25 anos para quem disparar a campainha do vizinho pela terceira vez
Por Breno Alvarenga Nunes
Que os homens jamais se esqueçam que o seu deus é o Estado. O Novo Testamento estatal não veio mudar a Lei, veio cumpri-la. É este o emblema que erguem os "portadores de fé pública", os "licenciados", os "servos de seu povo" - é o que nos prometem os messias do Reino de Deus aqui na Terra quando revogam nossos direitos naturais para reformar nossa miserável natureza, quando arrombam a nossa porta para sentar à nossa mesa de jantar, quando monopolizam os microfones para nos ofertar palavras refinadas e amáveis, quando enclausuram transeuntes sem registros criminais pelas incontáveis atrocidades que "poderiam" cometer segundo um programa estatal de cautelosa prevenção contra o crime, quando nos tomam, ao final da lida de mais um mês, a sofrida colheita de nossa pequena lavoura para investimento público no pequeno produtor, quando reclamam por mais um ramalhete de licenças do órgão expedito para engendrar caçadas àqueles que foram corrompidos pelo poder propiciado por tantos beneplácitos, quando nos roubam as crianças de nossas mãos e as levam para a escola, quando invalidam o pecado e estatuem o que é um crime.
Dias atrás, girando os polegares cada vez mais lentamente no sofá da sala, acabei despertando para assistir ao "60 Minutes" na GNT, o programa trazia uma matéria sobre a polêmica em torno à lei americana apelidada de "Three Strikes, You're Out". Do estado da Califórnia e já aplicada, em versões semelhantes, em cerca de 20 estados dos EUA (se não for isso, que algum espectador me corrija), a "mais nova expressão" da justiça pune um réu não com o castigo apropriado ao crime pelo qual está sendo julgado, mas por uma estranha operação de adição deste com as duas últimas infrações à lei penal, quer o acusado tenha ou não pagado as devidas contas, assim como seja qual for a natureza dos crimes: tentativa de estupro + assalto à mão armada + tráfico de drogas, ou empréstimo não autorizado da galinha do vizinho + combustão de erva + invasão de domicílio abandonado, não importa, tudo se resolve com 25 anos de cadeia em celas de segurança máxima. Exemplar. São todos iguais perante a Lei...
Lei é lei, a autoridade espiritual do Estado é inquestionável, e leis foram feitas para serem obedecidas. Antigas confissões de culpa assinadas sob ameaças de sentenças ainda mais longas, penas impostas devidas ao despreparo de defensores públicos, cidadãos reabilitados que cometeram o terceiro pecado capital sem sabê-lo crime (loas ao mundo fashion, por favor...), são apenas estatísticas, meros números, e artefatos como números, dados, e demais objetos insensíveis, são apenas coisas sem paixão, apenas pedrinhas no meio do caminho, são relíquias de uma época em que não havia a Nova Ordem para tornar este mundo o Admirável Mundo Novo que, hoje, com a graça benevolente do "Poderoso Chefão", podemos garantir aos nossos filhos. E quem mais, senão um pai e fotógrafo revoltado pelo estupro e assassinato de sua filha, poderia redigir com tamanha imparcialidade e segurança intelectual, com tamanho entendimento tal proposta, um desses que se ocupam somente em expandir suas bibliotecas com conhecimentos profanos em vez de conhecer "o mundo lá fora", "o mundo real"?! E sendo assim, uma votação pelos cidadãos foi proposta ao estado da Califórnia, este aceitou, e a medida então foi sancionada, publicada e promulgada com a urgência avessa a demais interrogações característica do Admirável Mundo Novo. A voz do povo é a voz de Deus, e os braços de uma cruz são como um trono, há sempre um eleito, não podem ficar vazios.
Obviamente, os cidadãos californianos foram ludibriados: os guardiões do globo alardearam que a novidade arrancaria das ruas os indivíduos viciados em cometer atos ilícitos através de longas estadias atrás das grades, nada foi dito sobre a aplicação da pena a marginais demoníacos que cometeram o imperdoável pecado de roubar pilhas! (Tudo bem que eles não sejam anjinhos, mas se, conforme diz a Bíblia, "os deuses das nações são demônios", então aqueles que os deuses das nações chamam de demônios são o quê?) De todo o modo, de acordo com a justiça da Nova Ordem Mundial e de Satã, a lei passou e, desde em voga, já expediu mais de cinqüenta mil habitantes da terra do sol para onde o sol nasce quadrado; milhares de condenados foram sentenciados a detenções que alcançam 25 anos por contravenções patéticas: um pobre coitado foi condenado por surrupiar um pedaço de pizza, outro pé-rapado errou a bola pela terceira vez roubando pilhas, mais um está fadado a 1/4 de século em pátios cinzentos e quartos mofados por ter sido apanhado pela terceira vez fumando crack, outro por roubar uma bicicleta de uma garagem depois de uma bebedeira de Ano-Novo - seus antecedentes criminais: furtou um par de luvas e um casaco e invadiu um domicílio sob o efeito do álcool com o objetivo de... ele mesmo não faz a menor idéia. Azar o seu, de 1/4 de século em alguma penitenciária de segurança máxima o sujeito não escapa. Mais da metade dos apanhados pela lei dos "Three Strikes" jamais incorreu em crimes violentos. Enquanto isso, criminosos violentos estão sendo libertados para ceder seus colchões aos condenados por dispararem a campainha do vizinho pela terceira vez - nada mais justo.
A perversidade que sublinha a aplicação desse engenho satânico, a pá de cal em cima de qualquer broto de liberdade humana, o horror a quaisquer valores morais e à hierarquia destes que o próprio conceito de valor implica, o alheamento puro e simples ao senso comum que permite catalogar cada crime em seu arquivo, a provável apreensão da novidade como lucrativo produto de exportação assim como a sua tão provável apreensão como proveitoso produto de importação, apesar de ser um sopro de gelo no sangue de qualquer ser dotado de coluna vertebrada, não deve, no entanto, extrair de nós um queixo caído: quando um homem demente - não somente devido às doses entorpecentes da vingança - jogando a culpa pelo assassinato de sua filha sobre todos os pecadores apanhados em flagrante pelo Estado é ouvido e aclamado pelos mandarins estatais; quando um promotor diz que é justo um homem assistir ao poente detrás dos muros penitenciários por mais de duas dúzias de anos por roubar um pedaço de pizza; quando candidatos a cargos públicos prometem como sinais de sua grande virtude empurrar para dentro de celas aqueles que obedecem ao ordenamento jurídico do Estado por terem tido a audácia inominável de esquecer o ordenamento jurídico do Estado por alguns ínfimos instantes e lembrar que, afinal de contas, é Ano-Novo e hora de beber até cair; quando um governo se gaba de ter enclausurado cerca de 3% de sua população, é sinal, realmente, de que agora é para valer, o Anticristo já está entre nós. Ao menos os condenados terão a honra de representar o papel que os divinos justiceiros lhes impuseram na história da saga do bode expiatório perfeito. Não há de quê. A honra é toda dos "licenciados" do Reino de Deus aqui na Terra, dos messias...