Apreensões Simbólicas no filme "O Anjo Exterminador"
por Leandro Catapam
Buscando uma apreensão de alguns símbolos no filme de Buñuel, nota-se que este artista está além dos rótulos de louco ou surrealista. Sua narrativa vai além das meras exposições de sonhos e se demonstra calcada num profundo estudo do símbolo.
Muito
embora Buñuel tenha começado sua carreira com os surrealistas,
no decorrer de suas obras não se tem apenas a tão cogitada decomposição
da psique promovida pelos artistas deste movimento. E no filme "O Anjo
Exterminador" vê-se a presença abrangente de inúmeros
símbolos que nos levam ao paroxismo da tragédia grega: inspirar
"terror e piedade" como escreveu Aristóteles.
"Ou mais precisamente, piedade por meio do terror: purificar o homem e incliná-lo ao bem pela visão do absurdo e do mal inerentes à ordem cósmica" (Olavo de Carvalho).
No filme temos a presença destes elementos que combinados por Buñuel dão-nos a visão do real de uma sociedade materialista que não busca em nenhum momento transcender sua existência física. O símbolo é amplamente usado na linha narrativa e pode-se perceber a sua natureza dual, ou seja, uma parte analógica que sintetiza semelhanças e diferenças, de atribuição intrínseca, e uma parte ficcional que também se refere ao simbolizado (v. Mário Ferreira dos Santos "Tratado de Simbólica")
A aplicação do símbolo, tendo como base o acima citado, é nítida no filme, pois ao mesmo tempo que somos conduzidos pelos caminhos fantásticos e misteriosos da narrativa, somos da mesma forma colocados diante de um todo concreto, que aponta para um simbolizado.
Logo na primeira cena a aparição de uma pequena placa de rua nos informa o local onde a história se desenrolará. Pela "Rua da Providência" carros luxuosos se dirigem a uma mansão que nos remete à riquezas. Um ambiente rico e afortunado, e até mesmo, pelo nome da rua, abençoado por Deus ou pela Providência. Trata-se da apresentação da ficção, do enunciado que, logo quando as pessoas ricas e bem vestidas entram na casa, é atravessado por uma primeira enunciação, ou seja , um contar a história de um modo singular ligado ao símbolo.
As imagens do enunciado são a todo tempo transpassadas por imagens de enunciação propostas pelo olho de Buñuel. Os convidados são recepcionados pelo dono da mansão. Os empregados terminam os preparativos do grande jantar, apressados para irem embora. Não querem ficar na casa, o que é muito estranho. Duas empregadas estão saindo quando escutam os passos dos convidados na entrada. No entanto, eles já tinham entrado, e essa quebra do enunciado, este transpassar da enunciação é carregado de valor simbólico, pois a segunda entrada é idêntica à primeira. As empregadas voltam à cozinha e outros já estão prontos para partir também. Passado um tempo elas saem seguidas pelos funcionários, que inclusive são demitidos, no momento, por deixar a casa num dia tão importante.
A repetição da cena faz parte da enunciação e no decorrer do filme ela é inserida no próprio enunciado. O "repetir" é uma constante nesta obra. A vida dos personagens é um eterno repetir de rituais materialistas, esnobes, desprovidos de sentido. Envoltos na atmosfera de tédio das pessoas de primeira classe vivem em teatros, viagens, jantares, festas, como numa roda que gira incansavelmente sem nunca tocar o chão, nunca saindo do lugar onde está suspensa. E com uma pequena repetição de cena Buñuel nos apresenta, através de um esquema ficcional, um esquema concreto.
O jantar continua com seu desprendimento típico das pessoas bem relacionadas, badaladas. Muitos risos, trocas de olhares, comentários maldosos e toda aquela efusividade que no fundo não passa de um simulacro.
A maioria dos personagens está contida nesta banalidade, e é interessante observar que os que menos se empolgam com tudo aquilo são os que acabam sofrendo por primeiro, chegando a morrer fisicamente. Contudo, todos já estão mortos simbolicamente, pois suas vidas são como montagens.
A repetição da cena acontece mais uma vez quando o anfitrião dá boas-vindas aos convidados sentados à mesa. Percebe-se, então, que este "tornar a dizer" de Buñuel será muito importante, pois será a chave para a salvação daqueles indivíduos.
Quando a festa vai se estendendo e eles começam a ver que não conseguem sair daquele ambiente o extermínio tem seu início. Buñuel marca muito bem quem serão os exterminados, sendo pobres os que se salvam e ricos os que perecem.
Estar preso num local, com roupas finas mas desconfortáveis, é extremamente perturbador e absurdo. Não é o tipo da coisa que as pessoas queiram passar.
No
entanto, por trás desta amarração ficcional há a
concretude do símbolo. Todos aqueles homens e mulheres estão aprisionados
em si mesmos. Uma prisão que se acumula à outra e mais outra,
devido aos falsos padrões que regem suas vidas. Padrões estes
que pouco revelam sobre a singularidade de cada um.
O extermínio é proposto não de uma forma irreversível, e nisto vê-se que Buñuel faz uma referência muito forte à tradição cristã. Eles terão uma chance e tudo aquilo que acontece naquela sala demonstra que se eles não conseguiram por vontade própria promover uma desconstrução da grade base de suas vidas, isto será imposto, não porque é preciso obedecer e, sim, porque trata-se de uma necessidade que eles precisam urgentemente assumir.
"O termo necesse (necessidade) indica o conteúdo do que não é cedido, do que não pode ceder, do que é impostergável, do que não pode deixar de ser o que é" (Mário Ferreira dos Santos Filosofia Concreta).
A desconstrução da psique dos personagens visa trazer à tona o potencial de cada um para em seguida atualizá-lo, verificando com esta operação se se tratam de boas ou más pessoas. Funciona como uma segunda chance.
Toda a pomposidade vai se deteriorando para nos colocar diante do essencial, do concreto. Aparar as arestas para se promover uma limpeza. Mas aquelas pessoas possuem muito a aparar e com isso os dias vão passando, até que o local recebe uma bandeira do exército, indicando que está de quarentena. Ninguém consegue se aproximar da casa. Param todos diante do portão. Um menino consegue dar alguns passos em direção à entrada, em virtude de sua pureza infantil. Contudo, logo volta para o portão, assustado. Do lado de fora, ninguém entende nada do que está acontecendo e vê-se que a possibilidade de uma mudança visando o bem nem sempre se apresenta a todos com a mesma intensidade.
Já os prisioneiros, sem perfumes ou outros paliativos para acalmar suas almas, perdem-se em brigas, confusões, pseudo-místicas, devaneios e outras manifestações que põem em risco a integridade de todos enquanto seres humanos. Nesta hora eles começam a ver um ao outro, frente a frente, sem disfarces.
Um senhor morre, um casal se suicida, encantados por uma fantasia delirante de poder amar sem barreiras, uma outra parte para práticas mágicas utilizando-se de pernas de galinhas e penas, ou seja, a proposta do extermínio em vez de acordá-los para a realidade, afundou-os mais e mais no emaranhado psíquico em que sempre estiveram a viver. Como se um tapete fosse rapidamente puxado por debaixo de seus pés, caem vertiginosamente no vazio que eles sempre promoveram.
Se encontram num estado infra-animal, atacando-se, empurrando-se violentamente quando um cano de água é estourado para eles matarem sua sede física, porque sanar a sede espiritual, assumr essa necessidade, eles não querem. Este processo exige uma revisão, um voltar-se a si para refletir sobre o ponto onde tudo se perdeu.
Nesta época o México era uma nação em formação galopante, sempre em frente para produzir mais. Buñuel já havia feito vários filmes no México e algumas questões relativas a isto estão presentes também neste filme. Este país progressista, institucional, voltado para as massas também foi exposto por ele em seu filme "Los Olvidados" (Os Esquecidos) de 1950.
O surgimento da grande metrópole é acompanhado pela fragmentação dos indivíduos. Pessoas presas dentro de seu pequeno mundo, grandioso em riquezas, mas pobre em conteúdo.
A presença de dois animais muito significativos, o cordeiro e o urso, demonstram que isto não se tratou apenas de um mero requinte surrealista.
Na tradição cristã o cordeiro simboliza o sacrifício. O que é morto em beneficio da vida de muitos. Este animal promove a expiação, a purificação de algo profanado. Através deste sacrifício, que envolve materialidade, pois é a carne que perece, têm-se como que uma porta aberta para um desenvolvimento de outro plano de ordem espiritual.
Quando não há mais como eles continuarem vivendo, sem água tampouco comida, os cordeiros entram para serem sacrificados. O urso ronda a casa, sobe nas colunas internas de frente à sala onde estão os prisioneiros da festa, e se mostra distante deles, inacessível, enquanto os cordeiros estão sendo devorados, com certeza da forma mais abjeta.
René Guénon, estudioso das ciências tradicionais e seu princípios metafísicos, em seu livro "Símbolos da Ciência Sagrada", faz uma explanação sobre o simbolismo do urso. Este animal simbolizava, entre os celtas, a autoridade espiritual.
Como na cristandade medieval, onde o Sumo Pontífice conduzia o gênero humano à vida eterna segundo a verdade revelada, ou seja representava a autoridade espiritual e o Imperador, que dirigia o gênero humano à felicidade temporal, sendo este a autoridade terrenal. Buñuel coloca estes dois elementos que nos remetem à tradição cristã, não de forma doutrinal, que poderia ser tida como vulgar, mas antes como manifestação artística impregnada de valor simbólico.
O urso está acima deles, aparecendo às vezes em frente à sala, e as pessoas ali aprisionadas possam talvez alcançá-lo num futuro ou não. Por isso a presença do cordeiro, que funcionará como mediador. Após o episódio da morte dos cordeiros, quando já estão em completa desgraça, uma das mulheres percebe que todos estão na mesma posição da primeira noite. Uma diante do piano, outro na mesma poltrona e assim por diante, só que desprovidos da empáfia do início. E num momento único de lucidez, esta mesma personagem convoca a todos a repetirem seus gestos e palavras da noite da festa.
É significativo o momento dos cumprimentos à pessoa que tocava piano. Ela repete a apresentação musical, mesmo cansada, e durante as congratulações observa-se que as mãos são verdadeiramente apertadas e que as palavras não soam como disfarces.
Eles conseguem com isso sair da sala, num misto de desespero e felicidade por terem escapado de tão absurda situação. É necessário lembrar para se ter uma compreensão mais abrangente do final do filme, que alguns personagens fizeram promessas relativas à realização de projetos de caridade e também de um "Te Deum", ou uma missa especial, se conseguissem escapar com vida do salão de festas. Como todos eram abastados, isto não seria nenhum problema na comunidade.
Justamente no final do filme temos uma tomada muito bem construída, onde todos os envolvidos estão na primeira fila da igreja celebrando a missa de agradecimento. Mas tudo o que aconteceu não foi o suficiente. Buñuel nos mostra que não basta se ter um aparato externo se não existe uma disposição interior real e não simulada.
A forma como ele filma aqueles homens e mulheres, com a câmera em contra-pique, uma filmagem oblíqua de baixo para cima, conduz o observador a refletir sobre a veracidade da mudança daqueles indivíduos. Nota-se que a expressão facial de seus rostos não mudou em nada e que, com diferenças de intensidade, o orgulho e a vaidade ainda estão presentes ali. Há alguns poucos, como o anfitrião e a moça que percebeu a "porta simbólica" para a saída daquele transtorno, que estão como que esperando algo. Eles são os menos embotados, contudo perecerão pelo excesso de arrogância dos outros. A câmera mostra bem todos eles e quando acaba a missa acaba também esta cena.
Logo os padres se dirigem à porta lateral e não conseguem sair. Na porta principal as pessoas estão apinhadas discutindo, impossibilitadas de passar. Mais uma vez presos. Outrora num âmbito material e agora num pretenso mundo espiritual. Tiveram o benefício em suas mãos, mas preferiram jogá-lo pela janela. Os sinos tocam e a bandeira da quarentena está colocada no portão, guardado por soldados que espantam a multidão curiosa e desenfreada. Um grupo de cordeiros se encaminha em direção à porta principal da igreja. Mais uma vez a possibilidade de uma expiação é apresentada, demonstrando claramente as influências da tradição cristã nesta obra de Buñuel, onde há a idéia do Deus que é bom e sempre benigno.
Independente de se acreditar nisso ou não, é inegável a presença destes símbolos que fazem com que Buñuel construa uma obra cinematográfica ampla, artística, feita para ser contemplada e não julgada por meros padrões subjetivos.
"O simbolismo é o meio melhor adaptado ao ensino das verdades de ordem superior, religiosas e metafísicas, ou seja, de tudo o que é repelido ou descuidado pelo espírito moderno" (René Guénon "Os Símbolos da Ciência Sagrada").
Podemos unir à importância simbólica presentes nos filmes de Buñuel um comentário dele mesmo sobre seu "fazer cinematográfico": "Nunca filmei uma única cena que fosse contrária aos meus próprios sentimentos, à minha própria forma de pensar, à minha própria moral pessoal".
Leandro Catapam estuda teoria do cinema em Curitiba. Aguardem, em breve, outros de seus ensaios.
El Angel Exterminador (O Anjo Exterminador) (1962) (México) Produtor: Gustavo Alatriste (Uninci and Films 59)/Roteiro: Luis Buñuel, adaptado de uma história de Buñuel e Luis Alcoriza, sugerida por uma peça não-publicada de Jose Benjamin/ Fotografia: Gabriel Figueroa/ Edição: Carlos Savage/ Elenco: Silvia Pinal ("a Valkíria"), Enrique Rambal (Nobile), Jacqueline Andere (Señora Roc), Jose Baviera (Leandro), Augusto Benedico (o médico)/ Duração: 95 minutos