - o doutrinador - possui, aos olhos da lei, o status dos inimputáveis por lei, não por estar-lhe acima, mas por não atender aos requisitos mínimos que qualquer ser humano comum é capaz de preencher.

(3) Quando o sujeito não sente realmente que ele é autor dos próprios atos e, em conseqüência, responsável por aquilo que ele mesmo faz.

(4) E já se viu aonde isso leva. De tempos em tempos, alguma "moda" inferniza a vida das crianças: ou a proibição da chupeta, ou a obrigação de controle esfincteriano, ou o uso de aparelhos nos dentes, ou a obrigação de se relacionarem umas com as outras, ou o aprendizado de informática...tais modas surgindo em virtude da amizade dos donos de creches e escolas infantis com dentistas, psicólogos, donos de franquias de escolas de computação e assim por diante.

(5) V. OLAVO DE CARVALHO, "O caráter como forma fixa da personalidade, elementos para uma astrocaracterologia", Astroscientia e Instituto de Artes Liberais, 1992, RJ.


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