O INTERLOCUTOR IDEAL
A felicidade resulta do encontro do interlocutor conveniente e necessário. Este interlocutor, por sua vez, é aquele ao qual a nossa natureza idealmente nos conduz; é ele que procuramos encontrar em todos os encontros; é por causa dele que amamos. Por isso Jesus disse "o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim me fizestes"...e é isto que leva cada cristão - no sentido forte do termo - a procurá-lO em cada um. Como dizia a Jacinta, de Fátima, ele é "O Escondido" por trás das coisas e pessoas.
A mais elementar experiência prática de convívio prova que nem todo mundo serve para ser interlocutor de uma pessoa determinada. Porque ela tem seus gostos e repugnâncias, tem sua maneira própria de prestar atenção nas coisas, tem preferência por certas coisas e indiferença por outras, vai da total tolerância com determinadas coisas até o limite da completa intolerância, passando pela indiferença... O que lhe convém (porque se conforma à sua pessoa), por sua vez, pode ser coisa totalmente supérflua para outra pessoa. E assim com tudo que se possa lembrar ou cogitar.
É neste fato - de cada um ter, como expectativa inata, e precisar, de um interlocutor - que se baseia o êxito ou fracasso no convívio humano. As pessoas que vão surgindo na vida do sujeito não respondem necessariamente a seus anseios mais interiores. Esses encontros vão respondendo a um ou outro anseio, o que lhe vai constituindo experiências que vão despertando em sua alma a idéia - o desejo mesmo - de que, em tudo quanto comparte com a multidão de pessoas com quem vai se dando, há alguma coisa que é o principal, algo que sempre desperta sua mais elevada intenção interior. Como dar nome a isto? Ainda que se considere que este "dar nome" não se refira exclusivamente ao que pode ser pronunciado, articulado em palavras - "dar nome" significa ter consciência interior do que é, mesmo sem poder provar que é assim. A vocação do sujeito a algo manifesta-se como o calor que inflama o coração ao meditar neste "principal", neste interlocutor ideal.
Honório Delgado tratou do que envolve a alma alheia, do conhecimento do outro, do conhecimento perfeito do outro; do conhecimento do outro por mim. Interessa-me tratar do conhecimento do outro pelo outro.
Como pode o outro saber o que lhe é próprio? O que lhe é sua vocação mesma? É, primeiro, lembrando-se do que fez quando ou não estava obrigado a nada fazer ou era obrigado a fazer alguma coisa; é sabendo pelo que pagaria para fazer; é conseguindo enxergar no que pensa sempre. É conhecer ao que ele mesmo se propõe e caso se vá julgá-lo, julgá-lo apenas por isto e não por aquilo que eu acho que ele deveria ser ou fazer. Caso consiga vê-lo assim, estou começando a conhecer um pouco do outro, pelo outro mesmo. Estou começando a tornar-me um de seus posíveis interlocutores ideais.
24/07/2001