Lévy e a antifilosofia da técnica

Por Evandro Ferreira


As chamadas "novas tecnologias" desempenham um papel importante no cenário contemporâneo. Ou pelo menos é isso que ficou determinado pelo simples fato de que centenas de intelectuais não param de falar delas o tempo todo. De qualquer forma, discuti-las é importante, ainda que seja para buscar uma reflexão que vá além de sua mera apologia ou do repúdio completo.

Como não tenho muitos conhecimentos filósoficos, resolvi apenas fazer uma análise "lógica" - no sentido leigo do termo - de algumas afirmações de Pierre Lévy ("As tecnologias da inteligência", Ed. 34) acerca da necessidade de se refletir sobre a técnica no contexto da contemporaneidade.

Pois bem, logo no primeiro capítulo do livro, encontrei a seguinte afirmação: "Nem a sociedade, nem a economia, nem a filosofia, nem a religião, nem mesmo a ciência ou a técnica são forças reais; elas são, repetimos, dimensões de análise, quer dizer, abstrações. Nenhuma destas macro-entidades ideais pode determinar o que quer que seja porque são desprovidas de qualquer meio de ação" (pg. 13). O que dizer de uma frase como essa? Lembrei-me imediatamente daqueles pseudopsicanalistas que aparecem na TV dizendo que teorias são abstratas demais e que, para resolver nossos problemas, devemos partir para a prática.

O texto "Face à Técnica" - a que me refiro aqui - é uma introdução ao conteúdo do livro citado e, enquanto tal, procura expor as bases do que será tratado no mesmo. Acontece que, se nos detivermos mais a fundo no conteúdo de tal introdução, vemos que o mesmo não resiste a uma análise lógica dos argumentos. Em outras palavras, se buscarmos as fundamentações para a afirmação básica de que as tecnologias não determinam, mas apenas condicionam as ações do homem, não encontramos senão "provas" retóricas - ou negações mesmo.

Para mostrar isso, basta que se destaquem as duas afirmações contidas no trecho citado. A primeira é a seguinte: a "lista" de Lévy é composta de abstrações que, enquanto tais, nada determinam. A segunda é a de que essas abstrações nada determinam pelo fato de que não possuem meios de ação, "entidades" imateriais que são.

Sempre aceitei como obviedade o fato de que, para dizer o mínimo, o homem é um ser que pensa antes de agir. Desse modo, suas ações são determinadas, em última instância, por abstrações (posto que pensar é abstrair), ainda que elas sejam apoiadas no real. Pode-se ainda lembrar que, quando uma pessoa pensa, em sua mente abstrações dão origem a novas abstrações, como numa rede de conceitos que descrevem "coisas". Assim, no mínimo, abstrações determinam outras abstrações, o que invalidaria a afirmação de que "nada determinam". E determinam sim - não apenas condicionam, como nos quer convencer o autor mais adiante - visto que, sem uma primeira abstração o pensamento não tem início.

Essa primeira abstração, ainda que venha de um "nada criativo" (como afirmava Heidegger), é condição necessária ao surgimento de outras. A não ser que o ser humano seja um burro e fique pensando idéias desconexas.

No que diz respeito à ação, é certo que as abstrações, enquanto entes imateriais que são, não podem agir. Mas podem levar o homem a agir. Ou ainda, possibilitam que o homem entenda a realidade, para que possa agir sobre ela. Pode-se usar, então, a palavra "determinar", pois a ação do homem é determinada pela forma como ele entende a realidade. Não adianta dizer que é a realidade - ou o "devir", expressão que muito agrada a Lévy - que determina a ação do homem (e não as abstrações), pois isso seria pensar que o homem é um animal que funciona por estímulo-resposta.

É, pois, a realidade que determina a ação do homem, mas por meio das abstrações que ele faz a partir dela. No momento imediato em que está agindo, ele pode até não estar abstraindo, mas se está agindo - e não o faz irracionalmente - é porque abstraiu e chegou à conclusão de que deveria agir desta forma e não de outra.

Entretanto, o que mais me chocou foi a seguinte afirmação: "... não existe um 'Cálculo', uma 'Metafísica', uma 'Racionalidade ocidental', nem mesmo um 'Método', que possam explicar a crescente importância das ciências e das técnicas na vida coletiva" (pg. 12). Ao invés de apenas criticar os sistemas fechados de interpretação da realidade - por serem presos a esquemas deterministas - o autor prefere falar bonito e levar o leitor desavisado a associar abstração com inutilidade e filosofia com bricadeirinha de quem não tem mais o que fazer. Nesse contexto, incluir entre esses sistemas toda a Metafísica a até a "Racionalidade ocidental" - como de fato o faz Pierre Lévy - fica fácil e até parece menos absurdo, já que ninguém vai dar-se ao trabalho de estudar dois mil anos de filosofia só para desmentir com argumentos válidos as dez ou quinze linhas de retórica com que o autor varre para baixo do tapete toda a história do pensamento no ocidente, o qual não passaria de abstração.

E, uma vez que refutar retórica com mais retórica não leva a nada, ficamos impossibilitados de questionar se realmente "não é mais possível repetir, com ou sem variantes, Husserl, Heidegger ou Ellul" (pg. 12). Quanto ao último, nada sei. Mas sei que Husserl criou a fenomenologia - o que não é pouca coisa - e que Heidegger é dono de uma obra tão vasta sobre o "sentido do ser" que fica difícil falar aqui qualquer coisa a respeito. Não pretendo desmerecer os questionamentos de Lévy, mesmo porque não estudei cinco anos de filosofia. Além do mais, até concordo com muitos deles. Agora, se o texto não resiste a uma análise básica de redação, não resisto: tenho de dizer que quando afirmamos uma coisa, precisamos prová-la de forma ao menos satisfatória.

Contudo, se procurarmos mais fundo, descobrimos algumas explicações para a qualificação negativista que o autor dá às "abstrações". Primeiramente, deve-se notar que Lévy concebe o homem como parte de um devir histórico alucinado, repleto de "circunstâncias" que podem influenciar suas ações. Dessa forma, nada determina a ação humana (há apenas condicionantes), mas o devir como um todo determina quase tudo que o homem faz, pois, como bem diz, "o transcendental histórico está à mercê de uma viagem de barco" (pg. 16).

Além disso, os homens, atirados no devir histórico, "abandonam-se aos jogos de paixões e embriaguez, às artimanhas do poder e da sedução" (pg. 13). Aqui a coisa começa a ficar interessante. Uma vez que o poder e a sedução - assim como as paixões - são "abstrações" (acho que isso não é preciso provar), somos obrigados a concluir que abstrações têm sim o poder de levar o homem a agir, pois é no devir que Lévy concebe o homem como agente concreto. Agora, se ele quer nos convencer de que poder, seducão e tudo mais não são abstrações, mas instintos, temos de apagar todas as linhas que Freud e Lacan - para mencionar só dois autores - escreveram sobre o ser humano e suas emoções.

Já deu para perceber que o termo "abstração", aqui, serve para quase qualquer coisa? Assim, se se diz que essas "macroentidades ideais" não servem pra nada, pode-se falar mal de tudo sem temer prova em contrário.

Enfim, Lévy define o devir como uma pluralidade infinita de circunstâncias que podem levar o homem a fazer quase qualquer coisa. E ainda enumera com muito empenho várias dessas circunstâncias, na introdução e ao longo do livro. Ao final, reduzidos que estamos a pontinhos insignificantes no meio da massa de tentações e acontecimentos que nos cerca, o autor ainda quer nos fazer acreditar que nossas ações são apenas condicionadas, nunca determinadas por nada. É aí então que reside o maior problema do texto, pois até aqui, sempre sobraria como atenuante o fato de que as abstrações condicionam, mas não determinam nada. Isso se dá por meio de um jogo bem discreto de linguagem: Lévy nunca fala de determinismo, mas, paradoxalmente, gasta páginas e mais páginas enumerando tudo que pode condicionar as ações do homem. Ora, eis que o condicionamento elevado à enésima potência transforma-se em... determinismo. Só que não podemos defini-lo como tal, assim como não podemos dizer que 1,9999999999 é dois, quando, para fins práticos, acaba sendo. De fato pode-se provar isso matematicamente, como certa vez me demonstrou um professor de 2º grau. A arte de Pierre Lévy parece ser a de afirmar uma coisa sem afirmá-la realmente.

Uma das causas de toda essa confusão está no fato de que Lévy não concebe a autonomia das ações do homem como um fruto da individualidade de seu ser - e nem o poderia depois de ter jogado Heidegger e toda a Metafísica - e até a fenomenologia de Husserl - para escanteio. Logo, precisa encontrar formas as mais diversas para explicar de onde viria essa autonomia, por mais insignificante que ela seja. Para ele, então, essa autonomia parece estar no campo das ações, e define-se em oposição às abstrações. Mas, se o homem só tem autonomia no campo das ações, é porque lá ele está imune às abstrações e pode "abrir-se a possíveis metamorfoses sob o efeito do objeto" (pg. 11). Nada tenho contra experimentações. É preciso, contudo, dar a elas sua devida importância, e não elegê-las como o critério maravilhoso da busca do conhecimento.

Afinal, o Bill Gates está desenvolvendo o Windows há uma década guiando-se pelo método de correção sucessiva dos erros que vão aparecendo. Até hoje podemos encontrar coisas verdadeiramente infantis naquele sistema operacional. Digo isso porque, se até para a fabricação de um sistema operacional de computador, o experimentalismo deve ser usado com ressalvas, imagine-se o que aconteceria se ele fosse aplicado a toda a produção de conhecimento no ocidente?

Por último, mas não menos importante, é sempre bom lembrar que "abrir-se a possíveis metamorfoses sob o efeito do objeto" pode ser apenas um eufemismo para "deixar-se levar pelas coisas sem pensar". Tomado esse critério como o guia de nosso mergulho no devir, voltaríamos assim ao estado de símios, quando muito. Misturar arte e ciência é interessante e necessário, mas muito perigoso. Ainda mais se isso se der através da abolição de toda filosofia, em favor de uma espécie de sociologia do devir histórico.


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