ALGUMAS PALAVRAS SOBRE VOCAÇÃO


NOTA: Este artigo não antecede nem prossegue o do Pedro Sette Câmara ("Toda profissão é uma arte"); antes, combina com ele. Na verdade, escrevi-o motivado pela leitura daquele artigo. Depois de relê-lo, vi que ficou completamente independente daquele do Pedro, exceto no fato de concordarmos, no essencial, quanto ao que seja vocação.


Há um erro presente na concepção que correntemente se faz a respeito da vocação. Talvez porque os que mais disso falam não a definiram baseados num critério verdadeiramente antropológico. Antes, definiram-na baseados ou numa concepção econômica ou política, elevando, deste modo, a Economia e a Política a ciências (ou artes) supremas. No primeiro caso, porque subordinaram a importância da vocação à sua "validade mercadológica"; no segundo, à identificação de "lideranças". O curioso, nisto, é o fato de que o "mercado" (com o pólo ativo que são o conjunto das empresas fornecedoras e prestadoras de bens e serviços e o pólo passivo, os consumidores) interessa-se pelas vocações políticas - claro, com outro nome - já que, em qualquer empresa, o discurso é no sentido de os funcionários "terem iniciativa, saberem liderar" e coisas tais e as escolas, com as vocações a ganhar dinheiro. Ora, "iniciativa", "liderança", são coisas próprias da política. Assim, nas escolas, o jovem é estimulado a tentar ingressar numa "carreira economicamente promissora"; nas empresas, quem não possua o "dom de liderança" não consegue "subir".

Nesta concepção de vocação, dois são os ramos exclusivos: ela deve poder capacitar o indivíduo a ganhar dinheiro, por um lado e, por outro, capacitá-lo a protegê-lo. Ganhar dinheiro e proteger o dinheiro - banqueiro e homem de armas, os dois termos da equação, fora dos quais nenhum outro interessa.

Para uns, a vocação é algo que necessariamente deve permitir ao sujeito ganhar dinheiro, o que significa dizer que todas as vocações que não o permitam têm sua importância medida pela maior ou menor semelhança com vocação à Economia (não no sentido de o sujeito ser um teórico do assunto, mas no de ser capaz de enriquecer). Sendo aceito este critério, deve-se crer, então, que as mais exemplares vocações possíveis são as encarnadas pelo sr. Sílvio Santos, pelo sr. Antônio Ermírio de Moraes, pela Xuxa, por todos os que, de uma forma ou de outra, enriqueceram, devendo-se deixar de lado exemplos tais como Machado de Assis, Sócrates, Aristóteles e demais indivíduos ineptos para ganhar dinheiro. Ora, é coisa elementaríssima que se alguém é vocacionado à música, ele tanto mais dará prova disto quanto mais música compuser ou tocar; o vocacionado à poesia, quanto mais clara e profundamente der voz à mais perene realidade; ao canto, quanto mais e belamente cantar; e assim por diante . Mas aquele que enriqueça rapidamente, sem conseguir explicar a razão de seu êxito, é perseguido como criminoso, já que despertou a suspeita de ter enriquecido ilicitamente. De qualquer maneira, já dizia Aristóteles que o dinheiro se adquire e se perde com violência, uma vez que pode converter-se imediatamente com o que conserva a vida (como a comida, a bebida e demais coisas, naturais ou não). Uma vez que alguém o tenha em grande quantidade, terá de dissimular sua posse, caso contrário cairá sob a mira dos que gostariam de tomar-lho. Assim, não é razoável que a "rainha das vocações" seja a capacidade de ganhar dinheiro, já que, no máximo, tal vocação apenas possibilita ao sujeito ter coisas e não a ser, necessariamente, exemplo de homem superior que deva ser imitado, se possível, por todos os das gerações seguintes. Não é concebível a existência, pacífica, de uma comunidade onde todos fossem tão hábeis na psicologia do jogo quanto um Sílvio Santos, embora fosse possível uma outra onde todos fossem hábeis músicos, ou excelentes poetas ou devotados religiosos.

Outros afirmam que o fundamental é a capacidade para vencer desafios, a capacidade de liderança e coisas análogas. Reduzindo, porém, o fator subjacente a essas capacidades, o que se quer dizer é que a mais elevada vocação é aquela que tem no poder seu objeto preferencial. Vencer desafios é ser pessoa poderosa, capaz de submeter coisas e pessoas à sua vontade; ser líder (e coisas análogas) é possuir a força do mando, quer ele se expresse manhosamente ou violentamente. Levar o outro a fazer o que eu quero pode dever-se a meu poder de intimidá-lo (com o uso de armas, físicas ou não, capazes de prejudicá-lo ou mesmo matá-lo), à minha capacidade de negociação (em cujo caso, concedo-lhe vantagens, atuais ou futuras) ou o manipulo psicologicamente - numa palavra, faço-o fazer o que quero que faça, para tanto fazendo uso desde meios coercitivos até meios coativos. Mas tudo isto nada mais é que Política. Numa comunidade onde todos amassem o poder, desejassem ser líderes e coisas do gênero, a vida seria uma constante guerra.

De um lado, a Economia, de outro, a Política, ciência normativa e arte do mando. Ambas requerem princípios que lhe sejam anteriores, já que a primeira, por ser ciência normativa (e não especulativa), precisará conduzir-se à luz de princípios que têm origem anteriores a si mesma; a segunda, de princípios que lhe forneçam direção de ação. O que ambas têm em comum é o fato da eficiência, de uma e de outra, depender, justamente, da capacidade de seu praticante esconder as verdadeiras intenções, em manter ocultas suas principais premissas. Em primeiro lugar, para ser possível não apenas não perder dinheiro como, também, ganhá-lo, se possível, em grande quantidade; em segundo lugar, para que se conserve o elemento surpresa, causa da manumissão do inimigo.

Quando se forma um consenso em torno de idéias deste tipo, que a preparação do jovem deva ter em vista o mercado de trabalho e, uma vez chegado lá, que deva exercitar sua competitividade, sua capacidade de liderança, o que se está fazendo não é investigar vocação mas, sim, uma triagem da vocação conveniente.

Claro que há sujeitos vocacionados a ganhar dinheiro; claro que há sujeitos vocacionados à política ou ao mando. Porém, a posse do dinheiro é inútil em ausência de inteligência suficiente para bem usá-lo; o poder de mandar é mortífero caso não seja orientado pelo que lhe vem acima, que é o em nome do que mandar, entendendo-se isto como aqueles princípios que nunca, em época ou lugar algum, foram negados; e quando o foram, a comunidade extinguiu-se e, quando não, desumanizou-se.

A contradição presente na idéia de que o mercado de trabalho deva ser o fim ao qual se orienta a educação é evidente, já que nem todas as formas de ganhar dinheiro são lícitas ou mesmo honrosas ou, mesmo, adequadas à existência civilizada. O crescimento do crime organizado prova-o de maneira indiscutível. Por que cresce o crime organizado? Justamente por isto, pelo fato de ele estar perfeitamente coerente com o princípio de que o dinheiro é razão suficiente para tornar aceitáveis os riscos de sua aquisição. Não surpreende, então, o surgimento, quase diário, de novas formas de crimes, que são praticados com uma elevadíssima dose de engenharia organizacional. O crime organizado, na verdade, reúne aquelas duas premissas, a econômica e a política (entendida como o ofício do homem que gosta de brigar).

Nada mais lógico que seja assim, já que a questão da vocação deixou de ser assunto doméstico para tornar-se prerrogativa das escolas. E quando se permite que as prerrogativas da vida natural se tornem atribuições da vida civil, caminha-se da Moral para o Direito, da culpa à pena, do conselho à ameaça, do que se faz por amor ao que só se faz por obrigação.

A educação que, de fato, define a base sobre a qual todo e qualquer aprendizado relativo ao bem, ao certo e ao justo, se depositará, não é a adquirida no âmbito da vida civil e, sim, no da vida natural (ou familiar). É aí, no âmbito da vida familiar, que a vocação pode e deve ser cultivada com proveito, a vida civil (a começar do ingresso na escola) atrapalhando o menos possível em seu desenvolvimento. O ambiente familiar é de onde a vocação deve encontrar seu combustível para converter-se, quando combinado com um adequado aporte cultural, em talento manifesto, já que ela é o princípio da capacidade de amar; é ela que compele o coração a preferir ou a preterir uma coisa a outra, como um eixo em relação ao quê a proximidade ou o afastamento da vida gera contentamento ou angústica, felicidade ou tristeza.

A vocação do sujeito é coisa visível desde muito cedo, não em sua plenitude, mas em seus sinais característicos, em seus traços fundamentais. Baseando-se nesses traços, de manifestação precoce, é possível educar a criança de tal maneira que ela se tornará jovem e depois adulto de maneira tão "inteira" que, sempre que tiver que tomar decisão na vida, com certeza decidirá com elevada dose de coragem e acerto.

Em artigos próximos, pretendo citar exemplos do que vem a ser manifestação precoce da vocação, coisa essa muitíssimo comum, por sinal. Não são notados devido ao costume, criado pelas escolas e empresas, de fazer triagem de vocação e chamar ao que fazem de exame de vocação, coisas muito distintas.

Joel Nunes dos Santos
jonusant@caramail.com


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