O CABELO E A INTUIÇÃO

Uma temível ameaça paira sobre o gênero humano, uma vez que ele vem sendo submetido a um conjunto de ataques que não são de maneira alguma dirigidos à carne e ao sangue mas, sim, ao seu espírito. Ataque que tem tido, infelizmente, êxito na destruição da base mesma a partir da qual a inteligência opera - a intuição, cuja função é apresentar o dado à consciência.

A razão, culminância da atividade do conhecer humano(1), nada é sem os dados de que se alimenta, os quais são apreendidos pela intuição. Claro, há as faculdades intermediárias, que, após a apreensão do dado, permitem ao sujeito informar-se do quanto por ele foi afetado, em seguida entrando em cena a faculdade seguinte, cujo papel é o de criar análogos (símbolos e signos) do dado originário, os quais são então armazenados de modo a poderem ser recuperados tais e quais, ou combinados entre si; em seguida, entra em cena a faculdade que avalia a potência (do dado) para ferir ou danificar o organismo, depois de cuja avaliação entra em cena a vontade, dita livre, que define a ação a ser empreendida pelo sujeito e, por fim, o julgamento final de todo o processo, para o quê entra em cena a razão. Mas todo este processo depende daquele dado inicial, que é assim como um clarão, um fulgor que amolda a si o intelecto. Todo o trabalho da inteligência seria impossível sem a intuição, sem a faculdade que dá o "pontapé inicial".

A intuição não julga, não analoga, não antecipa, não reage...apenas informa, apresenta o dado à consciência. Da sua realidade empírica, em virtude de abstrações sucessivas, o dado vai sendo disponibilizando para o trabalho das demais faculdades, que irão em seguida progressivamente entrando em cena, depurando-o de tal modo que, de faculdade a faculdade, seu grau de generalidade vai aumentando. Mas a intuição apenas o mostra, nada mais faz. Sem isto, sem a apresentação do dado à consciência, nada mais seria possível. Por isso, ela tem de poder funcionar adequadamente, e para tanto, desde muito cedo convém que se ajude o sujeito a poder admitir o que vê, declarar o que vê, de tal maneira que haja a mais perfeita conformidade possível entre o que diz e o que as coisas são. Não sem razão, consta, no relato judaico-cristão da criação, que o primeiro "mandamento" dado por Deus ao homem foi o de dar nome às coisas: "tudo que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome." (Gen. II, 19). Via o que via e nomeava o que via, o nome e a coisa sendo conformes, convertendo-se um com o outro.
E se esta faculdade falhar? Se o que o sujeito crer que vê não coincidir com o que de fato vê, ou viu? É a derrocada da inteligência, por certo, que então passa a estar dividida entre a realidade e o desejo, desejo prometéico de amoldar o mundo à imagem da pura e cega vaidade humana.

Esta falha (ou atrofia da intuição) parece não ser, atualmente, coisa incomum. Tanto não é que se pode mostrar sua emergência, num caso, pequeno por certo, mas cheio de significado. Foi narrado por uma aluna, que me disse o seguinte: "Uma amiga, pessoa honesta até o último fio de cabelo, religiosa, que atualmente estuda filosofia grega e cristã (e acredita no que estuda), de família onde a vocação religiosa prossegue naturalmente a vocação às letras, olhou-me e disse que 'estou forçando a natureza'. Perguntei-lhe por quê. Ela disse que por eu deixar meus cabelos brancos permanecer brancos. Afinal, não sou velha e cabelos brancos não combinam com a juventude. Espantada, eu lhe disse que, já que quem pinta o cabelo é ela, para que ele permaneça preto, ela é quem está forçando a natureza. Meu cabelo tem a cor que tem justamente porque o deixo ser como é, e, na minha família, minha mãe, minha irmã têm em comum comigo mecha branca nos cabelos, que sempre surge (como surgiu em mim) lá pelos vinte e seis anos."

Tal atrofia da intuição lembrou-me um trecho do "Jardim das Aflições" (Olavo de Carvalho), onde diz que [a propósito do marxista convicto], "...ele não apenas pensa diferente do não-marxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes...". Claro que a mulher do episódio não é marxista; ao contrário, ela é o que se poderia dizer castiça cristã católica. Mas nem a exclusiva adesão a uma religião verdadeira tem podido contra este terrível fenômeno, o da corrupção da faculdade a partir da qual todas as demais podem convenientemente operar. Qual o remédio para isso? Por certo, não é pintar o cabelo, mas, sim, exercitar o hábito de, como Adão, nomear corretamente as coisas, dizer seus nomes, quer soem agradáveis ou não; cultivar o hábito de, entre a amizade (ou interesse) e a verdade, optar por esta última.

 

NOTA:

(1) Refiro-me, aqui, ao conhecimento que está exclusivamente sob a dependência da capacidade silogística humana e, não, àqueles a que se dá o nome genérico de "sabedoria", que resulta de um aspecto não natural da inteligência. Voltar


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