ENSINAR X DOUTRINAR
Vícios da educação escolar para a cidadania

Por Nelson Lehmann


A distinção / oposição do título acima corresponde à distinção entre Ciência e Ideologia, ou entre Democracia e Totalitarismo.

Todos os sistemas totalitários se distinguem por doutrinar, pretextando ensinar. Impõem uma doutrina determinada, uma "verdade" coerente com o poder já apropriado ou almejado. Assim fizeram Hitler, Lenin, Mao, Komeini, Castro, e outros menores como Vargas ou Perón. A "Educação" da juventude sempre foi pedra angular de tais regimes. Formar o cidadão, nesse contexto, significa conformar, moldar o indivíduo ao sistema.

Em democracia não será assim. O educando será exposto a opções e alternativas diversas de ver o mundo e nele atuar. Não haverá monopólio de informações, de imprensa, de partidos, de opiniões, de textos escolares.

No Brasil, hoje, as noções transmitidas de política e cidadania estão sendo desvirtuadas de modos mais ou menos flagrante nos programas do ensino médio. O que se ensina nas aulas de História, Sociologia, Geografia Humana, e mesmo em Literatura ou Filosofia, não passa de doutrinação.

É sabido que na maioria dos estados , a rede pública de ensino está sob o controle de sindicalistas, militantes partidários. Os textos escolares, quase sem exceção, empregam o vocabulário marxista, ainda ortodoxo, da luta de classes, exploração internacional e demonização do capitalismo.

Paradoxal é que a cara e elitista Escola Particular sofre - sem se dar conta ? - da mesma contaminação.

O aluno que chega à universidade vem viciado nos esquemas mentais (talvez neurolinguísticos ?) apreendidos com seus mal-formados mestres do secundário. Que no nível superior deparemos com docentes assumida ou sutilmente tendenciosos, vá lá. Estamos entre adultos. Mas que militantes, muitas vezes fanatizados, se aproveitem de sua posição de autoridade para "fazer a cabeça" de adolescentes, sem opinião formada, representa a mais ilegítima - e ilegal - covardia.

Hoje , o "politicamente correto" proíbe a menor menção vexatória a religiões, culturas, raças, opções sexuais. Mas não demonstra o menor escrúpulo em ridicularizar partidos políticos, lideranças e autores que não rezem segundo a cartilha esquerdizante. Os métodos de constrangimento vão do sorriso condescendente à perda de pontos por resposta discordante da doutrina do respectivo professor. No discurso se propaga a intenção de "formar o cidadão crítico", na verdade a crítica já vem pronta, pré-fabricada, apontando os vilões e suas heróicas vítimas.

Sirvam de ilustração aqui os casos do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. O aparelho ideológico aqui é flagrantemente dominado por militantes do PT. Concurso e admissão de professores dependem de critérios inquestinavelmente políticos. Textos escolares, mesmo os aprovados pelo MEC, sabe-se lá por quais critérios , revelam implícito ou explícito marxismo. Há quem perceba por trás dessa difusa prática doutrinária uma intencional estratégia "gramsciana" de manipulação e infiltração no poder.

Nas raras vezes em que professores e diretores se defrontam com aberto questinamento por parte de algum pai mais alerta, alegam que "o aluno está sendo submetido apenas a uma interpretação de tal texto e tal autor, mero exercício de inteligência, sem nenhuma sugestão doutrinária".

Seria possível ensinar sem doutrinar?

Nossa proposta é de que uma formação democrática, pluralista, tolerante e respeitosa frente a outras opiniões é possível e é dever da escola. Não só será o jovem exposto a diferentes argumentos e representantes de diferentes ideologias, como passará por um treinamento prático de participação em grêmios e associações na própria escola. Aprenderá a respeitar adversários, a competir e a perder, a argumentar e a ouvir, a dialogar, a eleger e ser eleito.

Existem conceitos chaves em política que independem de opção doutrinal. Dou exemplos: Todo e qualquer grupo terá interesses comuns, coordenados por líderes e submetidos a normas de comportamento. Atingindo certo grau de organização, sobrevirão despesas, para as quais serão providenciadas receitas, ao cálculo de um orçamento. Do condomínio residencial, ao clube de vizinhança, da paróquia ao clube esportivo, do município a ONU, temos organizações - do micro ao macro - que funcionam com os mesmos elementos.

O parágrafo acima ilustra conceitos universais, comuns a qualquer experiência socio-política , e que prescindem de preconceitos valorativos. Aprender tais conceitos, desprovidos de cargas negativas ou positivas, levará o jovem a um pensamento mais objetivo e realista, desarmado, capaz de convivência em sociedade. Em etapa posterior, é claro, haverão de introduzir-se conceitos éticos, onde se avaliam e julgam instituições e pessoas. Mas nunca e desde o princípio ater-se exclusivamente ao conflitivo, caindo no fácil esquema maniqueista de apontar bodes-expiatórios e excitar ânimos denuncistas. É possível uma educação política não tendenciosa, ou não doutrinária.

Já é tempo de todos aqueles que se preocupam com a sistemática doutrinação ideológico-política em nossas escolas se articularem, chamarem a atenção dos responsáveis para o fato, e coordenarem suas inteligências para uma proposta alternativa.


Nelson Lehmann

Instituto Liberal de Brasília
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