ARTICULISTA CONVIDADO

Fragmentos da Vida Alheia
(Análise do filme "Janela Indiscreta", 1954, Alfred Hitchcock)

Por Leandro Catapam


"Mas as artes da tela, em particular a cinematografia, são, apesar de toda a sua miséria aparente e talvez apenas inerente a seus inícios, as únicas que podem manter aberto o Livro do mundo na história do espírito..."
(Constantin Noica - "As seis doenças do Espírito Contemporâneo")

"L´essentiel est invisible pour les yeux."
" Les yeux sont aveugles. Il faut chercher avec le coeur."
"O essencial é invisível para os olhos."
"Os olhos são cegos. É preciso procurar com o coração."

(Antoine de Saint- Exupéry - "Le Petit Prince")

Unir partes diversas com um único fim: constituir um todo que tem início na subjetividade do autor. Hitchcock, em seu filme Janela Indiscreta, aproveita-se de um assunto que diz respeito à constituição básica de um filme: o olhar do observador, do "voyeur". No entanto, na forma como ele nos conta como o comportamento do "voyeur" se desenvolve, vê-se que algo muito perigoso pode surgir.

Diante da tela , onde se desenrola uma "realidade" criada pelo cineasta, corremos o risco de nos abstrair de forma desmesurada, sem voltarmos à concreção que dá base a nossa existência. E este equívoco é representado pelo personagem principal.

Impossibilitado de andar por ter quebrado uma perna, começa a observar a vida das pessoas que residem na sua vizinhança. Todos eles participam de pequenos dramas concernentes à convivência com outras pessoas: solitários, frustrados, doentes afetivos. Vê-se também a presença de uma busca incessante em direção a uma tranqüilidade em relação ao próximo, na maioria das vezes malograda.

Mas, tudo o que está naquelas janelas, que acabam constituindo um pequeno filme para o personagem, não faz com que ele mude a sua opinião sobre o que é compartilhar. Ele tem medo das relações, não quer se comprometer com sua namorada, contudo, alimenta um prazer mórbido em notar como as pessoas se debatem nestes assuntos que, segundo ele, devem ser encarados à luz da inteligência.

Hitchcock propõe uma reflexão, através deste filme, sobre como nos comportamos diante de uma obra ficcional, que mesmo sendo simbólica, justamente por isso também é hiper-literal. O homem, na ânsia de economizar tempo, parte para a abstração, para a separação, para entender as coisas com distanciamento. Mas, esse isolamento tem um limite e, se isto não for percebido a tempo, corre-se perigo.

Há um momento no filme que o personagem "voyeur" vê claramente que através de seu distanciamento doentio, acabou envolvendo pessoas que ele amava e que não tinham medo de encarar as contingências da vida como ele tinha. É neste trecho do filme que ele percebe que estava fazendo de sua vida uma mera abstração, uma separação.

O verdadeiro ato de abstração só tem sentido quando, após feito o deslocamento, após tomado o fragmento da realidade, devolve-se à concreção com o enriquecimento da análise da parte (v. Mário Ferreira dos Santos - "Convite à Filosofia"). Quando ele vê sua namorada envolvida naquela trama, entrando na tela que ele mesmo criou, correndo o risco de perder a vida por uma coisa que ele mesmo se posicionou como fio condutor, sente uma angústia terrível, ainda mais por nada poder fazer frente ao rumo dos acontecimentos. Vemos, então, que ele estava se apropriando de um patrimônio universal através da vida de seus vizinhos: suas paixões, frustrações, alegrias e tristezas, mas sem preencher com o conteúdo de sua própria vida àquela forma anterior, universal.

Seus vizinhos tinha problemas de "homem", de "gente". E ele os observa como se não fizesse parte desta espécie, surgindo a seguinte pergunta: como ficamos diante da obra cinematográfica? Nos divertimos apenas, nos entretemos com esta sucessão de imagens, descansando nossos olhos do trabalho diário? Como aquela montagem nos fornece informação de algo? Como o autor se comunica com o observador, sendo que ele também é um observador?

O cineasta Pier Paolo Pasolini em seu texto "O Cinema de Poesia", nos diz que muito embora as imagens não possuam um dicionário, elas pertencem a um patrimônio comum, a uma forma anterior, desprovida de conteúdo, mas que fala a todos os homens. A forma surge como algo distinto do conteúdo justamente por precedê-lo. Os conteúdos podem ser inesgotáveis, enquanto a forma tem um número restrito de possibilidades funcionando como uma grade anterior.

Dentro dessa colocação de Pasolini vemos que o concreto é o que está apresentado e o homem dará a sua visão do concreto através do abstrato. Trata-se, então, de uma reapresentação, um apresentar de novo e Hitchcock aponta para esta direção. O personagem começa a delirar no abstrato que ele mesmo construiu através daquelas vidas concretas alheias e quase perde o ser amado e, ele mesmo, em decorrência disso quase morre também. A mulher amada é o símbolo da alma. O personagem tem que se auto-resgatar para não perdê-la, pois tal desfecho o levaria inevitavelmente à morte espiritual.

Este fragmento, surgido da mente do cineasta, serve de ponte para a absorção do patrimônio comum, universal. Através das atitudes dos personagens, vemos que não devemos nos isolar desmedidamente ou nos esconder atrás de uma máscara pseudo-erudita, sem retornar ao contingente, ao selvagem, ao visceral a que também estamos ligados. O personagem não queria se comprometer com a sua própria vida e se não tivesse agido a tempo teria pago um preço muito alto.

Em relação ao sentido da vida, este filme de Hitchcock é extremamente importante, pois levanta questões básicas que o homem moderno sempre tende a esquecer (v. Viktor Frankl - "Sede de Sentido").

Como acionar os mecanismos de mudança antes que as situações se transformem em monstros e nos devorem? Como estabelecer uma comunicação com a obra de arte cinematográfica para se obter chaves para a elucidação de nossas consciências?

O escritor inglês Thomas Hardy faz um comentário que merece atenção sobre arte e realidade: "A arte é desproporcionalização das realidades, para mostrar mais claramente os traços que importam nessas realidades."

Mas o que se pode fazer com a informação dada nos filmes? Será que é possível observar as imagens com a única intenção de relaxamento dos sentidos?

No que diz respeito ao cineasta Alfred Hitchcock nota-se que ele é um pouco mais profundo do que se pensa usualmente. Através desta obra percebe-se que há uma preocupação da arte como necessidade. Erwin Panofsky, desenvolvendo seus estudos de história da arte em relação ao cinema diz-nos: "Na vida moderna o cinema é o que a maioria das outras formas de arte deixaram de ser, não um enfeite e sim uma necessidade" ("Estilo e Meio no Filme" - Erwin Panofsky).

O que se faz emergencial é que desenvolvamos "olhos" para ver isto, para que o ranço do entretenimento não contamine muitas obras que podem ser vistas "não apenas com os olhos e, sim, com o coração."

Leandro Catapam estuda teoria do cinema em Curitiba.

Rear Window (Janela Indiscreta). (1954.) Direção e produção: Alfred Hitchcock/ Música: Franz Waxman/ Fotografia: Robert Burks/ Edição: George Tomasini/ Roteiro: John Michael Hayes, de uma história da Cornell Woolrich/ Elenco: James Stewart (L.B. "Jeff" Jefferies), Grace Kelly(Lisa Carol Fremont), Wendell Corey(Lieutenant Thomas J. Doyle), Thelma Ritter (Stella), Raymond Burr (Mr. Lars Thorwald), Judith Evelyn (Miss Lonelyheart).

 


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