2001: a odisséia da estupidez
Por Antonio Fernando Borges
"Nos tolos, a tolice é mais discreta
do que no sábio que virou pateta"
Shakespeare,
Trabalhos de amor perdidos
Uma pesquisa recente colocou o Brasil em último lugar, numa lista de 32 países, no imprescindível quesito "capacidade de compreensão de leitura". O assunto já foi bem comentado pelo editor de Indivíduo Alvaro Velloso, em seu site, e por Olavo de Carvalho - mas é possível que ainda sobre espaço para mais este lamento...
Na verdade, a pesquisa veio confirmar apenas o que já andava à solta nas ruas, como um leão feroz e sem dono. Que o diga o sucesso de crítica, nas livrarias e cinemas, de Lavoura arcaica, duplo exemplo de fingida obra-prima, que a gente frívola e pedante elegeu para incensar, no altar pagão de nossa Santa Ignorância.
Em tais circunstâncias, qualquer sugestão de leitura ou "destaque de 2001" terá que incluir, por triste necessidade, um minuto de silêncio por essa incapacidade brasileira de ler. E o silêncio se torna ainda mais constrangedor quando se constata que nem só de Lavoura Arcaica vivem os equívocos da literatura e do cinema brasileiros. Pelo contrário: os fariseus de plantão, que hoje se refocilam no brilho falso - e pouco edificante - de Raduan Nassar/ Luiz Fernando Carvalho, são os mesmos que há anos ajudam a difundir versões errôneas dos legítimos grandes livros que recomendo, a seguir.
Não são, por certo, lançamentos de 2001: entram aqui para provar, justamente, que nossa estupidez não é um fato circunstancial, nem uma odisséia recente:
Luz, câmera... idiotização
Uma breve
nota sobre a temporada cinematográfica que se encerra, com o ano. Tal
como Lavoura arcaica, a falta de visão dos fariseus também
saltou mais uma vez dos livros para as telas, em 2001. E o exemplo mais gritante
que logo me ocorre é Amnésia (Memento, EUA), de
Chris Nolan.
Tanto nas críticas quanto nos elogios, Amnésia foi vítima de uma mesma cegueira farisaica: apresentado como um thriller de suspense, com destaque (positivo ou negativo) para sua "narrativa original", sua "estrutura inovadora" - e muito blablablá - o filme de Nolan é, na verdade, uma interessantíssima reflexão sobre memória e responsabilidade pessoal, sobre culpa e expiação.
Incapaz de reter os acontecimentos recentes, o protagonista de Amnésia se esconde por trás de uma falsa busca da verdade para não ter de enfrentar os desafios maiores da consciência individual. A "narrativa às avessas" é, para dizer o mínimo, um aspecto secundário. Talvez por isso tenha se tornado um banquete na mesa dos fariseus, tão orgulhosos de sua assumida e meticulosa patetice.