O
LAVO DE CARVALHO
Em toda a celeuma em torno do jornal "O indivíduo", há um detalhe que, propositadamente, deixei para abordar por último. É que o "Jornal do Brasil" do dia 21 de novembro me apontou como o secreto ou discreto "mentor" da publicação. Aproveitando a deixa, o sr. Jesus Hortal, na circular que distribuiu aos alunos da PUC, disse que "alegadamente", não mais que "alegadamente", o jornal fora escrito por alunos -- insinuando, com elefantina sutileza, que sua autoria verdadeira deveria ser imputada a um misterioso "ghost writer" -- o qual, dadas as circunstâncias, não poderia ser outro senão o bom e velho autor de "O Imbecil Coletivo", livro pelo qual alguns luminares da PUC se sentiam atingidos, ou melhor, abrangidos.
Até o momento, essa coisa não me parecia importante. O importante é conhecer a verdade, não saber se veio pela mão de fulano ou pela boca de Beltrano. O jornal "O Indivíduo" diz a verdade, o sr. Jesus Hortal e seus truculentos discípulos mentem -- isto é o que importa.
Mas a questão da autoria secreta ou ostensiva adquire certo relevo a partir do momento em que um dos editores de "O Indivíduo", dando evidentes sinais de insegurança e medo, me escreve:
"Após ver publicado no 'Jornal do Brasil' que você seria o 'mentor intelectual' do nosso jornal, passei a sofrer acusações e suspeitas, inclusive de amigos e conhecidos, de que o jornal teria sido desde o começo algum tipo de ato conspiratório urdido secretamente por você ou por algum grupo oculto com interesses escusos."
O remetente chama-se Sérgio Coutinho de Biasi, um indivíduo de cuja existência tomei conhecimento exatamente em 20 de novembro do corrente ano, um dia após as barbaridades ocorridas na PUC, quando ele, acompanhado dos outros editores, veio à minha casa perguntar se eu poderia fazer algo em sua defesa. Dos demais editores, conhecia Pedro Sette Câmara e Álvaro Velloso de Carvalho, que são meus alunos na Faculdade da Cidade. José Roberto de Barros só entrou no meu horizonte visível junto com Sérgio, e aliás nunca mais voltou a aparecer.
Quanto ao jornal, tomei conhecimento dele exatamente no dia 13 de novembro, uma semana antes das violências, quando Pedro e Álvaro mostraram, a mim e aos alunos do Seminário de Filosofia, a arte final da publicação, que estava entrando na gráfica naquele mesmo dia. Mais de duas dezenas de pessoas testemunharam esse momento.
Não me cabe, portanto, o mérito, que muito me honraria, de ter orientado esses meninos na criação e publicação do seu jornal, cuja qualidade, de texto e de apresentação gráfica, muito supera a da maioria das publicações estudantis e é reconhecida aliás, com esgares de mal disfarçada inveja, pelo próprio sr. Jesus Hortal. Não seria decente, da parte de um professor, do alto de seus cinqüenta anos de idade, apropriar-se das glórias de seus alunos, e muito menos das de dois amigos deles que lhe eram perfeitamente desconhecidos.
Declino, pois, a bem da verdade, da homenagem que me faz o sr. Jesus Hortal.
Quanto às insinuações de que por trás do jornal estariam não sei quais poderes ocultos, é muito lisonjeiro e reconfortante para os cem valentes agressores que investiram contra três vítimas imaginar, ou fingir que imaginam, que há por trás destas um formidável exército de potestades titânicas multinacionais. Se eu estrangulasse um bebê de três anos, inventaria exatamente uma história dessas: diria que ele era um fracote só na aparência, que por trás dele havia um invisível Schwarzenegger. É assim que os covardes recobrem a covardia com as pompas da bravura.
Conheço vocês muito bem, seus poltrões, garotinhos mimados cujo máximo ato de coragem é bater o pezinho, em casa, contra papai e mamãe. Só ficam valentes quando agem em bandos de uma centena, seguros do apoio de duas dezenas de ONGs amparadas em verbas do Estado e em doações internacionais. E mesmo assim, quando ameaçados por três perigosos garotos, vão correndo se esconder sob as saias da reitoria.
Intimidados diante de um adversário, têm de imaginá-lo à sua própria imagem e semelhança: consolam-se de sua pusilanimidade dizendo uns aos outros que, se ele teve a coragem que vocês não têm, é que deve estar muito bem escorado em apoios pelo menos tão poderosos quanto aqueles de que vocês necessitam até para mostrar o nariz na rua, e sem os quais não são nada, absolutamente nada.
Da bravura solitária, vocês só sabem o que viram no cinema. Seguros de que não existe na vida real, de que é mera invenção de Hollywood, rejubilam-se de serem criaturas normais como as outras ovelhas trêmulas do rebanho, que não portam em suas almas esse execrável emblema do capitalismo. E ao vê-la em toda a sua insuportável realidade, têm de fingir que é apenas aparência, disfarce de algum poder secreto. São palavras que consolam.
A raiva mesma que vocês ostentam contra esse adversário é puramente exterior e fingida. Qualquer psicanalista principiante identifica nela, de imediato, aquilo que realmente é: é medo recalcado, é culpa recalcada de recalcar o medo, é recalque simultâneo da culpa e do medo exteriorizando-se histericamente em falsas demonstrações de indignação moral e valentia de opereta.
Nenhuma pessoa normal, atacada por um adversário desproporcionalmente mais fraco, tem acessos de indignação ou faz careta de dignidade ofendida. Na mais truculenta das hipóteses, despede-se dele com uma piada fulminante e esquece-o para sempre.
Só a alma doente, cheia de mal conscientizadas acusações contra si mesma, é que tanto mais se infla de cóleras bíblicas quanto mais fraco e isolado o adversário, e descarrega em cima dele seu ódio de si mesma, seu desprezo de si mesma, revestidos da típica retórica auto-embelezadora, cuja falácia tanto mais se revela quanto mais se esconde por trás de termos pomposos, generalidades ocas e insinuações veladas -- a típica linguagem dos mentirosos e covardes.
Sim, seus covardes: a verdade, a dura verdade que vocês querem ocultar de si mesmos é que, reunidos em massa sob a proteção de autoridades e ONGs, vocês enfrentaram valentemente três meninos e agora, com redobrado valor, enfrentam três meninos mais um professor cinqüentão -- um homem que não tem casa própria, que não tem carro, que não tem dinheiro na poupança, que não tem apoio formal ou informal de nenhuma entidade pública ou privada, de nenhum movimento político secreto ou notório, que à força de tanto trabalhar já não tem sequer muita saúde ou ou vigor físico, mas que tem as duas coisas que a vocês parece faltarem por completo: amor à verdade e vergonha na cara.
26/11/97
Olavo de Carvalho é filósofo e escritor, autor de, entre outros, O Imbecil Coletivo, O Jardim das Aflições, O Futuro do Pensamento Brasileiro, Aristóteles em nova perspectiva.