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Fernandinho Beira-Mar, um reles sociopata,
ou: "Os Direitos Humanos à Violência do Suicídio à
Beira-Mar" - parte II
No artigo Fernandinho Beira-Mar, um reles sociopata, ou: "Os Direitos Humanos à Violência do Suicídio à Beira-Mar", procurei mostrar os erros dos que se encarregaram de "varrer" as imundícies do país e, como se tem visto, têm conseguido resultados opostos aos declarados. Resultados estes que não procedem da inocência de seus espíritos, por certo, mas por artimanhas de estratégia gramsciana que os envolve a todos. E vale aqui o "pelo fruto se conhece a árvore", como no que vai a seguir.
O fruto da ação de Beira-Mar é o droga-adicto. Descrevendo-o, bem como referindo seu quadro patológico a um critério universal, ontológico, como é precisamente o caso das "partes da alma" segundo Aristóteles, completa-se a exposição das razões que embasaram tão severo julgamento que fiz, não apenas do criminoso como também de seus entrevistadores.
O fenômeno da droga-adicção é coisa por mim conhecida
desde idade muito nova, tanto que ainda hoje, ao retomar tal tema, recordo-me
dos "bêbados da rua" da cidade onde nasci, em particular de
um no qual parecia combinarem-se álcool com traços esquizóides(1),
que costumava vestir primeiro a calça e depois, por
cima, a cueca (esta geralmente de cor berrante). Mas a primeira vez que tratei
metodicamente do assunto foi quando prestei ajuda a uma amiga, fundadora de
uma clínica de recuperação de droga-adictos, a qual adota
a ergoterapia(2) como remédio.
Nesta clínica (como, de resto, em qualquer outra de droga-adictos), via-se
algo assim como a ante-sala do inferno: embora tudo lá fosse muito asseado
(asseio e tudo o mais cuidado pelos próprios internos), a impressão
que qualquer um tem, lá, é a de que eles, os internos, estão
sempre sujos. Por mais limpa e de bom gosto estético seja a roupa
que use, o droga-adicto parece estar sempre sujo. Na época em que lá
prestava ajuda, eu orientava, numa associação atlética,
equipes esportivas amadoras (hóquei, natação, basquete,
vôlei...) e a impressão era o contrário: mesmo depois dos
treinos, os atletas, suados e fedidos, não davam a mesma impressão
de sujeira (e não estou me referindo aos da natação).
Dentre os internos, havia de tudo, desde aqueles que lá estavam como último recurso para escaparem da prisão (caso de homicidas que, tendo praticado crime em condições de "inconsciência química", ao invés de serem aprisionados em cadeias, a justiça os encaminhava para tratamento - como um, novo ainda, que matou um velhinho usando um skate como instrumento de contundência), até outros que tinham tido poucas experiências com drogas, o suficiente apenas para requererem um afastamento temporário do convívio das pessoas normais.
Na grande maioria, talvez apenas uns três ou quatro por cento deles conseguiriam afastar-se definitivamente das drogas. O resto ficaria, no máximo, alguns anos afastados e, depois, voltaria ao inferno de onde saíram. Pois havia, em todos os casos (exceto num deles, justamente este que disse ter tido pouca experiência com drogas), o denominador comum do que denomino "avanço progressivo, que vai da ante-sala ao inferno propriamente dito". Assim, um droga-adicto, com 12 anos, começou a drogar-se aos 9: num jogo do Coríntians, foi ao estádio com alguns colegas e lá tomou cerveja pela primeira vez. Gostou. Continuou bebendo. "Enturmou-se" com alguns garotos mais velhos de seu bairro, já adictos. Fumou maconha. Passou à cocaina, depois ao crac, neste tendo permanecido por mais tempo, até que quase morreu. Temendo pela vida, encontrou apoio em sua mãe, que o internou em algumas clínicas até chegar àquela onde prestei ajuda. Pouco demorou lá. Não sei que fim levou ou se deu.
Havia um que era de família de classe média. Começou a drogar-se quando passou a "ganhar um bom dinheiro", como disse. Era um rapaz com aparência bem ao gosto das garotas. Era o que hoje as pin-ups denominariam um "rapaz sarado". Era vendedor numa prestigiada loja de um dos maiores shopings de SP, dotado de dom para a linguagem. Muito cedo foi tendo êxito na vida, rapidamente conseguindo obter condição sócio-econômica capaz de dispensar seus pais de cuidados materiais com ele. Começou pela maconha (aquela mesma que o bundista Gabeira insiste em requerer legalização) e foi "aprofundando o lance" até chegar a ficar uns três ou quatro dias "cagado, vomitado e mijado" em algum cortiço de favela da periferia de SP. A seu ver, nenhuma conduta autodegradante seria recusada caso o preço fosse adquirir "algumas graminhas" de droga. Nenhuma parte de seu corpo ou de sua alma estava livre ou livrou-se de conspurcação. No seu caso, estava ausente apenas o crime de sangue.
A única - exclusivamente a única - esperança manifestamente real para cada um dos internos era que se convertesse à crença em Deus (sem muitas exigências quanto à sua definição) e concordasse em trabalhar. Humilhar-se, chorar, pedir perdão aos pais e aos "irmãos", tudo isso, embora coisa difícil de ser feita pelas pessoas comums, eram humilhações nada comparáveis ao que já tinham feito por algumas gramas de droga. A meta de cada um é "ficar limpo só por agora" e, progressivamente, ir cumprindo as etapas dos "12 passos"(3).
Eu poderia continuar relatando vários casos que, conhecidos, comovem até a última fibra da alma. Mas não precisa. O que já relatei é o suficiente para expor o que, a meu ver, parece ser o efeito da droga-adicção na estrutura cognitiva do ser humano. Pois notei um ponto comum entre todos os casos de droga-adicção: o fato de todas as faculdades cognitivas do droga-adicto funcionarem, em alguns casos até adequadamente (e as que não, poderiam ser levadas a bem funcionar graças à pedagogia dos "12 passos"), com exceção de uma delas: a vontade. O que me levou a ter como hipótese central a tese de que o que a droga retira do sujeito é o substrato material sobre o qual a vontade se sustenta!
A afirmação acima requer explicações que, talvez, se alonguem um pouco mas que, acredito, vale a pena serem conhecidas.
No exame de qualquer atividade humana, no homem normal, vê-se manifestar o que Maurice Pradines denomina "a gênese recíproca das faculdades cognitivas", quer dizer, quando alguma parte da inteligência atua, ela se modifica e também se modificam as demais faculdades. Há uma "retroação" de todas as faculdades sobre todas. De modo que a intuição de algum sentimento, ainda que passageiro, altera não apenas a intuição mesma, como a faculdade responsável pela aptidão a sentir, como também a imaginação, a reatividade, a vontade, o pensamento e a razão. O que é perfeitamente conforme com a explicação de Santo Tomás de Aquino, que esclarece que "a inteligência é um todo potestativo": onde atua uma parte, as demais também estão atuantes, ainda que virtualizadas.
Estas considerações acima não conflitam com o ordenamento
das faculdades cognitivas em três estratos diferentes (pois Pradines refere-se
a como se dá realmente a coisa e isto que vou agora explicar é
um esquema apto à compreensão de quais são e como funcionam
as faculdades cognitivas), que são a afetividade, a vontade
e a inteligência, não obstante todos esses estratos constituírem
a inteligência.
A afetividade possui como pólos extremos o sentimento e a imaginação/memória;
a vontade, a reatividade e a vontade propriamente dita; a inteligência,
a intuição e a razão.
Esses pólos são aspectos de uma mesma potência, referida por cada um daqueles três termos, do mesmo modo que os três termos perfazem uma unidade à qual chamamos inteligência, a qual pode ser definida como a aptidão para conhecer.
Num ser humano normal, a hierarquia desses estratos é (do superior ao
inferior) inteligência, vontade, afetividade; tudo em perfeita conformidade
com o esquema apresentado no artigo anterior, onde uma parte da alma é
essencialmente racional, outra, racional por participação
e, a mais biológica de todas, irracional.
Espera-se que o ser humano seja sensível ao real que o cerca, possa agir em conformidade com a valorização que faz do real e que intelija o real de maneira suficientemente adequada para que, em virtude de uma instantânea apreciação de si e do outro, renuncie às preferências pessoais em benefício das do outro ou vice-versa, tudo de maneira suficientemente racional ou, noutras palavras, tudo de maneira muito humana.
Quando, por algum motivo, rompem-se os nexos razoáveis que presidem àquela hierarquia, surge em seu lugar uma atrofia que dá expressão a uma realidade pela qual, no dizer de Maurice Pradines, o psiquismo não passou durante o processo de sua constituição. É o que se dá no caso da loucura: ela instala uma realidade que não apenas não era nem foi alguma condição passada do psiquismo do sujeito e nem percorre, de maneira inversa, o caminho das conquistas havidas no psiquismo do sujeito. Loucura, portanto, não é o mesmo que o inverso da sanidade; é uma outra coisa; trata-se, na verdade, de uma queda num nível ontológico inferior, nas palavras de Olavo de Carvalho.
Para passar do puro enunciado conceitual para algo mais compreensível
para quem seja leigo nesta matéria, digo que a queda num nível
ontológico inferior pode ser entendida como o fato de o sujeito deixar
de agir como homem e passar a agir como algo que também não é
bicho. Por exemplo, digamos que eu fosse alguém que tivesse caído
num nível ontológico inferior (ao humano). Eu perderia, em primeiro
lugar, o que convenientemente se pode denominar "pudor", ficando em
mim ausente, ipso facto, a noção de "vida íntima"
e passaria a ter a "naturalidade de um cão": com vontade de
defecar, defeco; de urinar, urino; de copular, copulo, com uma "naturalidade
canina", que tudo isto faz em qualquer lugar, insensível a olhares
humanos ou animais. Um cão agir assim, sem qualquer constrangimento,
é coisa normalíssima. O homem, não, pois o homem é
sensível ao que o cão não é: todos os cães
apetecem fundamentalmente a mesma coisa, de modo que conhecer um é praticamente
conhecer todos. O homem, porém, é sensível ao olhar alheio
(ainda que de um animal); é frustrável quanto a qualquer conhecimento
que tenha por fim conhecê-lo de maneira definitiva. Por mais que se conheça
alguém ou muitas pessoas, não é possível chegar-se
a um ponto de se poder dizer "já conheço todo e qualquer
homem pois conheço alguns e muitos". Sendo o homem irrepetível,
e possuindo uma parte íntima, interior, só conhecível por
si e por Deus, é natural que uma série de coisas que, embora constituindo
um traço da espécie (necessidade de comer, beber, e de sexo e
demais coisas), a maneira de satisfazê-las não é de maneira
alguma unívoca com a de outro. Caso o fosse, não seria rara a
felicidade conjugal, por exemplo.
Mas até aqui, a coisa se dá dentro ainda de um plano biológico, ainda que não humano, mas pelo menos canino. Descendo um pouco mais - o que não é de espantar, pois no inferno sempre há mais um buraco onde cair - o "nível ontológico inferior" não é mais "canino" ou puramente "animal", mas anti-biológico, ou "preterhumano", onde as leis que presidem não são mais as mesmas da biologia. Dá-se, aqui, o caso de uma verdadeira queda num nível ontológico inferior, agora não mais inferior ao humano, mas que tem existência paralela e antagônica à dos seres vivos, o homem aí incluído. Nesta condição, é ainda notável a presença da mesma estrutura básica cognitiva, tal como existe em todo ser humano; só que ela atua num plano que nenhum ser humano são intui (ou, o que é o mesmo, percebe). A inteligência, aí, continua funcionando perfeitamente, porém, com inversão daquilo que seria sua atividade normal. A inteligência é substituída pelo máximo alcançável pela inteligência animal, que é a astúcia.
Ora, considerando o esquema da inteligência natural(4), o "produto" do estrato relativo ao intelecto é a perfeita condução razoável de toda e qualquer parte da alma, a que se dá o nome de virtude da prudência. Esta é uma possibilidade só realizável pelo homem. O máximo a que um animal pode chegar é à astúcia, que pode ser entendida como o requinte máximo daquela parte da vontade que se chama reatividade. O animal astuto é o "mais apto a sobreviver", pois ele "antecipa" os perigos e deles foge, bem como "antecipa" os passos da presa e a alcança(5). Há filmes onde se vê um animal com "inteligência quase humana", predador exímio, onde fica visível que não se trata de algum "animal" no sentido biológico do termo mas, sim, de um ser dotado de inteligência racional de nível humano, apenas tal inteligência estando a serviço do êxito de uma criatura cujo esquema total resume-se na fórmula caçador-presa. Dentro deste esquema, vale mais a astúcia, quer dizer, uma refinada reatividade(6).
O que é notável no droga-adicto é o fato de toda sua inteligência estar a serviço da astúcia. Por isso, consegue dilapidar todo o patrimônio a custo conseguido por seus pais, ao longo de toda uma vida, justamente porque sabe, por instinto, que, primeiro, o suspeito será a empregada, depois o vizinho, e só em último e extremo caso, ele. Todo o esforço terapêutico, baseado nos "12 passos" e no "amor exigente", tem por fim levá-lo a vencer o "impulso para agir de maneira astuta", a "deixar de vender sua mãe", como é costume do cafetão fazer com as mulheres que o servem.
Como seria longo prosseguir na descrição da esquemática da inteligência e de sua inversão a um plano "preternatural", e o que disse creio já ser o suficiente para se poder fazer uma idéia razoável de como é isto, retorno ao droga-adicto.
O que ocorre com o droga-adicto é uma eliminação da sua capacidade humana fundamental, que é a de interromper este (auto) direcionamento da inteligência no sentido de atualização de uma condição ontológica subanimal ou, mais propriamente, preternatural. Todas as informações que sua mente assimila só são tidas como coisa real (quer dizer, só o sensibilizam) se elas puderem funcionar como instrumento capaz de informá-lo dos meios de obter êxito em sua intenção de adquirir um pouquinho mais de droga. Os "bem-intencionados" querem esse pouquinho a mais de droga "pela última vez". Provoca-lhe angústia insuportável a abstenção da droga(7). E, para conseguí-la, "vendem pai e mãe e não há autodegradação inaceitável que não pratiquem".
O processo de recuperação do droga-adicto (que, na verdade, funciona de maneira mais permanente num número bem pequeno de casos, segundo me parece) nada mais é que uma tentativa de fazê-lo rebaixar sua atividade imaginativa em proveito da ação concreta, como é critério no ser humano normal. Pois a droga-adicção retira dele a necessária distinção entre o desejo e a vontade.
A vontade é faculdade cognitiva que só se faz presente na ação concreta do sujeito; em caso de não-atuação concreta, converte-se em desejo, de modo que quem muito deseja é porque pouco faz. O desejo é função da imaginação, cuja finalidade é prover o conforto biológico (uma criança, dormindo, urina tranqüilamente na cama, ao contrário do adulto, porque não atingiu ainda a condição de privar-se do prazer e admitir alguma dor. Ela sonha que está no banheiro, como meu filho me disse, quando tinha uns seis anos: ''Pai, eu tinha certeza que estava no banheiro!..."). Assim, um droga-adicto agiria do seguinte modo: digamos que ele obtivesse informação de que certo conhecido seu estivesse em minha casa. Ele tocaria a campanhia, eu o atenderia e, ao perguntar-me pelo seu conhecido, eu diria: "'Não, não está aqui!", com isto dizendo a verdade. Em sua mente, ele interpretaria assim a situação: "Esse cara está querendo me enganar. É claro que fulano está na casa dele e ele não quer me contar. Eu vou pegar esse fdp!" O seu desejo é tão intenso que, para ele, não se trata de desejo e, sim de realidade efetiva, tudo o mais nada importando. Ao mesmo tempo, ele, por ter caído nesta condição infra-natural, fica com os nervos sempre à flor da pele, percebendo a mais leve contração muscular do interlocutor, e, como um animal acuado, a ela reagindo, quer dizer, no sentido de "afastar de si o perigo", em conformidade com o papel da reatividade. Por isso faz parte do jargão dos droga-adictos o termo "nóia", contração de "paranóia" às suas duas sílabas finais. E o que é o paranóico? É aquele sujeito que, temendo algo, projeta (por via imaginativa) no outro a intenção e meios correspondentes à realização daquilo que projetou, em seguida do quê o ataca e fere de morte, "para se defender". O droga-adicto está sempre com "nóia".
A vontade capaz de corrigir esta distorção da realidade, no droga-adicto, não é mais função de sua estrutura cognitiva pessoal mas, sim, de algo que lhe seja externo. Sua vontade, deixando de ser imperante, deixa um "buraco" que tem de ser preenchido por algo que faça as suas vezes, onde entra o trabalho como única alternativa possível.
Mas esta solução contém um problema. Todo trabalho é despersonalizante, na medida em que, para sua execução, o sujeito faz uso dos mesmos instrumentos que qualquer outro teria de fazer, caso também desempenhe o mesmo trabalho. Uma secretária usará caneta como qualquer secretária, telefone, computador etc., e de uma maneira que diferirá muito pouco do uso que outra faz ou faria. Para fazer face a esta despersonalização, característica de todo trabalho, o sujeito precisa encontrar alguma atividade vocacionada e a ela dedicar-se a "custo perdido". O droga-adicto é aquele para quem esta possibilidade não mais existe: ele precisa de um trabalho, que lhe proporcione uma atividade constante (como certos animais aquáticos que, caso parem de nadar, morrem asfixiados), não por ser-lhe coisa vocacionada, mas, sim, porque ela funciona em lugar de sua vontade, atrofiada para sempre. Por isso, a recuperação do droga-adicto só pode dar-se caso ele tenha a garantia de ter um trabalho que exija dele ocupação do acordar ao dormir. E só há dois tipos de seres humanos capazes de tolerar algum sujeito nestas condições e dar-lhe o de que precisa, ao longo dos anos, como um dever moral supremo: a mãe do infeliz e o religioso sincero, ambos completamente imersos naquela parte não biológica (e por isso dita sobrenatural) da inteligência, a primeira no amor e o outro na fé e no amor, os quais são manifestações temporalizadas da caridade. E como a maioria dos seres humanos não é nem mãe do infeliz nem é religioso sincero, sua vida fica então por um fio.
Bem, aqui chegado, nem precisa dizer que um droga-adicto, além de ser uma completa ameaça à integridade física e econômica do meio onde viva, é algo assim como um tubarão, que tem de ficar em movimento constante, caso contrário morre. Só para terminar tão deprimente descrição (a análise, creio que não tanto), cito algo que ouvi do pai de um dos droga-adictos que atendi: este homem, um espanhol, me disse que, na Espanha, quando se ouve que alguém foi morto (assassinado), a família ou a polícia só fazem diligências para descobrir o criminoso até o momento em que descobrem que a vítima era droga-adicto. Ao saberem disto, esquecem o assunto e agem como que sentindo alívio por um fardo ter sido tirado do ombro de todo mundo.
Pergunto, então: um sujeito cuja vida está dedicada, por
decisão livre e espontânea, a droga-adictar quem puder, pode
ser chamado de "homem" e tratado como "senhor"? Alguém
assim é um sociopata(8), que só
prossegue vivo e bem tratado numa sociedade onde haja presença prevalente
de homens bons, justos e benevolentes. Quando um sujeito desses ousa proferir
qualquer crítica à sociedade em que viva, é merecedor do
mais profundo desprezo e seria ato de caridade dizer-lhe, ainda que aos gritos,
o que ele é, para que não apenas ele mas toda e qualquer outra
pessoa em idade de compreendê-lo, também ouçam. Pois não
há ser mais baixo que aquele que, livre e espontaneamente arremesse outros
numa condição que é a ante-sala do inferno, que é
a droga-adicção. E talvez eu tenha me enganado nesta última
frase: há seres mais baixos, sim, aqueles que convencem quem esteja em
idade de entender, que a não legalização das drogas é
manifestação da hipocrisia de uma sociedade hipócrita.
A verdade é que ainda prevalece, na sociedade em que vivemos, a bondade,
justiça e benevolência, com tanta força que tais antípodas
do homem têm liberdade de dizerem o que pensam e agirem como querem. E
é tanta esta bondade que a custeia e põe na busca de soluções
dos problemas por eles gerados, as melhores almas e os melhores cérebros.
Ainda que, no fim, o resultado venha a ser a aprovação de algum
reles "direito humano à violência do suicídio à
Beira-Mar".
NOTAS:
(1) Esquizóide é o adjetivo correspondente ao
traço relativo ao distúrbio da psique do qual são portadores
os esquizofrênicos. "Esquizofrênico" significa, literalmente,
"cabeça dividida", no sentido de que não há identidade
entre a conduta do sujeito e as razões que ele declarada e explicitamente
lhes dá. O esquizofrênico raciocina de maneira semelhante à
criança: se se pergunta a uma criança se foi ela quem quebrou
o brinquedo, ela diz sinceramente que não - diz: "foi minha mão!"
Numa criança, isto é perfeitamente normal, por razões que
deixo para explicar numa outra ocasião. O esquizofrênico raciocina
de maneira semelhante porque algum fator corrompeu sua psique, fator este anterior
a seu nascimento (causa genética), simultâneo a sua formação
intra-uterina ou mesmo no momento de seu nascimento (congênita), ou posteriores
a seu nascimento (traumas diversos, ou causas químicas, como a droga-adicção).
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(2) Ela prefere "laborterapia", forma latina daquela
palavra grega. Significa "tratamento pelo trabalho". A eficiência
do método baseia-se no fato de que cada trabalho exige, para sua execução,
específica operação da inteligência. Assim, há
trabalhos que requererão do sujeito uma conformação de
toda a inteligência aos dados dos sentidos exteriores (como a arte de
cozinhar alimentos), outros aos dos sentidos interiores (sem exceção,
todos os trabalhos baseados na linguagem), assim como há outros que exigem
controle intenso da reatividade exterior (como todos os trabalhos de natureza
policial ou fiscalizatória), outros da reatividade completamente interiorizada
(todas as atividades baseadas na polêmica, como a crítica literária,
os procedimentos de natureza dialética) e assim por diante. Mudando-se
o trabalho, muda-se a ênfase nas diversas partes que compõem a
inteligência, as demais atuando como acessórias. O resultado psicológico
a que isto leva é a "flexibilização do ego",
levando o sujeito inteligir o real por aspectos que ele, deixado só por
si, nunca o faria. Tal mudança de trabalho permite, a quem supervisiona
o sujeito, perceber qual atividade lhe é a mais conatural; percebendo
isto, pode então insistir que ele continue desempenhando-a, já
que aí ele encontra sua maior eficiência e, em conseqüência,
um ponto-de-apoio material capaz de permitir algum fortalecimento de sua débil
vontade. Voltar
(3) A pedagogia dos "12 passos" possui infinita
sabedoria. Qualquer droga-adicto só consegue recuperar-se (no sentido
de ficar longe das drogas) se cumprir as exigências contidas nos "12
passos". Um homem normal, que eventualmente adote os "12 passos"
como critério ascético pessoal, faça tudo direitinho, elevar-se-ia
à condição de homem eminentemente virtuoso. Tal pedagogia,
parece-me, só poderia ser criada por um cristão, o qual parte
da premissa de que "todos pecaram e estão destituídos da
glória de Deus". Em qualquer parte do mundo, também me parece,
a única maneira de recuperar alguém do "inferno em vida",
que é a droga-adcição, é esta pedagogia. Ela, pareceu-me
e parece, não poderia ser fruto da mente de homem algum, a menos que
este possuísse um psiquismo genuinamente cristão. Voltar
(4) Fiz questão de fazer este à parte porque,
para mim, há atividades da inteligência que, analisadas, dão
a perceber tratarem-se de resultados de aspectos não-biológicos
da inteligência. Como o amor (para falar de uma das mais comuns): dou
um doce a quem der explicação suficiente desta atividade do espírito
humano baseada apenas na biologia e, mesmo, encontrar paralelo dela no reino
animal excluído o homem. O mesmo digo da fé. Nem precisa falar
da intuição intelectual. Cada uma delas, na verdade, a meu ver,
é a manifestação de algo a que o termo "milagre"
talvez seja pouco para referir. Voltar
(5) Já vi filmes (cujos títulos não me
recordo aqui e agora) cujo vilão principal é algum animal astuto,
onde o espectador tem a impressão de que o animal "pensa".
Trata-se de uma alegoria disto que estou falando. Voltar
(6) A reatividade é um dos aspectos da vontade. O outro
é a vontade livre ou vontade propriamente dita. Esta, manifesta-se como
criatividade extrema, como genialidade para encontrar soluções
de improviso. Aquela, é a parte da inteligência que atua no sentido
de defesa do organismo contra ataque exterior. Nos animais, ela atua com perfeição;
no homem, ela, por atuar imperfeitamente, exige ser educada. Um cervo, logo
ao nascer, ao ver um leão, já se põe sobre as patas e corre
o mais que conseguir, reagindo ao perigo potencial que o leão representa.
No caso do homem, a imperfeição da reatividade é que o
dota da aptidão a converter o nocivo em útil. Por isso o homem,
diferentemente do animal, depois de viver experiência aversiva, como queimar-se,
é capaz de tornar-se mestre em assuntos que digam respeito ao fogo. O
animal que se queime nunca mais se aproxima do fogo. Voltar
(7) Creio que os que advogam a legalização da
droga sentem esta angústia. Como em geral são pessoas mais bem
informadas, embora sejam droga-adictos, não "entram de cabeça"
como a maioria dos que se drogam, mas inserem o uso da droga em sua rotina diária
de modo que ela não lhes retire a condição de "trabalhador".
Mesmo porque, os efeitos da droga, no sentido de desorganização
completa do psiquismo, é menor nos dedicados ao que, em princípio,
poderia ser dito como sendo aspectos da vocação superior do homem,
que são às ligadas à linguagem. O tipo de corrupção
que a droga provoca nos "letrados" é de tipo diferente desta
de que estou tratando neste artigo. Voltar
(8) O termo sociopata significa "alguém com sentimentos profundos e intensos (pathos) contra a sociedade". Voltar