ARTICULISTA CONVIDADO
ALEXANDRE A. BASTOS
A Alma boa de Setsuan
O recente espetáculo
‘A alma boa de Setsuan’, dirigido por Domingos de Oliveira e protagonizado
por sua filha Maria Mariana, é um erro dramaturgico. Juntando péssimas
atuações a uma direção quase amadorística,
a peça apresenta tantas dificuldades que chegam a surpreender. A
parte técnica, por exemplo, é um fracasso. O figurino, por
exemplo, simplesmente não funciona; e a trilha sonora, o que dizer
da trilha sonora ? só pode ser ela o fruto de uma preguiça
extravagante. Mas não é de meu interesse realizar aqui uma
resenha crítica do fraco espetáculo em cartaz no teatro do
planetário, quero, antes, me ater àquela que é, ao
meu ver, o maior problema da peça: o próprio texto.
Por que esse texto, ‘A alma
boa ...’ ? em recente entrevista, o diretor Domingos de Oliveira afirmou
que considerava esta a melhor das obras do dramaturgo alemão. Brecht,
diz ele, nunca concluiu a obra justamente porque ela não pode ser
concluída, trata-se de um dilema insolúvel. Isso talvez explique
a cena constrangedora proporcionada pela atriz principal no final da peça,
pedindo à platéia que reflita sobre a mensagem do (profundíssimo)
texto, e que tente resolver o enigma de Setsuan.
No entanto, enigma não há.
Não existe qualquer paradoxo insolúvel na obra mencionada
e, vou além à afirmar que, se Brecht não a concluiu,
o fez porque a resposta invariável do dilema iria contra seus interesses.
O problema da ‘ A alma boa de Setsuan’ é o de uma mulher que não
consegue unir a prática da virtude a seus interesses mais imediatos.
Toda tentativa de fazer o bem terminava em alguma frustração
de sua vida prática - e ela, no final, para enriquecer-se, abandona
a virtude e torna-se cruel. Esse o paradoxo incontornável.
Ora, para mim, não há enigma
maior que essa relativização absurda, que põe em pé
de igualdade a busca da virtude e o conforto material. É o mesmo
que só aceitar a prática do bem quando o preço dessa
escolha for conveniente - e se esse é o dilema, a resposta a muito
já existe: seja pobre; por que há isso de causar tanto escândalo
? “a moral não trata exatamente de como ter felicidade, mas de como
ser digno dela”. Acreditar que uma adversidade justifica uma vileza é
pura racionalização, incapaz de enganar uma alma verdadeira
boa, em Setsuan ou em qualquer parte.
Por que então Brecht não enxergou isso,
uma vez que a resposta é tão simples ? talvez porque o dramaturgo,
como homem de esquerda, considerava o bem como apenas mais um dos “valores
burgueses” o qual, desprovido de qualquer referência à justiça,
entende somente como sinônimo de inocência - o que explica
uma bondade tão caricatural como a apresentada em cena. Assim, tanto
o bem como o conforto material não são mais que luxo burguês,
facilmente nivelados.
Brecht não teve a coragem de dar o passo que alteraria
decisivamente os rumos de sua obra e vida, mas teve a hombridade de ter
deixado o texto inédito. O único enigma de Setsuan ( se é
que há ) é este: por que o diretor não montou outra
coisa ?
Alexandre A Bastos
24 de Maio
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