O Menino Mimado e a Síndrome de Estocolmo

Olavo de Carvalho, em seu artigo "O menino mimado", escreveu que "A duplicidade da escala de valores [sobre considerar-se mais grave uma censura eclesiástica, temporária, do que a matança de centenas de milhares de cristãos], aí, chega às alturas de um cinismo quase impensável. Quando o senso moral de pessoas cultas é afetado ao ponto de perder a noção das proporções, algo de muito grave aconteceu na intimidade de sua constituição espiritual [grifo meu]. A própria 'teologia da libertação' do doutor Genésio-Boff preparou o terreno para isso. Mas a doutrinação política não basta para gerar tamanho efeito. É preciso uma ação mais funda, uma corrupção das capacidades básicas de percepção e julgamento. Foi constatando esse assombroso poder de deformação das consciências que David Horowitz, um observador judeu dos conflitos católicos, tirou a seguinte conclusão: 'A teologia da libertação é um credo satânico'."

Um outro articulista, desta vez um padre [Rev. Fr. Charles T. Brusca], considera que o sucesso do "Modernismo" na Igreja, do que a "teologia da libertação" é filha dileta, resulta do fato de a cristandade estar padecendo da "Síndrome de Estocolmo", que qualifica de "aberração mental",a qual faz ver as coisas pelo seu inverso. Assim, aquela "duplicidade da escala de valores", poderia também ser explicada por esta mesma inversão, onde o culto a satã substitui o culto a Deus. No fundo, portanto, desta inversão, está o medo, o pavor.

A "Síndrome de Estocolmo", fenômeno psíquico terrível - que ultrapassa o âmbito da Psicologia e adentra o da Antropologia (1) - passou a ser notado pouco depois de um assalto a banco, assim descrito pelo padre Brusca:

Às 10:15h do dia 23 de agosto de 1973, terça feira, o "Banco Sveriges" de Estocolmo, Suécia, foi atacado com sub-metralhadoras. "A festa só está começando", anunciou um recém-foragido da prisão, Jan-Erik Olsson, de 32 anos. "A festa", de fato, continou mais umas 131 horas, ou cinco dias e meio, quando Olsson tornou reféns quatro dos empregados do banco, numa sala de 11 por 47 pés de comprimento (=3,35x14,33m), até o fim da tarde do dia 28 de agosto.

Este assalto, na verdade, no mundo dos negócios, não teve qualquer importância; o que teve importância foi o que aconteceu depois. Prossegue Brusca dizendo que, "mais tarde, as entrevistas com os quatro reféns manifestaram resultados surpreendentes - resultados que foram confirmados em diversos outras "episódios com reféns" nos anos que se seguiram. Até mesmo os próprios reféns não conseguiram explicar como manifestavam uma estranha associação com seus captores, identificando-se com eles ao mesmo tempo que temiam aqueles que buscavam libertá-los de seu cativeiro. Em alguns casos, mais tarde testemunharam a favor ou levantaram dinheiro para a defesa legal de seus captores. A localização, na Suécia, do "Banco Sveriges" forneceu seu nome para esta aberração mental, de "A Síndrome de Estocolmo". Pelo fato de tal episódio ter-se dado na Suécia, mais precisamente em Estocolmo, a esta "aberração mental" deu-se o nome de "Síndrome de Estocolmo". E, como toda síndrome, reúne um conjunto de sinais e sintomas, que, fundamentalmente, são os seguintes:

" - Os cativos começam a identificar-se com seus captores. Em princípio, trata-se de um mecanismo de defesa, baseado na (geralmente inconsciente) idéia de que o captor não ferirá o cativo se ele for cooperativo e até mesmo positivamente encorajador. O cativo tenta conseguir o favor do captor por meios quase que infantis.

- O cativo geralmente acredita que a ação de seus possíveis libertadores provavelmente vai feri-lo, ao invés de conseguir sua libertação. As tentativas de salvamento podem transformar uma situação tolerável numa letal. Se as balas dos policiais não o acertarem, muito provavalmente as do captores provocados acertarão.

- Cativeiro longo gera até mesmo apegos mais fortes com os captores, na medida em que eles passam a ser vistos como seres humanos com seus próprios problemas e aspirações. Particularmente em situações ideológicas e políticas, cativeiros longos também tornam o cativo familiar com os pontos-de-vista de seus captores e com a história de suas queixas contra a autoridade. Ele pode chegar a acreditar que a posição do captor é justa.

- O cativo tenta distanciar-se emocionalmente da situação por meio da negação do que de fato está acontecendo. Ele fantasia que "é tudo um sonho", ou perde-se em excessivos períodos de sono, ou em desilusões de ser magicamente libertado. Ele pode tentar esquecer a situação dedicando-se a tarefas inútes mas que "preenchem o tempo". Dependendo do grau de sua identificação com o captor, ele pode negar que o captor esteja errado, admitindo que os possíveis libertadores e sua insistência em punir o captor são, na verdade, os responsáveis por sua situação.

- Se os captores são numerosos, os cativos podem identificar-se com alguns e não com outros. Eles podem perceber um conjunto de "bons garotos" e "maus garotos" no meio de seus captores. Os captores podem fazer uso de tais percepções para conseguir informação ou comportamento conveniente dos cativos a partir de quando os "bons garotos" obtenham confidências dos cativos e por meio da sutil ameaça de que os "bons garotos" não conseguirão impedir os "maus garotos" de agirem se os cativos não forem cooperativos.

- Os cativos podem responsabilizar alguns de seus captores e desculpar os outros. Dependendo de quem identifique como um ou outro, eles poderão acreditar que "seus líderes os forçaram a isto", ou, ao contrário, que "seus líderes não sabem as terríveis coisas que estão fazendo."

- Finalmente, tem-se observado que os captores também são influenciados pela interação das personalidades. Eles dificilmente são capazes de conservar sua crueldade caso mantenham contato com os cativos e passam a considerar que seus cativos também são seres humanos com problemas e aspirações. Em virtude disto, podem tentar isolar-se de seus cativos. Diga-se de passagem que nunca podem compartilhar suas limitações com seus cativos; nunca admitir, por exemplo, que os "explosivos" que brandem são feitos de borracha ao invés de dinamite!"

Ora, a atitude de inocentar o captor e condenar o salvador, é precisamente o que vai no cerne da "teologia da libertação": a propósito de defender a causa dos oprimidos, imerge o sagrado na política, cujo princípio exclusivo de ação é o poder de destruir (incomodar, ameaçar, prejudicar, etc., sendo apenas gradações da força de atuação deste poder). Mas esta inversão do conteúdo da religião trai a presença de uma condição de impotência, a qual gera medo: dentro da tradição religiosa, Satã, no fundo, vê-se na condição de total impotência, pois, não podendo lutar contra Deus (o qual, por definição, não tem oposto, caso contrário não seria Deus), dirige suas armas contra o Homem, numa atitude que faz lembrar a história do menino travesso que, tendo levado uma surra, descarrega sua raiva impotente contra o cãozinho da casa.

A inversão dos valores não é novidade - basta consultar algo assim como a "história das doenças" psicológicas e psiquiátricas para constatá-lo. O fato de ter-se tornado algo de tão franca aceitação e vir-se reproduzindo "espontaneamente" até nas bocas e penas de letrados, sugere que, antes, tratava-se de um "mal antropológico" que, no fim das contas, ficava circunscrito a alguns infelizes e, hoje, não, tornou-se um problema que afeta a maioria das pessoas (2).

Exemplo desta inversão é a adoção do termo "sedução" em lugar de "encanto", inversão que notei não na boca de algum "empresário" do sexo, mas no escrito de uma biógrafa de nada menos que Santa Teresa de Ávila (a primeira "doutora" da História). O livro, datado de 1959 (3), diz de Santa Teresa que ela "Era bela, mais do que bela - era a sedução em pessoa" [Grifo meu]. Claro, nem de longe quero dizer que a autora do livro padecesse de Síndrome de Estocolmo; claro que não. Acho que trata-se, aí, de um pequeno lapso, uma vez que "sedução" significa algo assim como "induzir, pelas costas, alguém a fazer algo contra sua vontade"; como a autora não se cansa de repetir a ausência de malícia de Teresa, entendo que o termo que mais se adequaria ao sentido de suas palavras seria "encanto", coisa esta que, acredito, ela concordaria comigo. Se no caso desta autora, tal "inversão" pode ser vista como um mero lapso, o que se viu com o passar dos anos é a apologia mesma do contrário (o feio é bonito, o ruim é bom, o errado é o certo...). De fato, a adoção do feio como bonito, eu mesmo a pratiquei, quando, na adolescência, a moda que surgiu (e à qual me ajustei voluntariamente, experiência única e exclusiva daquele período de minha vida) foi apresentada como coisa de mau gosto, como coisa que enfeiava quem a praticasse. Pratiquei-a e, com o tempo, acabei acostumando e deixei de julgá-la coisa feia - possuo as fotos daquela época e garanto: quem as olhe concordará comigo que, de fato, era coisa de gosto muitíssimo duvidoso, ainda que não se tratando de coisa horrenda como as atuais tatuagens e piercings (que, de resto, seriam aceitáveis caso possuíssem algum sentido humano superior, quer dizer, fossem o emblema da adesão voluntária a um valor para cuja sustentação se requeresse o melhor de quem os estampasse).

A época daquele fenômeno foi a mesma das drogas, do psicodelismo e toda a corte de experiências e práticas terríveis. Foi a época em que a TV passou a mostrar a toda e qualquer pessoa o que antes só era visto por especialistas; quando os shows de rock passaram a contar com performances grotescas e satanicamente ritualísticas (4), bem como a dar destaque a deformidades humanas, como Charles manson (que ordenava a seus discípulos matarem, da maneira a mais brutal e chocante possível, algum "rico" - na época, o assassinato da Sharon Tate, grávida, chocou a todos), por ora sendo dispensável ir desfiando o rosário de aberrações que passaram a ser mostradas, para grave prejuízo do público em geral, cuja maioria nunca poderia estar exposta a tais coisas sem sofrer graves danos psicológicos. Isto merece explicação. Vamos a ela, sendo que por meio de um exemplo.

Uma vez, no programa "Comando da Madrugada", do Goulart de Andrade, foi mostrado o "museu do crime" (não me lembro se o nome era este). Consegui assistir ao programa até o momento em que se começou a mostrar o "Crime da Mala": um homicida, após matar sua mulher, resolveu transportá-la numa mala, para o quê fez alguns cortes nas juntas do cadáver de modo a dobrá-lo todo. Quem fez, para o museu, a reprodução do cadáver, todo dobrado, era inegavelmente um artista. Porém - e aí está o "x" da questão - artista com traços vocacionais compatíveis com certa especialização médica (de legista, talvez). Digo isto porque o sujeito vocacionado a ofícios médicos é capaz de contemplar um corpo deformado o quanto esteja e, ao mesmo tempo, superpor-lhe, imaginativamente, sua figura restaurada. Assim, um sujeito com vocação para médico legista (ou para o ofício de detetive...numa palavra, para ofícios que presumem a visão do corpo humano deformado) poderia visitar, com proveito, aquele museu e compreender aspectos do psiquismo humano que o não-vocacionado nem suspeita existirem. No meu caso particular, caso insistisse em ver aquele programa até o fim, por certo que eu começaria a ficar deprimido e precisaria de algumas semanas para, à força de esforços contínuos, substituir a tristeza de ver estampado o resultado da ação de quem renunciou à condição humana pela atitude do cientista psicológico que, a partir da visão deste mesmo resultado, deduz o passo seguinte do criminoso. Mas há que se levar em conta que aquilo que me deprimiria algumas semanas teria a força de simplesmente "arrebentar" com o psiquismo da maioria do chamado público comum (uma vez que a vocação de que sou dotado não é completamente alheia à contemplação do mal puro sem necessidade de virar-lhe o rosto a partir do recurso de denominá-lo "doença" ou "psicopatologia"). Bem, o que aconteceu naquela época a que estava me referindo antes desse exemplo? Aconteceu de o imaginário do homem comum ser bombardeado com expressões do mal puro, da disformidade gratuita, com entrevistas com sujeitos que escapam a qualquer esquema psicopatológico de classificação, dando-se o que, na linguagem evangélica, denomina-se "escândalo", que pode ser entendido como a "contemplação direta do mal". (5)

Não é irrazoável, à vista de tudo isso, compreender por que o nazismo desperta tanto horror e o comunismo não, embora este tenha feito pelo menos o triplo das vítimas daquele - e em situação "de paz". É que quando o horror é muito grande, por uma questão de autodefesa do organismo biológico, dá-se a negação pura e simples do dado.

O fato é que, passando a ver o que antes só era vista por especialistas, o sujeito comum passou a ter de haver-se com coisas acima de suas possibilidades biológicas: não há treinamento, curso ou o que mais for, que possa criar no sujeito resistência nervosa para aquilo a que ele não é vocacionado. Pode ocorrer que, excepcionalmente, e por um certo período, ele consiga fazê-lo (por exemplo, alguém cuja visão do sangue seja coisa totalmente "escandalosa", pode resistir-lhe quando quem verte sangue é alguém a quem muito ama). Mas, tão logo não seja mais necessário haver-se com aquilo, insistir em expor-se é algo assim como empreender um suicídio psíquico. Isto provocaria, em quem o tentasse, a fatalidade de sucumbir, de cair, de "descer" para um nível ontológico inferior.

A Síndrome de Estocolmo, pois, é o início desta queda do homem num nível inferior de ser, é a atualização de uma possibilidade infernal, é sua submissão ao (com relação a Deus) primeiro impotente da história, Satã.

Conforme explica o padre Brusca, para que se dê tal "aberração mental", é preciso que o sujeito esteja numa condição de cativeiro, que ele se veja como refém de alguém ou de algo que o tomou e ameaça matá-lo por nenhuma razão concebível.

Todo ser humano, nestas condições, experimenta uma "regressão a estados infantis"; e é esta parte da frase, todo ser humano, que dá a chave que permite dizer tratar-se de algo antropológico e não simplesmente psicológico (assim como o impulso de matar: embora desencadeie-se por fatores de ordem psicológica, não é possível explicá-lo por razões puramente psicológicas) (6). Mas há algo que chama a atenção quanto à Síndrome de Estocolmo, o fato de ter como causa eficiente a condição de cativeiro. Isto quer dizer que é preciso que o "cativo" o seja não apenas física e psicologicamente, mas espiritualmente. E digo isto por causa de, pelo menos, uma gritante exceção: as "três crianças de Fátima", Lúcia, Jacinta e Francisco. Assim nos conta Lúcia, das três, a única sobrevivente:

"...Aproveitaram, então, a ocasião para nos meterem todos os sustos possíveis. No dia seguinte, ao passar por casa de meu tio, meu pai esperou alguns instantes por meu tio. Corri à cama da Jacinta, a dizer-lhe adeus. Na dúvida de nos tornarmos a ver, abracei-a. E a pobre criança, chorando, disse-me: "Se eles te matarem, dize-lhes que eu e mais o Francisco somos como tu, e que também queremos morrer. E vou já com o Francisco, para o poço, rezar muito por ti." Quando, à noitinha, voltei, corri ao poço, e lá estavam os dois, de joelhos, debruçados sobre a beira do poço, com a cabecinha entre as mãos, a chorar. Assim que me viram, ficaram surpreendidos:

- Tu vens aí?! Veio aqui tua irmã [Maria dos Anjos], buscar água, e disse-nos que já te tinham matado! Já rezamos e choramos tanto por ti!"(7)

Prossegue, agora tratando do "abandono dos pais":

Quando, depois de nos terem separado, voltaram a juntar-nos numa sala da cadeia, dizendo que dentro em pouco nos vinham buscar para nos fritar, a Jacinta afastou-se para junto duma janela, que dava para a feira do gado. Julguei, a princípio, que se estaria a distrair com as vistas, mas não tardei a reconhecer que chorava. Fui buscá-la para junto de mim, e perguntei-lhe porque chorava:

- Porque, - respondeu - vamos morrer sem tornar a ver nem os nossos pais, nem as nossas mães! E com as lágrimas a correr-lhe pelas faces:

- Eu queria sequer ver a minha mãe!

- Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão dos pecadores?!

- Quero, quero. E, com as lágrimas a banhar-lhe as faces, as mãos e os olhos levantados ao Céu, faz o oferecimento: "Ó meu Jesus! É por Vosso amor, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria!" Os presos, que presenciaram esta cena quiseram consolar-nos:

- Mas vocês, - diziam eles -, digam ao Sr. Administrador lá esse segredo! Que lhes importa que essa Senhora não queira?!

- Isso, não! respondeu a Jacinta, com vivacicade: - Antes quero morrer."(8)

"Entretanto, amanhecia o dia treze de agosto. O povo chegava de todos os sítios, desde a véspera. Todos queriam ver-nos, interrogar-nos e fazer-nos os seus pedidos, para que os transmitíssemos à Santíssima Virgem. Éramos, nas mãos daquela gente, como uma bola nas mãos da rapaziada. Cada um nos puxava para seu lado e nos perguntava a sua coisa, sem dar-nos tempo de responder a ninguém. Em meio desta lida, aparece uma ordem do Sr. Administrador, para ir a casa de minha tia, que lá me esperava. Meu pai é o intimado e lá me foi levar. Quando cheguei, estava ele num quarto com meus primos. Aí nos interrogou e fez novas tentativas para nos obrigar a revelar o segredo e a prometer que não voltaríamos à Cova da Iria. Como nada conseguiu, deu ordem a meu pai e meu tio para nos levar a casa do Senhor Prior.

"(...)Como já disse..., o que nesta altura me foi mais sensível e que mais me fez sofrer, assim como a meus primos, foi o abandono completo da família..."(9)


Na ocasião destes acontecimentos, que se deram em agosto de 1917, Lúcia (22 de março de 1907) estava com 10 anos; Francisco (11 de junho de 1908), com 9 anos e Jacinta (11 de março de 1910), 7 anos. Nenhuma das três crianças "afinou", quer dizer, saiu de lá dizendo lindezas e belezuras dos seus captores - nenhuma foi afetada pela "Síndrome de Estocolmo".

E nem precisa muita imaginação para imaginar a situação de terror, de "asfixia", que, seria de se esperar, teria a força de vitimar os cativos com a Síndrome de Estocolmo. Hoje em dia, qualquer astro, adulto ou mirim, é cercado por um batalhão de guardas-costas que impedem a aproximação da multidão, que cria um "corredor" para que, rapidamente, entrem no espaço seguro da limusine e coisas do gênero. Não havia nada disso naquela ocasião nem naquele lugar, de modo que é perfeitamente admissível que, tanto a situação de "bolas nas mãos da rapaziada", como a de ameaçados de serem fritados (expressão de valor literal para as crianças), configura, tecnicamente, a situação de cativeiro, a qual desencadeia a "inversão psicológica de valores", definição mesma da Síndrome de Estocolmo. Mas - e aí está o espantoso - as crianças de Fátima não padeceram de tal Síndrome, continuaram enxergando as coisas com a mesma correção de perspectiva de antes!

Creio que este simples exemplo dá base para concluir que a situação de cativeiro é condição, sim, para o padecimento de tal Síndrome; mas tal coisa não se dá se o sujeito, ainda que estando em situação de cativeiro física, tem como dado firme algo que ele intelige como acima dos limites da contingência na qual se encontra. Ora, o que está acima dos limites da contingência, é o que cai sob o âmbito da Metafísica, cujos entes não têm como ser verificados senão pela inteligência. Porém, não é qualquer ente metafísico que parece bastar para isto mas, sim, o mais especial de todos, que a Filosofia denomina Ser Supremo e a Teologia, Deus. É, pois, a crença firme em Deus que se afigura como o antídoto ao "mal do século", que é a Síndrome de Estocolmo.

Estando correta esta hipótese, fico cara-a-cara com um dado, por um lado, tranqüilizador e que permite, ainda que apenas em parte, a compreensão do que levava os mártires cristãos a irem para a arena dos leões cantando, bem como um pouco das razões que levaram a Igreja a um suspeitíssimo silêncio a respeito dos mártires cristãos deste século, vitimados pelos regimes comunistas. Mas esta mesma hipótese desperta também inquietação: é que empresários (como se viu no caso do Sr. Abílio Diniz), garotas, rapazes, homens teoricamente preparados, padeceram desta inversão psicológica, saindo de seus cativeiros fazendo a defesa dos seqüestradores e de seus motivos e falando mal da "sociedade injusta"; mas não foi coisa que se viu acontecer apenas com essas pessoas "comuns", sem qualquer preparo para situações extremas, mas também ela foi vista, por exemplo, no episódio "Pareja" que, tendo ameaçado de morte, em público, sob câmeras de TV, um juiz direito, fazendo-o chorar e pedir "pelo amor de Deus façam o que ele está pedindo!", desencadeou tanto nele quanto em seu filho a mesma Síndrome (pois tal filho passou a ir regularmente à delegacia levar alimentos para o Pareja) e o juiz passou a empenhar-se em corrigir as "injustiças que se cometem contra os apenados", por fim demitindo-se do cargo. Na ocasião, a revista Veja fez um número dedicado ao mesmo meliante, abstraindo, claro, o fato de ele ser um bandido perigoso cuja vida criminosa começou com o seqüestro de uma garota de uns treze anos (se não me engano quanto à idade da jovem, a qual - afetada, por certoda, da Síndrome de Estocolmo - declarou-se apaixonada por ele); mas o mesmo se deu com um arcebispo que, sob ameaça de ser morto por um chefe do Comando Vermelho de Recife, também fez uso de sua autoridade clerical para defender a lisura do procedimento do seqüestrador. Após este episódio, um repórter perguntou ao arcebispo: "O seu seqüestrador, que manteve uma faca junto a sua jugular, disse que o mataria caso suas reivindicações não fossem atendidas. O que o senhor acha disso?" e ele respondeu que o seqüestrador era vítima de uma sociedade injusta e que, no fim, estava apenas fazendo seu protesto contra tais injustiças..." (claro que, aí, altero as palavras, mas o sentido delas está correto). E nem precisa fazer grande esforço para perceber que, há anos, toda a mídia nada mais faz do que lançar suspeitas sobre a polícia e propor benevolência com os bandidos.

Ora, quando os dois símbolos máximos do governo do mundo manifestam vulnerabilidade a tal Síndrome - o arcebispo, a autoridade espiritual, o juiz, o poder temporal - a situação é, a meu ver, realmente inquietante. No primeiro caso, no do arcebispo, porque me faz ter por razoável a hipótese de que a atual (e nominal) classe sacerdotal (a qual não é casta sacerdotal) não crê em Deus, em nome de quem fala, por força de ofício e da autoridade que representa e a partir da qual vive, pois seu sustento material advém da Igreja; no segundo, do juiz, porque ou não possui ou então porque lhe foi retirado o poder de acionar armas capazes de por os parejas da vida em seu lugar. Numa palavra, o sacerdócio e os homens de armas estão enfraquecidos e à mercê dos bandidos, restando como salvaguarda para os demais apenas a crença no que se vai sendo despojado de expressão exterior, material, que é a crença em Deus.

É aí que parece encaixar-se o fato da eliminação progressiva, em caráter mundial, dos cultos oficiais a Deus, sob quaisquer de suas formas e, em seu lugar, ir sendo introduzido uma religiosidade pagã, a qual vai se introduzindo na alma dos indivíduos a partir da linguagem. Por exemplo, a expressão "santuário ecológico". Ora, num "santuário ecológico" só há crocodilos, hienas, árvores; em resumo, só há fauna e flora e ausência de presença humana. E o que torna "santo" um lugar é justamente a presença humana, mas não de qualquer homem, mas aquele que, tendo sustentando heroicamente alguma virtude (teologal), fez jus ao título de "santo". Não vejo como chamar de "santuário" a algum lugar cheio de tatus, crocodilos, siriemas ou coisas parecidas.

A imersão de toda a população mundial na pura contingência, a partir do controle do imaginário - e a golpes de escândalos - , imerge-a numa condição que é em tudo análoga à da "festa" do bandido Jan-Erik Olsson, o Pareja de Estocolmo. Esta imersão destaca-se, assim, como a condição necessária para a eclosão da Síndrome de Estocolmo.

E o que é assustador nesta história é o fato de que os que se dediquem a tentar "libertar os cativos", já, de cara, serão vistos, pelos cativos, como os responsáveis pela sua situação de cativeiro. De modo que eu, que estou escrevendo essas coisas, já tenho que "ficar esperto".

Joel, 13-03-2001.

 

NOTAS:

(1) O sentido das minhas palavras, aí, pretendo que seja claro: a distinção entre Psicologia e Antropologia pode ser entendida em virtude de que o que caracteriza os fenômenos propriamente "psicológicos" é o fato de, necessariamente, ele não resultar, em todos os sujeitos, de uma mesma razão. Já o "antropológico" radica na natureza de todos os sujeitos, de modo que nenhum está imune ao que ele seja. Exemplo de fenômeno psicológico é o fetiche, que só é fetiche para quem o é; de traço antropológico, por exemplo, a paroxismalidade (acúmulo e descarga abrupta de energia), que está na raiz do impulso de matar. Um sujeito não pode deixar de ser paroxismal; caso pudesse, ele não poderia, nunca, adquirir qualquer hábito (o qual requer, para começar, um impulso inicial ou, noutros termos, capacidade para violentar-se ou para decidir-se). Sendo assim, o que se convencionou denominar "Síndrome de Estocolmo" é algo que, no homem, sempre existiu, mas só ficou evidente a partir de um determinado momento (do mesmo modo que a "Lei da Gravidade" sempre existiu, não obstante só ter sido formulada numa data precisa). Como a inversão que a "Síndrome de Estocolmo" é, é algo que se verifica em escala mundial, creio poder ver nisto o fato da inquietante ruptura da humanidade com o reino do Espírito, ao que parece, numa escala sem precedente histórico (caso não fosse assim, o fenômeno dos mártires cristãos, que, na arena dos leões, cantavam; apedrejados, perdoavam seus apedrejadores...não teria sido possível).

(2) O que enfatiza o conteúdo da nota acima, dando a crer que uma "nova religião" vai substituindo toda e qualquer autêntica religião, fazendo lembrar a imagem apocalíptica da Igreja, a de uma mulher acuada que se refugia no deserto (ou, no plano do psiquismo humano, a total e completa interiorização da religião, agora carente de manifestação exterior).

(3) MARCELLE AUCLAIR, Santa Teresa de Ávila, a Dama Errante de Deus, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1959, pg. 26.

(4) Do que hoje sobrou um pálido reflexo nos clipes e shows de Michael Jackson. É impossível não ver aí algo dessa inversão satânica: um orgulho mórbido em encarnar a figura de lobisomem, o fato de dar a entender que, como homem, é gratuitamente destrutivo, só melhorando quando se torna animal (como na cena de um de seus clipes quando, depois de destruir um carro - ou "a indústria ou inteligência humana" - acalma-se justamente quando se torna uma pantera; ou mesmo na imagem de seu CD/show "Dangerous": em lugar do rosto de Nossa Senhora, o rosto de uma macaca; em lugar da face de anjos, rostos de animais...

(5) Na mitologia grega, há a Medusa, imagem do mal puro, que petrifica ("escandaliza", no cristianismo) quem a olhe de frente; no judaísmo, a mesma condição, de "petrificação" ou de "escândalo" se dá com a mulher de Ló, que, alertada pelo anjo destruidor de Sodoma e Gomorra, para não fazê-lo, mesmo assim "olha pra trás" e converte-se, no ato, numa "estátua de sal".

(6) Lipot Szondi, criador da Psicogenética, diz que o impulso de matar está na raiz mesma da constituição humana; e que a vida humana é um esforço contínuo para vencer tal impulso. E fundamenta sua tese não apenas na tradição bíblica (o primeiro crime que se lê no Gênese é o de sangue, Caim matando Abel), mas também numa casuística obediente às rigorosas exigências do método científico.

(7) IRMÃ LÚCIA, O Segredo de Fátima, ed. Loyola, 1974, p. 19.

(8) Idem, p. 20.

(9) Idem, ibidem, p. 60.


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