A encarnação da insensatez
O terrorismo é a encarnação da insensatez. Para perceber isto, basta fazer as contas das vantagens que algum grupo - atuante ou de apoio - conseguiu obter com suas ações mortais. O saldo que se obtém, no fim das contas, não é nem zero - o saldo é negativo. É que as ações terroristas não são afirmativas, mas puramente negativas; elas não são nem criam algum bem, mas apenas o destroem. Possuem a marca distintiva de Caim, o homem tomado pela impotência e invejoso do que e de quem lhe é superior. É como a criança que, tendo tomado um "pito" da mãe, vai e torce o rabo do gato.
É preciso estar em estado crônico de medo e ódio, ou de permanente susto, a ponto de padecer da "Síndrome de Estocolmo", para repetir a cantilena dos que dizem que "o atentado contra o World Trade Center (WTC) deveu-se à arrogância dos americanos". Não, coisas desse tipo não se devem ao êxito passado e presente da vítima, mas ao fracasso presente do impotente suicida-homicida.
Meditando a respeito do terrorista, pareceu-me que se trata de alguém com diferenciação da inteligência maior que a da média dos homens, pois trata-se de pessoa que admite como coisa real aquilo que, para o comum dos homens, nada mais é que difusa intuição e difuso sentimento. Pelo menos, parece-me que era assim o homem antes de tornar-se terrorista.
Para o comum dos homens, certas coisas são tão impossíveis de personalizar adequadamente quanto o é o cheiro para o cérebro humano. Tanto é assim que as prescrições legais a respeito do que atenta ou pode atentar contra o que é humanamente aceitável, baseia-se no sentido da visão e não no sentido do olfato. Por exemplo, creio que a maioria das pessoas já ouviu falar de algum político que teve o cargo cancelado por "falta de decoro parlamentar"; que isto se deu por causa de alguma conduta que foi vista e julgada indecente. A indecência e não a flatulência retira cargos. A indecência é vista, a flatulência, olfateada. O que entra pelo olfato não sai pela boca, esta é a verdade; por isso não tira cargos.
Há, então, como vinha dizendo, homens que estão para outros numa distância escalar maior do que a que há entre o olfato canino e o humano. Uns, têm por real o que outros nem suspeitam existir. E quem percebe mais coisas, mais pode fazer, ou induzir a que façam.
A diferença existente na amplitude da inteligência prática de um homem com relação a outro, significa, na prática, um maior poder de ação. Não foram muitos os terroristas cuja ação pôs em risco de existência todo um país. Quantos foram? Seis? Oito? Dez terroristas?
Quem consiga fazer com que homens, com um certo nível de diferenciação da inteligência (prática), enxerguem o contrário das coisas, que o ódio é amor, que o mal é o bem, conseguirá reduzir a um brutal grau de ineficiência o que antes prometia enorme dose de proficiência. Pois, caso não fosse assim, como entender que haja pessoas que persistam, por anos a fio, numa ação cujo saldo é invariavelmente negativo? Isto é sinal mais que evidente de que algum fator corruptivo interferiu e afetou com fracasso mortal o que, em condições normais de funcionamento, seria puro êxito - de diferenciada que era no início, a inteligência, aí, tornou-se algo medonho e ineficiente. E não é precisamente este o caso dos indivíduos e grupos terroristas? Pensam: vou unificar, com o terrorismo tais e quais territórios. Praticam atentados. De atentado a atentado, mais e radicalmente são mantidos afastados tais e quais territórios, a ponto de ser preciso, para as crianças irem para a escola, que se façam corredores humanos para que possam permanecer incólumes.
O terrorismo, avulso ou de Estado (como se dá nos governos comunistas), já se demonstrou meio ineficiente para se chegar a algum resultado pretendido. O "império comunista soviético" durou 76 anos apenas, quando prometia uma era de igualdade entre todos os homens; o terrorismo na Irlanda, até agora, só matou uma quantidade enorme de pessoas sem que isto gerasse qualquer resultado positivo; as FARC transformaram a Colômbia na porta de entrada de força militar americana na América Latina; o atentado no WTC fortaleceu um governo que, segundo previsões (ou desejo dos que odeiam a "arrogância americana"), talvez passasse desapercebido e que, a custo, conseguiria manter os EUA como suprema força militar no mundo - agora, o governo Bush tem grande chance de tornar-se a administração que incrementou o poderio militar americano a um padrão capaz de fazer tremer todo o planeta; talvez esta administração vá se caracterizar, também, como a que conseguiu, para os Estados Unidos, o direito de bombardear quando e onde quiser e ainda fazê-lo montado na razão. É como ter carteirinha com 00 (zero, zero) antes do número principal, como James Bond, o qual podia matar sem susto.
Numa palavra, o terrorismo fortalece justamente quem ele, nominalmente, declara que vai enfraquecer ou derrotar. Se Cristo, quando preso, foi negado por quase todo mundo (algumas mulheres não o negaram), o terrorista não se dá melhor: não há governo ou pessoa que diga ser amigo ou conhecer os acusados pela última ação terrorista contra os Estados Unidos. Mesmo algum governo, notório por treinar terroristas, age como criança, que sempre nega ter sido ela quem enrolou o rabo do gato.
Com resultados assim, que vêm se repetindo há mais de décadas, como ainda há alguém que se disponha a ser terrorista?
Parece-me que uma possível resposta é que, de princípio, algumas dessas pessoas talvez fossem vocacionadas a coisas muito acima da média dos homens. Porém, algo as fez desviar-se de sua vocação originária, desumanizando-as. Passaram a padecer de algo que a Síndrome de Estocolmo parece ser o estágio anterior. Esta dá mostra do medo de quem ficou impotente e acuado; aquela outra coisa, que fere e mata e prejudica justamente os que até os próprios terroristas admitem serem inocentes, já vai além da pura conduta medrosa e impotente dos anteriores, cedendo lugar ao descontrole que desencadeia a revolta suicida.
Parece que a inculpação da vítima ("a culpa é da arrogância dos americanos") é o estágio que precede e destila a ação do desespero racionalizado, cujo nome é terrorismo.
O terrorismo é a insensatez, o terrorista é o insensato. Insensatez é a des-razão, é o oposto de "cálculo certo", já que tudo que desencadeia é o contrário do que queria evitar.
20/09/2001