O doloroso retorno ao paraíso perdido

por Paulo C. Barreto
(barreto@pobox.com)


Bendito Terceiro Milênio! Logo no primeiro dia de 2001, o artigo de André Gurgel, "A libertação do software e a odisséia final" resume como poucos o modo de pensar do movimento do software livre: o talento que sobra no discurso sedutor, no malabarismo da linguagem e na criação de utopias, é a capacidade que falta para a compreensão das coisas do mundo de verdade.

Em resumo, o artigo diz que a Humanidade gozou 25 anos de software livre de fato, até que começou a moda de comercialização de programas quando Bill Gates fez "um pacto explícito com a fortuna".

Esta é a chave de tudo: a fortuna é o Diabo, e é porque é sim -- e fim de papo. Não conseguindo escapar deste (pre)conceito, o articulista se embrenha em chavões ("gênio da lâmpada", "gás em vibrante excitação", "magia do software") e se esquece de explicar o que o povo quer saber: a) Qual foi o grande dano que Bill Gates causou à Humanidade? b) Que paraíso era esse em que viviam usuários e programadores antes que o dono da Microsoft mordesse o fruto proibido (nada a ver com a Apple)?

O paraíso perdido do Sr. Gurgel só existia para meia dúzia de afortunados. A comunidade que reunia conhecimentos técnicos extraordinários e tinha o privilégio de chegar perto dos raros computadores megacorporativos "prosperou feliz e fluidamente [sic]", enquanto o cidadão-reles-mortal só conhecia as luzes piscantes do cérebro eletrônico da Batcaverna. O próprio artigo do Gurgel teria sido redigido em máquina de escrever. Não há como fazer uma comparação honesta daqueles tempos com a realidade da informática de hoje.

De qualquer forma, a produção comercial de software é indissociável da transformação dos computadores em produtos de consumo de massa, reproduzidos aos milhões para abastecer os consumidores. E é somente na arena do mercado que seus sucessos/fracassos podem ser julgados. Programa é o Fusca de conserto fácil e barato, não o Porsche que raramente dá defeito; o apartamento da Cohab, não o palácio de Buckingham; macarrão instantâneo, não caviar. Enfim, estado da arte, não obra de arte. Eis por que um programa cheio de defeitos passa por cima das críticas dos gurus da informática e continua tendo aceitação esmagadora.

Enquanto isso, pelo que se pode interpretar do texto, a participação dosoftware livre despencou de forma humilhante depois de um quarto de século dominando 100% do mercado. Ou melhor, um não-mercado que deveria ser mantido eternamente como um sertão inexplorado; afinal, o Sr. Gurgel insinua que Gates poderia ter se dado bem em qualquer negócio na vida, mas pecou ao se meter a buscar o sucesso empresarial no software...

Não vale falar da importância crescente de Linux e similares: o software livre contemporâneo é parte integrante do mercado, é desenvolvido como atividade empresarial e seus produtos disputam consumidores entre si e com produtos de código trancado. Para a felicidade do usuário, ficaram mais eficazes e amigáveis. Mas, se não fosse o juízo implacável do mercado, o software livre teria se desenvolvido da mesma forma?

Ninguém é capaz de responder com absoluta segurança. Nem eu, nem André Gurgel, nem o próprio Richard Stallman. Só que o artigo não mostra incerteza nenhuma: pinta de rosa os tempos que se foram, enquanto apela a elucubrações moralistas como último recurso para desmerecer o êxito de Bill Gates. Afinal, a fortuna é o Diabo. É isso mesmo, e é porque é. Acredite.


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