Carta aos terroristas do mundo
CARTA Para: Terroristas do Mundo
De: Llewellyn H. Rockwell Jr.
Data: Fim do Século
O Departamento de Estado dos EUA e todas as demais agências oficiais estão nos dizendo para permanecer em alerta para ataques terroristas vindos de vocês. Os ataques podem vir em qualquer forma, dizem as notas à imprensa, de uma carta-bomba até um caminhão-bomba. A segurança nos aeroportos e nas fronteiras do país é maior do que nunca. Mas não são só vocês, estrangeiros amorenados, que estão sob suspeita, mas também os cidadãos comuns. Todos somos suspeitos.
É difícil entender estes avisos. Vocês podem não estar planejando nada. Isto pode não ser mais do que propaganda destinada a amedrontar o povo americano. Todos os governos sabem que o povo que vive com medo de ser atacado fica mais obediente. Ou também isto poderia ser só uma desculpa para a violação de liberdades civis: buscas, interrogatórios, espionagem de nossas contas bancárias, leitura de nossos e-mails, e grampo de nossos telefones.
Isto também poderia ser um sinal da paranóia crescente do nosso governo. Certamente desde a bomba de Oklahoma, mas mesmo antes, o governo dos EUA vem ficando bastante defensivo. Washington, D.C. é um campo armado. É difícil acreditar que quando eu era jovem todos os prédios do governo eram abertos ao público, e que nos tempos de meu pai qualquer um poderia bater na porta da Casa Branca. Mas, naquela época, o governo americano era pequeno e não tentava governar o mundo. Através do comércio e do bom exemplo, os EUA buscavam a amizade das nações.
Por outro lado, estes avisos podem muito bem ser justificados. Graças a sua política internacional, sua extensão militar imperial e arrogância global, o governo dos EUA é o mais odiado do mundo. Não é de espantar que alguns de vocês queiram manifestar sua raiva. Mas, antes de fazê-lo, deveriam considerar isto: o que o governo dos EUA fez para vocês e para todo o resto do mundo não tem nada a ver com o povo americano. Não venha nos culpar pelas ações do governo.
Vocês sem dúvida estão revoltados com os bombardeamentos e sanções contra o Iraque. É verdade que estas ações são barbaramente contrárias à moral. Também é verdade que dezenas de milhares de civis morreram por causa disto. Mas estas ações foram tomadas pelo braço executivo ditatorial, e com a aprovação apenas subentendida do Congresso. Ninguém perguntou ao povo americano se queria isto. Graças à longa e progressiva tomada de poder pela presidência, a administração Clinton pode agir por si, e seguir seu próprio programa sem qualquer relação com a vontade do povo americano.
O mesmo vale pelo bombardeamento daquela fábrica farmacêutica no Sudão. É ultrajante que a administração Clinton ainda não tenha formalmente pedido desculpas ou oferecido uma compensação ao dono da fábrica pelos prejuízos. Mas, novamente, ninguém perguntou ao povo americano se queria que bombas fossem jogadas sobre inocentes. A discussão aconteceu nos altos escalões, em consulta com meia dúzia de burocratas não-eleitos.
O mesmo se aplica a todos os demais ressentimentos que vocês têm contra nós. Ninguém perguntou ao povo americano se queria bombardear a embaixada chinesa na Iugoslávia. Aquilo aconteceu no meio de uma guerra que sequer foi declarada pelo Congresso. As pesquisas oficiais mostraram que apenas 40% da população apoiava a guerra, e não há como dizer quantos dentre estes estavam apenas tentando agradar os pesquisadores e sair do telefone. Pesquisadores podem ser muito intimidadores; para o americano médio, eles têm o ar de oficialidade, e esta talvez não seja uma percepção muito enganada.
Os americanos não são briguentos por natureza. Se você olhar a Constituição dos EUA, verá os poderes do presidente listados no Artigo II. Nada se diz sobre o poder de declarar guerra, que se encontra no Artigo I, sobre o Congresso. Mesmo lá, este poder está depois de uma longa lista de itens na seção 8. É bem claro que os homens que prepararam este documento não viam os EUA como um estado guerreiro.
Se as ações militares americanas são inconstitucionais, como o presidente consegue permanecer impune? Ao longo das décadas, a Constituição se tornou letra morta. Isto começou no século passado, quando o presidente usou as forças armadas para impedir metade dos estados de exercer seu direito de se separar, e para aterrorizar os dissidentes do Norte. Desde então tudo piorou, mas só nos anos 50 o governo passou a rotineiramente fazer guerras sem a aprovação do povo americano.
Vocês poderiam objetar que o povo americano elegeu Clinton e o Congresso que tem poder para retirá-lo de seu posto. É verdade, mas isto não quer dizer que nós devemos ser considerados responsáveis por tudo o que eles fazem. Vocês também precisam entender uma coisa a respeito do sistema eleitoral americano. Ele não é separado do governo. Os dois maiores partidos são mais ligados ao estado central do que quaisquer outros partidos em qualquer país do mundo.
Sim, nós temos o voto. Mas veja as escolhas que temos. Os candidatos oferecidos a nós são os já aprovados pelo establishment político. No mais das vezes, isto coloca os eleitores na posição de escolher o menor de dois males, que ainda assim é um mal. Não temos a opção de escolher "nenhuma das alternativas acima". Por esta razão e muitas outras, cada vez menos pessoas votam nas eleições.
Além disto, a maior parte das pessoas que diriges nossas vidas não dependem de eleição, especialmente os juízes. E o governo federal emprega dois milhões de pessoas como burocratas em tempo integral, cujos salários são extorquidos do contribuinte americano. Eles nunca concorrem para seus postos e não podem ser demitidos. Se nós os pudéssemos depor, nos o faríamos. Mas o sistema é arranjado de modo e impedir a influência dos cidadãos.
Então, como vocês podem ver, vocês não são os únicos que têm reclamações e náuseas com o comportamento do governo dos EUA. O povo americano também sofre sobre suas patas. Em muitos aspectos, estamos todos no mesmo barco - vítimas de um regime imperial, cheio de cobiça, impune e trapaceiro, que pouco se importa com direitos humanos e liberdades, exceto como recursos de propaganda.
O que pode ser feito? Vocês podem propor bombas, mas isto seria errado, e levaria apenas a mais bombas, mais intervenções, e mais violações de liberdades, em território nacional e estrangeiro. De fato, o terrorismo só faz ajudar o governo, porque parece validar tudo o que a administração Clinton está dizendo.
Há um jeito melhor. O povo americano não reverencia mais seus líderes como fez um dia. De todas as maneiras permitidas, e de algumas que não, o povo americano está sistematicamente retirando seu consentimento dos poderes constituídos. Como vimos no leste europeu há dez anos, no Irã sob o Xá e na Índia com Ghandi, ou nas colônias americanas na década de 1770, nenhum governo pode continuar no poder uma vez que o povo retire seu consentimento.
Portanto tenham paciência. O domínio militar dos EUA sobre o mundo não durará para sempre. Dêem algum tempo; nós acabaremos com o poder do Leviatã. No meio tempo, abstenham-se de culpar o povo Americano pelas ações de seu governo, e da violência que só pode ajudar o império.
(Tradução de Pedro Sette Câmara)
Llewellyn H. Rockwell Jr. é presidente do Instituto Von Mises e colunista do WorldNetDaily; sua excelente home-page pode ser encontrada em http://www.lewrockwell.com