Sede de mudanças: Doença real ou psicossomática?
Por Romano José Magacho
Estava eu numa tarde meditando, quase que sem querer, como num daqueles pensamentos que só Nosso Senhor poderia nos conceder naquele momento, sobre esta frase que ouvi de um (ou mais de um) colega meu, muito querido: "está certo que a tradição é importante, mas alguma coisa tinha que mudar!". Não lhe perguntei o que teria que mudar, pois não me ocorreu esta pergunta na hora, mas ela ficou marcada em minha mente.
No fim de semana que antecedeu esta frase, soube que o famoso padre (o que é ser padre hoje em dia?) Quevedo iria enfrentar o demônio encarnado, face a face. Não posso esconder minha falta de curiosidade nesse tema, pois acho que o padre Quevedo esqueceu o que Nosso Senhor disse quando estava sendo tentado no deserto. Acho que o padre Quevedo está esquecendo de ler a Bíblia quotidianamente (também aparecendo na televisão e fazendo horas de filmagem, quem pode ler a Bíblia?).
Nesse momento alguém pode estar fazendo algum relacionamento do título desse artigo com o Padre Quevedo. Acalmem-se, meu interesse ao citar o padre Quevedo não é criticá-lo (apesar de já te-lo feito de leve), mas de projetar uma perspectiva, digamos assim, assustadora.
Relembrando a frase do meu colega: "está certo que a tradição é importante, mas alguma coisa tinha que mudar!" e trazendo para o caso do padre Quevedo e do Fantástico me pergunto o que aconteceria com uma pessoa que ingressasse na Igreja e assistisse esse espetáculo do padre Quevedo laureado com uma narração, digna de Oscar, de Cid Moreira. No mínimo iria pensar que o padre faz um benefício e uma obra de caridade imensa ao povo católico, pois o mesmo desmascara as farsas existentes nesse mundo agnóstico. Qualquer outra pessoa que tente, porém, dizer para essa pessoa influenciada que o padre Quevedo não faz nada além de se exibir e ganhar audiência, que ele não acredita em milagres e no demônio (como disse no programa do Ratinho) e que o seu deus é a parapsicologia, essa pessoa caridosa receberá no mínimo uma crítica fervorosa. O critério de normalidade para o novo membro da Igreja é o padre Quevedo. Não outra coisa. Ela não sabe e nem se interessa em saber que existe "outra coisa".
Voltando-me para a frase do meu colega, que ainda não analisei, apenas introduzi o tema. Que mudança é essa que ele procura? Eu tenho 24 anos de idade e só posso dizer que conheço a Igreja há 3 anos. Durante 3 anos para mim a Igreja viveu somente com dois papas: São Pedro apóstolo e João Paulo II. Durante essa minha vida, e a de meu colega também, não enfrentamos nenhuma mudança na Igreja. Não passamos por nenhum sucessão papal e por nenhum Concílio. Ou seja, só conhecemos uma realidade ensinada. Como podemos dizer que alguma coisa tinha que mudar. Só podemos fazer isso baseado em opiniões de terceiros, declarações, textos, etc. Mas de onde vêm esses textos: de Roma, da CNBB, do Bispo, do catecismo... Então, devemos obedecer. Nunca questionei isso. Sempre vivi com isso.
Algo, porém, me ocorreu: se a Igreja tem 2000 anos, todo mundo fala de mudanças que tinham que ocorrer, nos textos e declarações o Concílio Vaticano II é citado em 99% da citações, parece-me que os 2000 anos de Igreja se transformaram em 30 anos de Igreja nova. Ainda muito mais velha do que eu. Eu vivi inculturado na Igreja do Concílio Vaticano II. Até hoje.
Descobri pela graça de Deus o outro lado da moeda. A Igreja dos Papas. A Igreja dos Concílios Dogmáticos, a Igreja de Cristo. E o mais engraçado, era para ser a mesma Igreja, pois o Papa é o mesmo, mas me parece que os duzentos e tantos papas predecessores já estão esquecidos, caducos, velhos, ultrapassados. Os bispos que não pensam assim, que amam essas papas. Papas que influenciaram suas vidas, suas vocações. Papas que deixaram marcas felizes na história da Igreja. Esses são cismáticos. Engraçado. Um cisma é quando nos separamos do Papa, da Sé Romana. Analisemos, pois, com uma comparação, um tanto infeliz, mas que nos chama atenção, o seguinte: a Igreja ortodoxa se separou da Igreja católica no século XI. Ela aceita portanto somente 10 concílios e é declaradamente cismática e excomungada, até pouco tempo atrás. A Igreja em que vivemos e amamos, a Católica Apostólica Romana, já passou por 20 concílios, mas só se lembra e age de acordo com o último, que nem dogmático teve a intenção de ser. Os chamados "tradicionalistas" atacam o CVII baseado em 19 concílios e ensinamentos de vários doutores da Igreja e são taxados de cismáticos. Meu Deus, tenha misericórdia de nós que não sabemos o que fazemos. Abdicamos dos ensinamentos de 19 concílios e 2000 anos de Igreja por 1 concílio e 3 papas. Infelizmente, me parece aquele brincadeira do Sílvio Santos em que trocamos um Mercedes Benz por um pneu de bicicleta furado respondendo, sem ouvir a pergunta, enxergando apenas uma luz vermelha, um SIM ou NÃO. E dissemos: "SIIIIMMM". E devemos nos contentar com isso.
Que infelicidade. Somos levados por todos a dizer que alguma coisa tinha que mudar, mas quando nos perguntam o quê, não sabemos responder. E o pior, dizemos que temos raiva de quem sabe. Afastamos aqueles que sabem responder. Parece que moramos em um aquário de peixes iguais, onde não há briga, onde alguém vai de manhã e nos alimenta com a mesma comida de sempre. E quando nos alimentam com uma comida diferente, negamos comê-la e até mesmo morremos.
Negamos aceitar, pois isso é difícil. Tem que mudar o coração, a consciência, a alma. Mas nosso ego não deixa. Nosso ego diz para si mesmo: "não deixe que lhe chamem a atenção. Seja forte, vença os outros!". E morremos, pois se algo vai diferente do que esperávamos, damos as costas e nada mais nos interessa. Decretemos o fim de nossa cooperação. Corremos para outras águas mais calmas, onde a maré vai para onde estamos remando. Remar contra a maré é difícil.
Como jovem, não posso suportar que outro jovem me diga que alguma coisa tinha que mudar, pois não sabemos o quê e ficamos com nossos eternos achismos. Como jovem, não posso suportar os adultos leigos e consagrados que não querem nos ensinar e que são solidários a falta de educação religiosa e histórica. Até pouco tempo atrás, com as coisas que havia aprendido na Igreja, conclui, não isoladamente, que a missa em latim era o inferno que impedia a Igreja de se santificar (?). Me disseram que o latim era horrível, que ninguém entendia nada. Quão paradoxo. Fui a missa tradicional e, com o latim, aprendi o porquê do medo. "Eu não entendo latim, então não posso dar minha opinião", por isso o ódio pelo latim. "Em português (ou na língua vernácula) eu consigo opinar e fazer o meu ego crescer". E o silêncio foi reinando e a Tradição da Igreja sendo abafada a ponto de desconhecermos dogmas e papas importantes, a ponto de discutirmos dogmas infalíveis por causa de um Concílio pastoral. Ninguém ensina mais nada, pois não sabem o que ensinar. Ninguém aprende mais nada, pois não querem aprender. Cada vez a Igreja "do povo" cresce com a "voz do povo". Infelizmente a voz do povo não é uníssona e nem é eterna. A única coisa que sabemos é: "alguma coisa tinha que mudar". Me parece que isso já não é mais uma doença real causada por um mal específico. Me parece que isso é uma doença psicossomática. Me parece que em todos existe uma síndrome de destruição do passado, também psicossomática. Padre Quevedo, nos ajude nesse ponto que é a sua área. Não, eu também estou infectado. Quem nos fala? Quem nos fala? O verbo já não é mais o Verbo.
"In Princípio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum."
Romano José