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Fernandinho Beira-Mar, um reles sociopata,
ou: "Os Direitos Humanos à Violência do Suicídio à
Beira-Mar"
Num dos artigos que escrevi, destaquei o fato de que a exposição de toda e qualquer pessoa a dados que deveriam ser de intuição apenas para indivíduos qualificados, tem efeitos devastadores. Citei como exemplo certa reportagem exibida pelo jornalista "Goulart de Andrade", na qual exibiu o "museu da polícia". "Ver tal reportagem causou-me profunda tristeza", creio ter escrito em tal artigo. Se não o escrevi, não haveria mal que o fizesse.
O que quase me fez sentir a mesma coisa foi a entrevista com o "convidado" Fernandinho Beira-Mar na CPI dos Direitos Humanos e da Violência, exibido pela TV Senado no dia 15/05/2001. Digo "quase" porque, se não tenho em meu sangue nenhum traço de vocação médica, tenho, porém, com alguma abundância, a da vocação à psicologia. De modo que rapidamente venci o "escândalo" que ia brotando em minha alma ao ver o deprimente espetáculo de presenciar os "representantes da sociedade" (deputados) chamarem de "senhor" e tratarem com respeito, ainda que fingido, um reles sociopata. O que houve de lamentável, a meu ver, foi a ausência de, dentre tais "representantes", alguém dotado do hábito de discernir elementares artimanhas retóricas autodefensivas de um reles criminoso, só tido e chamado de inteligente porque foi comparado com seus interrogadores (por eles próprios). Era visível que o ponto-fraco do sociopata era o de todo e qualquer sociopata: a incapacidade congênita de olhar para si mesmo.
Todo sociopata tem como característica fundamental o fato de ser total
e completamente insensível à dor alheia, que ele provoca, e sensibilíssimo
à própria dor (1). Sempre que
havia alguma referência à sua (do Beira-Mar) família, ele
perdia sua condição de "controlador dos deputados" para
a de "vítima ferida e furiosa", caso o deixassem dar curso
à sua "indignação com a injustiça cometida
contra seus familiares". Bastaria insistir neste ponto, fazê-lo lembrar-se
das conseqüências de seus atos para seus familiares, pô-lo
na condição de quem tenta demonstrar a brutalidade da "sociedade
insensível", que ele ficaria exposto em toda a sua monstruosidade
(não há outro termo que defina os resultados de sua atividade
de traficante poderoso). Mas não. Os deputados, no fim da entrevista,
apenas fizeram um mea culpa, mostrando-se envergonhados de não terem
"conseguido nada, nenhuma informação relevante do traficante",
ao mesmo tempo que reconheciam "sua grande inteligência". E
não seria difícil parecer inteligente no meio daqueles deputados,
uma vez que até deputado petista tentou sensibilizá-lo invocando
suas palavras, quando disse que "tinha Deus no coração"
para, lembrando-o disso, fazê-lo comover-se e "contribuir com a sociedade
dizendo o que sabia, ainda que não 'cagüetando' (sic) ninguém",
como seria dever fazer todo aquele que "tem Deus no coração"
- no que o deputado, petista e por isso mesmo ateu, mostrou-se como pessoa ridícula,
que não tem a medida do razoável. Até o bundista
do Gabeira sentiu-se à vontade para, não sem deixar de declarar
seu apoio à legalização das drogas (e mesmo depois de Beira-Mar
ter dito que não usava qualquer tipo de droga porque ela, a droga, efetivamente,
faz mal e destrói quem a usa e ele não é burro), criticou
a iniciativa dos deputados em entrevistar tal convidado por acreditar que, frente
às câmaras de TV, ele não diria nada de relevante. Ele confundiu,
aí, dizer com mostrar. O importante, acho que qualquer um sabe disso,
não seria que ele dissesse o que quer que fosse, mas que se mostrasse
como o monstro que é - para tanto, bastaria "apertar a tecla"
correspondente e capaz de descontrolar qualquer sociopata: o seu calo, quer
dizer, onde lhe doa mais, ou seja, tocar no ponto que nenhum deles resiste,
que é justamente no efeito de suas ações sobre ele ou
sobre quem ele de fato gosta. Se não for para fazer isto, de modo
que o descontrole do malfeitor o mostre em toda sua monstruosidade, em virtude
do quê algum jovem que o esteja vendo não queira imitá-lo,
não sei para que serve conceder horas e horas de transmissão,
via TV, para o país inteiro, da imagem de algum sociopata. No fim das
contas, ele acabou posando de inteligente e dando "um banho" nos deputados,
só porque, ainda que um ou outro pudesse ser pessoa sincera, não
é nem vocacionado nem apto ao cargo, além de completamente ignorante
da "arte de descontrolar sociopata para fazê-lo enforcar-se com a
própria língua e sujar-se com o próprio excremento".
Pensando nessas coisas, acabei achando que valeria a pena explicitar alguns
dos fundamentos teóricos nos quais me baseei para dizer o que disse naquele
artigo e neste.
Parto da seguinte questão: por que ver o que não é conatural com a própria natureza gera tristeza? Respondo que isto é assim porque, primeiro, surge na alma a tristeza, depois o desprezo e, no fim, o ódio; e a ordem é esta em virtude das "operações da alma", cujo esquema é o seguinte:
Segundo Aristóteles (seguido e aprofundado por Santo Tomás de Aquino), há três classes de seres vivos: os vegetais, os animais e os homens. Como a vida mesma de cada ser é denominada alma, a cada classe de ser vivo corresponde um tipo ou nível de alma. Aos vegetais corresponde um tipo de vida ou de alma, dita vegetativa, a qual responde pela nutrição, crescimento e reprodução; aos animais, a alma (ou tipo de vida) responde pelo todo da vida vegetativa (nutrição, crescimento e reprodução) e por algo que está fora e acima da vida vegetativa, que é o chamado apetite sensível, causa dos deslocamentos do animal (entendendo-se que a capacidade deslocativa do animal resulta do fato de ele desejar algo que está ou pode estar em locais diferentes de onde ele, ou parte dele, se encontra; para isto fazer, é necessário que o animal possua memória e imaginação, ainda que tal atributo varie em amplitude e intensidade de espécie a espécie. Chama-se a este tipo de alma, alma volitiva); finalmente, há os homens, cuja alma responde pelo que é todo no vegetal e no animal e, também, por algo acima e além do que é próprio ao animal, que é o apetite intelectual, o que só pode existir numa criatura dotada de intelecto autônomo, ou seja, numa criatura dotada de discurso autoconsciente (chama-se à alma humana de alma intelectiva).
Estes três tipos de alma, ou de vida, são ditos completamente irracionais (é o caso da alma vegetativa), racional por participação (a parte animal da alma volitiva, a qual é o todo da alma animal) e essencialmente racional (que constitui, na verdade, a diferença específica do homem com relação aos demais seres vivos).
Como o ser mais elevado na escala de perfeição possui os atributos dos de menor perfeição mais algum atributo que este não possui, a alma humana possui todos os atributos das que lhe vêm abaixo, que vão do que é completamente irracional, passando pelo que é racional por participação e chegando ao que é essencialmente racional.
A parte completamente irracional responde pelas atividades apropriativas (o
estrato denominado concupiscível) e pelas atividades defensivas (denominado
irascível) do organismo. O que se visualiza melhor a partir do esquema
abaixo:

O que nos interessa aqui (que é tratar de alguns aspectos da entrevista
com o Beira-Mar) resume-se às atividades (ou virtudes) próprias
de cada um desses estratos anímicos do homem. De baixo para cima, do
concupiscível ao intelectivo, temos paixões que
são próprias de cada um. As paixões do concupiscível
são o amor, o desejo e a deleitação,
cujos contrários são o ódio, a aversão
e a tristeza. O amor é a conaturalidade entre o amante
e o amado; o desejo, o movimento do amante para o amado; o deleite,
a quietude do amante no amado.
As paixões do irascível são aquelas que exigem algum
esforço por parte do sujeito, por exemplo, esforço muscular. É
o caso da ira (ou raiva), do temor e outras com estas conexas ou análogas,
menos "passivas" que as anteriores.(2)
As paixões da vontade são ou a justiça (definida como "igualdade das ações que se dirigem a outro homem") ou as que dela derivam. As do intelecto, as que preceituam, como a prudência, que pode ser entendida como o reto conduzir da ação própria de cada estrato da alma.
Dito isto, dá para voltar ao Fernandinho Beira-Mar.
O primeiro que, em condições normais, se manifestaria, tendo-se manietado um sociopata responsável por incontáveis mortes e destroçamento de inúmeras famílias, além da corrupção de inúmeros detentores de poder (econômico ou armado), seria alguma paixão própria da parte irracional da alma, como ódio, aversão e tristeza. Tristeza por se estar vendo uma materialização de uma possibilidade humana completamente indesejada; aversão porque esta possibilidade indesejada declara-se "homem e, como tal, disposto a pagar sua 'dívida social' e que foi preso porque aplicaram-lhe um 'forjado'(3), causa de sua 'ficha-suja' na polícia; ódio porque é lícito amar o que é para amar e odiar o que é para odiar e uma perversão moral tal como a manifestada por tal sociopata é coisa odiosa. Como a parte irracional da alma é responsável pelo instinto de autopreservação(4), que se pode resumir na fórmula buscar o prazer (concupiscível) e fugir do nocivo (irascível), fórmula essa que resume toda a psicanálise(5), as regras a que os deputados estavam obrigados, que os obrigava a ter de tratar por "senhor" ao convidado, é um atentado contra a autopreservatividade humana, coisa esta que ficou nítida no mea culpa final dos deputados por não terem conseguido "extrair nada de significativo de entrevista com tão longa duração".
Onde estava o cerne do problema que teve como resultado o mea culpa suicida dos deputados (em termos de reputação, caso ainda possuam alguma) dos deputados? No fato de, fosse por qual razão fosse, estarem impedidos de dar livre curso ao que seria próprio dos demais estratos da alma, que vão do irascível ao intelectivo.
O irascível responde pela capacidade do organismo para "atacar o que lhe seja nocivo". A ira, que é sua paixão própria, convém ao bem do organismo, porque o defende do mal que desde fora pode ferí-lo de morte. Na medida em que ela não podia se manifestar (inclusive sob sua forma psicológica, a qual se dá pelo destempero linguístico), permitiu ao trânsfuga moral (se assim posso me exprimir) não ser atacado firmemente naquilo que tinha de odioso. Pelo contrário, era o tempo todo tratado de "senhor" ou por algum outro delicado eufemismo (ou então pelo seu nome constante do registro legal - "Luiz Fernando", ou "Luiz Fernando da Costa"... -, principalmente pelos deputados mais velhos (refiro-me à idade de alguns possuidores de mandato e não ao tempo de mandato do deputado). Ora, tratar de "senhor" ou de "sr. Luiz Fernando" quem é responsável pela ameaça cotidiana a nossos filhos(6) é agir como quem "ama o que se deve odiar". Adequado seria tratá-lo como "Ô, Beira-Mar!"
Mas não se restringe apenas (apenas?) ao plano da psicologia individual, ou da moral, este "amor ou benevolência com o odiável". Ele conduz à injustiça, pois tratando-se a justiça de uma "igualdade das ações que se dirigem a outro homem", esta "igualdade" não é de todo homem com todo homem, mas das características da ação com determinado homem em particular - a ação deve ser comproporcionada ao homem que a recebe. É como uma imitação, no plano da ação humana (que Weber definiu como "ação segundo fins"), do que se denomina "conaturalidade" entre algo e algo. Ora, já vimos que o amor, cuja análise permite verificar tratar-se de atividade de certo estrato não biológico da alma humana (daí ser dito, em linguagem religiosa, que é uma atividade sobrenatural da alma), estatui uma conaturalidade entre o amante e o amado. A justiça é algo assim como uma imitação disto que é próprio de uma das faculdades humanas superiores à natureza meramente biológica, na escala e no plano das ações humanas. Numa palavra, é a imitação, no plano da conduta, do funcionamento de uma faculdade sobrenatural.
Apenas a título de exemplo, pode-se patentear esta visível injustiça, coisa constante na relação dos deputados com o traficante, descrevendo um episódio. Por várias vezes, alguns deputados citaram dados de documentos que possuíam(7) que o incriminavam, com provas, em crimes de homicídio, compra de favores, falsificação de documentos e outras "coisitas más", que poderiam ser ditas "ações próprias do inverso da estrutura anímica de todo ser humano"(8). Sua reação, nesses momentos, era a de "cadê a prova? É tudo mentira", justamente porque ele sabia (talvez por ter sido instruído por seu advogado, que ficou a seu lado o tempo todo) que os deputados não poderiam "abrir o jogo" em virtude da formalidade(9) que presidia a entrevista. E tratava-se disto: de entrevista e não de interrogatório, pois ele lá estava na condição de convidado, não sendo obrigado a nada falar a respeito do que quer que fosse, caso nada quissesse falar. O presidente da reunião inclusive, no fim, agradeceu-o por ter aceitado o convite de ir lá responder perguntas, ainda que efetivamente nenhuma informação relevante tivesse fornecido (exceto, talvez, para pessoas como eu, carente completamente de vocação policial, que no máximo consegue ficar fazendo análises psicológicas, ainda que de sociopatas, as quais, por maiores que sejam seus méritos, de nada valem se comparadas ao dano evidente que é a exposição irresponsável de tipo assim dentro de esquemas formais tais que impedem que se o trate como ele deveria ser tratado: com toda dureza, rispidez e demais condutas que vão até antes de algum mau trato físico e tortura psicológica).
Por fim, reduzidos à completa impotência, pelo fato de terem sido objetos de risos e deboches do pelintra, os deputados cometeram o, a meu ver, maior de todos os erros, que foi o da imprudência. No momento em que foi dada, a alguns pelo menos, a liberdade para fazer um pronunciamento final, o que fizeram? Ao invés de usarem do tempo que dispunham para fazer uma descrição do grande mal proveniente das ações do traficante, acentuando, se possível, sua sordidez pelo fato de ele ser o responsável direto pela desgraça de seus familiares, a quem diz amar(10), fizeram apenas uma "autocrítica", um vergonhoso mea culpa. Como disse no início, a desgraça de seus familiares era um de seus pontos sensíveis que, uma vez insistentemente tocado, permitiria a quem estivesse assistindo (principalmente o público de pessoas não qualificadas, incapazes de atravessar o cipoal retórico e prenhe de alegações acusatórias retroprojetivas por parte do criminoso, que abundam nessas ocasiões), ver o que era para ser visto: o mal em toda sua hediondez. Ao contrário disso, a impressão final que ficou foi a de que os "dignos representantes da sociedade brasileira" foram derrotados, por inconsistência moral, ou por terem culpa no cartório (como todo e qualquer militante diria, caso não houvesse um "representante dele" lá, também fazendo papel menor) por um traficante, que ficou parecendo não ser pessoa tão má e perigosa assim. Claro, tudo lá parecia arranjado de modo que a "estrutura anímica de todo ser humano normal" ficasse toldada por uma camisa de força denominada "direitos humanos".
Joel, 16-05-2001.
NOTAS:
(1) Exemplo disto pode ser visto no filme "O Silêncio
dos Inocentes", através do personagem "Búfalo Bill",
cuja atividade exclusiva consistia em, literalmente, arrancar a pele de suas
vítimas para com ela fazer vestimenta que o fizesse parecer mulher. Fazia-o
com método e disciplina de costureira vocacionada, sem compadecer-se
o mais mínimo com os apelos e dores das vítimas. Quando, porém,
uma delas, a última e inocente vítima, conseguiu pegar sua tão
amada cadelinha, ele ficou transtornado de indignação à
vista da existência de alguém tão insensível a ponto
de ser capaz de fazer mal a tão inocente e frágil animal. Voltar
(2) Para uma mais fácil representação
do que é próprio do concupiscível e do irascível,
basta dizer que o ato de comer, beber e do sexo são próprios do
concupiscível e o ato de "atacar para defender-se" é
próprio do irascível. Voltar
(3) Fernandinho Beira-Mar alegou, sempre que pôde, nesta
entrevista (pois ele não estava lá na condição de
réu, mas de "convidado pela CPI"), que um certo policial de
MG forjou seu flagrante, atribuindo a ele a posse de algumas centenas de quilos
de cocaína, a qual transportava (ele se defendia desta acusação
dizendo que, como já havia "subido de nível" na organização
criminosa, não era mais seu papel transportar a "mercadoria",
sendo, portanto, tal acusação, falsa). Voltar
(4) Por definição, todo instinto é instinto
de autopreservação. Voltar
(5) O que, por si só, já permitiria situar a
psicanálise em seus verdadeiros limites de validade: como ela trata apenas
de parte do estrato irracional da alma - sua parte adoecida - ela é,
ipso facto, incapaz de bem se pronunciar a respeito do que respeite à
razão e, sim, só a respeito do que corrompe ou pode corromper
a razão. Voltar
(6) Meu filho, que estuda em escola de prestígio, já
presenciou colega seu transacionando droga na escola (provavelmente, tratava-se
de cocaína). Quem pôs a droga na mão deste garoto (de uns
15 ou 16 anos)? Algum servente de sociopata como este de quem estou falando.
Voltar
(7) Por exemplo, a deputada Laura Carneiro e o deputado Moroni
Torgan (ambos, parece, vêm investigando o meliante há anos. A deputada
com certeza). Voltar
(8) No sentido de que a cada estrato da alma corresponde uma
virtude principal e, em resultado, virtudes a elas conexas ou delas derivadas.
Como "a matéria da virtude é a mesma do vício",
há o vício (ou malícia, que é o oposto da virtude)
principal. Assim, sendo as principais virtudes a prudência (intelecto),
justiça (vontade), fortaleza (irascível) e temperança (concupiscível),
um sujeito que fosse algo assim como a encarnação do contrário
dessas virtudes seria o que estou denominando "o inverso da estrutura anímica
de todo ser humano". Voltar
(9) O nome desta reunião era "Audiência
Pública sobre o crime organizado", com direção e presidência
da Comissão Especial de Combate à Violência (cujo Presidente
é o deputado Marcos Gadelha) e da Comissão de Direitos Humanos
(dep. Nelson Pellegrino). Tratou-se, então, de "Reunião Conjunta
das Comissões de Direitos Humanos e de Combate à Violência".
O Beira-Mar era algo assim como um "artista convidado", que foi acompanhado
de seu advogado e era assistido por dois médicos. Como não é
de bom tom (e, também, o regulamento não permite), todos, parece,
estavam proibidos de dirigir-se a ele com palavras insultuosas, pois ele não
estava obrigado a responder ao que quer que fosse, conforme explicaram aqueles
presidentes no final do espetáculo. A imprudência (vício
correspondente ao extrato superior da alma), a meu ver, prevaleceu, a começar
pela formalização do encontro, que de cara já conferia
os mesmos "direitos humanos" ao sociopata que são moralmente
devidos, apenas, a indivíduos normais e pacíficos, quer dizer,
que agem como homem no sentido verdadeiro do termo (e não no sentido
que foi empregado pelo entrevistado e endossado pelos deputados: "Nasci
e vou morrer homem: por isso não 'cagüeto' os policiais, políticos
e empresários que comprei e que sempre facilitaram minha vida").
As provas "legais" - do que, inclusive, a deputada Laura Carneiro
possuía os documentos -, obtidas pela Polícia Federal, não
podiam ser citadas em toda sua extensão. Pelo menos foi o que a deputada
deu a entender. Voltar
(10) Sua mulher (ou amante ou namorada, não sei bem) está presa e, segundo entendi (não vi toda a entrevista, só a última hora e meia final), seu filho, criança ainda, padece condição nada invejável por estar privado do convívio com os pais. Ele, o meliante, acusava a alguns deputados e policiais de terem agido (e continuarem agindo) de maneira injusta, já que, sendo ele o único culpado, estarem penalizando sua inocente família. Claro que seu discurso traduz o inverso do real, pois a culpa da desgraça de sua família não são nem foram os deputados nem a polícia, mas ele mesmo, ao envolvê-los em seus negócios criminosos. Mesmo porque ele deu a entender que se tornou traficante apenas porque quis, por um ato de vontade livre e não por força de qualquer coação a que estivesse submetido. Inclusive, disse que sua vida era "de classe média", confortável. Abriu mão disso para "subir na vida", quer dizer, no crime (o que significou ser responsável pela morte de um incontável número de vítimas). Voltar