O Intento da Imprensa
Nunca foi tão fácil odiar a imprensa. Na noite da decisão da Suprema Corte, a grande mídia mostrou a vitória de Bush como se fosse um desastre ambiental. Eles estavam nitidamente com os corações partidos. E, claro, eles continuam a distorcer os fatos, deixando de assinalar que o que a campanha de Gore exigia não era apenas uma simples recontagem (isto já tinha sido feito duas vezes), mas uma reinterpretação das cédulas anuladas com a esperança de arrancar a vitória através de manipulação eleitoral.
A mídia nos informou que a Suprema Corte que julgou em favor de Bush estava "terrivelmente dividida". Engraçado, eles nunca disseram isso a respeito da Suprema Corte da Flórida, que julgou em favor de Gore pela mesma margem. Também fomos informados que uma "pequena maioria partidária" prevaleceu, uma frase que nunca foi usada para descrever a corte da Flórida. E nunca um dissenso na Suprema Corte recebeu tanta atenção no noticiário, com repórteres lendo para os telespectadores longas passagens com grande drama. E pensar que uma semana antes, o presidente da Suprema Corte da Flórida escreveu um dissenso e foi tratado como um rabugento excêntrico.
E agora chegamos à alegação mais tola de todas: a de que a presidência de Bush está seriamente enfraquecida pela maneira como ele chegou ao cargo. Dizem que ele agora deve curvar-se aos democratas para ter alguma legitimidade. Que ele deve trabalhar para "merecer" sua apertada vitória fazendo no cargo as coisas que Gore faria. Que ele deve "curar as feridas" comunicando-se de forma bipartidária com "eleitores desamparados" que acreditam que ele ganhou a presidência sem "contar todos os votos".
Nonsense! Se Gore não tivesse apertado cada botão na máquina legal americana para manufaturar uma vitória, a intervenção da Suprema Corte jamais teria acontecido. Os prospectos presidenciais de Gore viveram e morreram através dos processos que ele moveu depois da eleição.
Quanto ao bipartidarismo, a parte principal dos votos de Gore vieram dos cantos afastados da sociedade americana. Como Robert Bartley enfatizou, e antes dele Thomas DiLorenzo, os eleitores de Gore eram, em sua maioria, sustentados pelo governo, como burocratas, recebedores de esmolas estatais, advogados de tribunais, sindicatos e similares. Essas pessoas nunca vão apoiar Bush, não importa o que ele faça. Na verdade, o mês passado mostrou quão raivosas, cruéis e brutais essas pessoas são.
Muito antes da controvérsia na Flória, o establishment esquerdista criticava Bush por qualquer infração contra o politicamente correto. Por razões que ainda não estão inteiramente claras, eles estavam radicalmente em oposição a ele desde o começo, jurando destruir suas chances com qualquer arma que pudessem encontrar. Lembram o breve oba-oba em torno de John McCain? Ele foi incensado pela imprensa e seus amigos com exatamente este propósito.
Enquanto isso, as bases republicanas não estão tão unidas desde os cortes de impostos de Reagan em 1981. Milhões e milhões de pessoas deixaram tudo para escrever e telefonar para cada representante eleito em sua órbita para objetar ao coup de tort de Gore. Os militares, revoltados com a tentativa de desqualificar suas cédulas, correram em defesa de Bush como nunca antes. Grupos de ativistas religiosos e pró-direitos de propriedade, alienados durante a patética convenção republicana, perdoaram tudo para promover o luminoso nome de George W.
Além disso, a análise midiática convencional não leva em consideração quanto apoio Gore perdeu durante este período de recurso processual atrás de recurso. As pessoas que votaram em Gore porque pensaram que ele representava a classe média agora sabem a verdade sobre o lado obscuro do Partido Democrata. Talvez seja por isso que as pesquisas mostram que se as eleições acontecessem hoje, Bush ganharia facilmente o voto popular com vantagens de 10 a 15 % dos votos.
Devemos realmente acreditar que o americano médio está se aliando aos desvarios histéricos e às calúnias de Jesse Jackson e Paul Begala contra os pronunciamentos tranqüilos e lógicos da campanha de Bush? A mídia pensa que o povo americano é tão cego que não tem nenhuma idéia do que a campanha de Gore estava planejando, quando pretendia incluir os "sub-votos" de condados controlados por democratas?
Tente este pequeno experimento em sua cabeça. Imagine que os candidatos fossem trocados. Digamos que Bush tivesse ganho o voto popular e Gore tivesse ganho o voto eleitoral com uma pequena vantagem na Flórida. E imagine então Bush exigindo recontagem atrás de recontagem, entrando com ação atrás de ação, apelando a juízes e advogados que devem favores a seu partido para que revertessem a eleição. Digamos que, apesar de tudo isso, uma secretária de Estado de mente independente na Flórida finalmente certificasse a contagem, e que Bush mantivesse a atitude, insistindo, processando, adivinhando marcas nos cartões e despachando seus servos para todo lugar para desacreditar a vitória de Gore.
Dá para imaginar o que a imprensa diria sobre Bush? Ele teria sido denunciado como um mau perdedor. Mais ainda, a imprensa diria que seu comportamento revela o desprezo dos republicanos pela democracia e pela Constituição, com as inevitáveis comparações a Hitler. Algumas pessoas perdoariam seu comportamento dizendo que ele estava sendo forçado a isso por elementos extremistas do Partido Republicano. Todo mundo que tivesse qualquer coisa a ver com tal desmancha-prazeres seria investigado e denunciado de espada em punho. A imprensa faria tudo em seu poder para fazer os republicanos pagar por qualquer desafio à vitória de Gore. O barulho para que para que Bush concedesse seria ensurdecedor.
Em lugar disso, a imprensa tratou os malignos ataques de Gore ao colégio eleitoral e aos resultados da Flórida como legítimos e normais, porque ela não quer que Bush seja o presidente. Ela queria mais quatro anos de governo Clinton e estava pronta a concordar com até as tentativas mais escandalosas de distorcer a eleição para conseguir isso.
Sendo assim, Bush vai chegar a Washington com as vaias das pessoas que a maioria dos americanos não suporta: cães raivosos da imprensa, empregados do Governo decepcionados, ativistas étnicos maníacos, feministas histéricas, e todo o resto. Os aplausos virão das pessoas que não estavam muito empolgadas com Bush durante a campanha, mas que agora o vêem como um herói popular.
Não, ele provavelmente não merece tais aclamações. Mas a história da organização política americana nos mostra que as bases sempre têm mais princípios do que as lideranças. Isso era verdade em 1800 e é verdade hoje. Ademais, ele tem todos os inimigos certos. Bush provavelmente vai decepcionar seus seguidores fazendo muitas concessões, e com muita freqüência, a esses inimigos. Mas o resto de nós não esquecerá quem eles são.
(Tradução de Alvaro Velloso de Carvalho)
Llewellyn Rockwell é presidente do Von Mises Institut e colunista do WorldNetDaily, onde este artigo foi originalmente publicado. Ele dirige excelente a home page LewRockwell.com