LLEWELLYN ROCKWELL

OMC: Mais regulamentação do que comércio


Graças a Deus o encontro de Seattle da OMC terminou sem resultado algum. Na verdade, os delegados estão felizes só por deixar a cidade inteira. Quando o próximo encontro desta burocracia global acontecerá, ninguém sabe ao certo. Todos estaríamos em melhor situação - a causa do livre comércio estaria em melhor situação - se ela jamais se reunisse novamente.

O que matou a reunião não foram tanto os protestos, mas sim o homem que libertou a besta reguladora da jaula do governo global: Bill Clinton. Ele deu com a língua nos dentes ao dizer ao jornal de Seattle Post-Intelligencer que a OMC deveria usar sanções para forçar regulações trabalhistas semelhantes às dos EUA no mundo inteiro. "Definitivamente, eu favoreceria um sistema no qual sanções seriam impostas pela violação de qualquer cláusula de um acordo comercial", disse Mr. Clinton, revelando a doutrina esotérica que sua administração tanto trabalhou para manter oculta. Pior para a linha esotérica que o atual governo apóie somente um "grupo de trabalho" sobre relações trabalhistas. A administração tentou esvaziar o comentário depois, mas todo o mundo sabe que Clinton quis dizer exatamente o que disse.

Pense nas implicações da realização deste sonho trabalhista-sindical. A OMC imediatamente se tornaria o braço armado do Departamento de Trabalho dos EUA - ou pior, da Organização Mundial do Trabalho - restringindo o comércio com qualquer país que não subsidie sindicatos, promulgue leis de salário mínimo, imponha a previdência social, acabe com a "discriminação" e, por fim, não emperre seu mercado de trabalho com todo tipo de intervenção.

Os delegados do Terceiro Mundo imediatamente perceberam o que Clinton queria: Ele estava endossando todas as principais exigências dos manifestantes, que querem ver o comércio "associado" à expansão do estado regulador de previdência global. Os delegados há muito vinham pensando que os EUA tinham um plano secreto para usar a OMC para decretar regulações de governo global com o fim de estropiar as difíceis economias de seus países, mas agora eles tiveram a prova disto.

Os delegados comerciais do Terceiro Mundo também perceberam que este elefante branco regulador seria o beijo da morte, não apenas para suas economias como também para o mundo. Novas leis de trabalho, junto com novas leis de proteção ambiental, entregariam o mundo à pobreza permanente. "Estas pessoas aí fora não estão falando pelo mundo em desenvolvimento", disse o delegado paquistanês Munir Ahmad a respeito dos manifestantes. "Eles querem um salário mínimo para os trabalhadores? Como você pode querer um mínimo de US$4 para os trabalhadores em Bangladesh? Lá não é nem 20 centavos." "Se você começar a usar o comércio como alavanca para a implementação de agendas não-relacionadas ao comércio", disse Boutros-Ghali, do Egito, "será o fim do sistema de comércio multilateral - talvez não neste ano, mas em dez a quinze anos." "Nós impediremos o consenso em todos os assuntos se a proposta dos EUA for adiante", disse o Ministro do Comércio paquistanês ao Wall Street Journal. "Nós explodiremos a reunião". Vai fundo, Paquistão - e quanto antes, melhor!

Por que os líderes sindicais estão tão inflexíveis quanto a imposição de supostos direitos trabalhistas no mundo todo, incluindo toda a agenda socialista da carta da Organização Internacional do Trabalho? Terão John Sweeney e Jimmy Hoffa se decidido a deixar de lado sua cobiça cega por maiores salários sindicais nas antiquadas indústrias que dominam com o fim de exercitar seu profundo amor pelos pobres do mundo?

De jeito nenhum. Eles só querem acabar com economias em desenvolvimento no momento em que estes países atraem investimentos em nível recorde. Os sindicatos querem proteger seu cartel da competição, e planejam usar o governo mundial para fazê-lo. É por isto que eles odeiam o verdadeiro livre comércio, e é por isto que eles depositam tantas esperanças na OMC; eles querem que ela seja seu instrumento, e Clinton está na sua manga.

Ninguém que tenha consciência pode apoiar a imposição internacional de "direitos trabalhistas". Isto levaria milhões de pessoas ao desemprego, e fincaria a miséria nas partes mais pobres do mundo. E por que, além disso, deveriam os povos do Terceiro Mundo submeter suas economias ao controle da OMC, que é completamente dominada pelas grandes nações desenvolvidas? Eles precisam de liberdade para competir, e para tanto é preciso impedir a OMC de destroçar suas esperanças e sonhos para o futuro?

Não é interessante que os manifestantes de Seattle possam se dizer tão cheios de "consciência social" e "progressistas" mesmo quando tentam condenar todo o mundo em desenvolvimento à pobreza eterna? Na verdade, os manifestantes nada mais são do que representantes disfarçados da elite dos interesses trabalhistas dos EUA, que estão preocupados somente em engordar suas carteiras às custas dos consumidores e trabalhadores do mundo. Trabalhadores do mundo, uni-vos! - Contra os sindicatos americanos e a OMC.

Foi especialmente nauseabundo ver Clinton assinando o acordo contra o trabalho infantil, de que tanto se orgulha. O que acontece às crianças em países desesperadamente pobres se não podem trabalhar? Elas morrem de fome, entram em gangues de rua, ou se vendem como prostitutas. Com empregos, elas têm comida, roupas e sapatos, e podem ajudar seus pais e também os parentes. Os empregos trazem auto-estima, as treinam para um ambiente civilizado, e lhes dão um futuro. Com seus empregos - pode chamar de trabalho infantil se quiser - elas têm esperança.

Deus abençoe as companhias que as empregam, e os americanos, europeus e asiáticos que compram seus produtos. Malditos sejam os reformadores sociais que querem banir o trabalho infantil, que salva vidas, do mundo todo, e mantêm seus produtos longe de nossos portos.

Nos estágios iniciais dos debates da OMC, era comum que os conservadores se preocupassem com a possibilidade dos EUA serem vencidos no sistema de voto democrático da OMC pelo Terceiro Mundo, que tem a maioria dos delegados. Em retrospecto, este temor não tinha razão de ser. De fato, nós deveríamos saudar os delegados do Terceiro Mundo, porque são eles que se interpõem entre nós e um regime regulatório global administrado pelos EUA.

Países no mundo em desenvolvimento também têm o direito de manter sua soberania. Eles têm o direito de conduzir seus assuntos sem os ditames de tipos como Sweeney, Hoffa, e todo o resto dos planejadores sociais imperialistas, estejam eles falando nos salões da OMC ou protestando nas ruas. Aquele oficial de comércio paquistanês está certo: o mundo em desenvolvimento deveria explodir o que resta da OMC.

(Tradução de Pedro Sette Câmara)

Llewellyn H. Rockwell Jr. é presidente do Instituto Von Mises e colunista do WorldNetDaily; sua excelente home-page pode ser encontrada em http://www.lewrockwell.com


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