NÃO MARQUE O QUADRADINHO

Por Llewellyn Rockwell


Sabe aquele quadradinho no seu formulário do imposto de renda que pede 3 dólares para as eleições federais? O ato de marcá-lo, diz o formulário, envia seu dinheiro para os políticos concorrendo à presidência. Fazê-lo não quer dizer que você pagará mais. Façamo-lo em função do interesse público, o formulário nos diz.

O sistema foi adotado no início dos anos 70, e no começo a quantidade de pessoas que marcava o quadradinho era bem alta. Mas as pessoas não levam mais fé. Na verdade, praticamente 9 em 10 não levam fé. As estatísticas de devolução do imposto de 98 mostram que apenas 11.3% dos contribuintes marcaram o quadradinho. Isto já é um decréscimo dos 29% do início dos anos 80.

Esta é uma grande demonstração de não-confiança no sistema político - não apenas nos políticos que querem se valer do dinheiro, como também no aparato governamental que eles habitam. Dê ao povo uma pequeníssima oportunidade para se rebelar e ele a pega. Mesmo quando se trata de uma medida simbólica como não marcar o quadradinho, as pessoas a utilizam para mandar um recado.

Se no início dos anos 80 sábios diziam que nós não acreditávamos no governo, o que isto diz de nós agora? Se 70% não acreditavam no governo em 1980, 90% não acreditam agora. Não é de espantar que o governo federal tente soterrar toda possibilidade de deixar o povo falar com seu próprio dinheiro coletado nos impostos.

As notícias são assaz ruins para a sagrada causa das eleições publicamente financiadas. Veja este texto tirado de um comercial de 1991 do serviço público, feito pelos federais:

"No seu formulário de imposto de renda federal, há uma questão sobre o financiamento das eleições presidenciais. Você deseja que um dos seus dólares pague pelas campanhas presidenciais? Isto não alterará seu imposto ou reduzirá sua devolução. Não marcar esta opção diminui a dependência de grandes contribuições de indivíduos ou grupos."

No mínimo, a recusa das pessoas em marcar a opção diz que a aparência populista do movimento é uma fraude. Dada a oportunidade gratuita de fazer conhecer suas preferências, 9 em 10 mandam estes reformadores lamber sabão.

É claro, então, que os proponentes do sistema do quadradinho o viram explicitamente como um plebiscito a respeito de eleições financiadas com dinheiro público, um meio para reduzir o papel supostamente corrupto do dinheiro privado na política. As pessoas tiveram a oportunidade de meditar a questão, e ela se demonstrou amplamente impopular. Dada a evidência, não é hora dos proponentes jogarem a toalha? A esquerda tem esta percepção esquisita de que todo dinheiro privado é sujo e somente o dinheiro público está livre de máculas. De fato, o financiamento público é a maneira mais certa de fechar o sistema e protegê-lo de intrusos discordantes. O financiamento público assegura que as eleições serão um meio somente para que aqueles que amam o status quo participem. A histeria em cima da possível candidatura de Pat Buchanan para presidente é em parte causada pela idéia de que alguém que não apóia o sistema possa receber fundos para a campanha.

Além disso, o verdadeiro problema com financiamento de campanha não é que haja muito dinheiro envolvido. O problema é que os riscos são muito elevados. O governo tem dinheiro demais para dar e favores demais a distribuir. Se a presidência e o congresso fossem ocupados por pessoas restringidas pela letra da lei e pela constituição, as eleições poderiam estar mais relacionadas à qualidade do candidato do que àquilo que H. L. Mencken chamou de leilão antecipado de bens roubados.

Mas as implicações do colapso do quadradinho em branco são ainda mais dramáticas. É uma encorajadora evidência que a marca do nosso tempo seja o mergulho nas percepções públicas do governo. Verdadeiros conservadores deveriam tomar coragem: estes são tempos em que esquerdistas como Gary Wills se sentem na obrigação de escrever livros explicando porque o governo não é mau!

Infelizmente o formulário não inclui outros quadradinhos que possam ser deixados em branco. Quando o presidente George Bush propôs a adição de um que ajudaria a pagar o débito interno, foi a única boa idéia que surgiu da sua administração. Mas ela foi saudada com vaias e berros de todo o establishment pró-governo, e denunciada como uma idéia que poderia rapidamente sair de controle.

Consideremos a experiência de Michigan. Seu formulário de impostos inclui um item opcional, não para uma coisa deprimente como uma eleição, mas para duas outras cuja bondade aparentemente é auto-evidente: um fundo para ajudar crianças violentadas e abandonadas e outro para proteger espécies em perigo de extinção. O resultado: formidáveis 1,4% dos contribuintes marcam o quadradinho. Os 98,6% restantes estão demonstrando seu voto de não-confiança de que o governo possa ou deva fazer mesmo estas coisas.

Para Michigan, este é um número historicamente baixo. Isto não quer dizer que as pessoas não gostam de crianças e animais e de um milhão de outras coisas boas. Durante o resto do ano, as pessoas dão livremente seu dinheiro para todo tipo de causa beneficiente, para grupos que usam o dinheiro de forma eficiente e eficaz. Mas por que iria qualquer pessoa em sã consciência voluntariamente dar dinheiro para que o governo jogue fora ou construa burocracias ainda maiores para nos oprimir?

Atualmente 41 estados têm quadradinhos similares em seus formulários de impostos, a maioria deles instituída com a esperança de demonstrar o apoio do público a um sem-número de causas liberais. O resultado real é uma participação média de 1%. Não é de espantar que os esquerdistas amantes do governo tenham ficado loucos quando Bush propôs ampliar o sistema.

Quadradinhos opcionais são uma má idéia se envolvem novos gastos porque sempre haverá idiotas suficientes para dar um pouco mais de dinheiro aos burocratas. Mas, na medida em que dizem respeito a gastos já existentes, são uma excelente idéia. Coloquemos ajuda a países estrangeiros, guerras no estrangeiro, a previdência, verbas para a educação e para as moradias públicas no formulário também. Deixem as pessoas dizer exatamente como seu dinheiro deve ser gasto.

Uma vez que estes resultados saiam, o próximo passo será introduzir um quadradinho no formulário que simplesmente dirá assim: marque aqui se você prefere simplesmente ficar com seu dinheiro.

(Tradução de Pedro Sette Câmara)

Llewellyn Rockwell é presidente do Von Mises Institut e colunista do WorldNetDaily; seus artigos republicados em O Indivíduo estão aqui


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