MERCADO,
ou: A Teoria dos Três Verbos
Por Nelson Lehmann
O Tomar: Pelo uso da força, ou da fraude, alguém se apropria do que não lhe é próprio. No âmbito individual é o roubo, o assalto, o estupro, a falsificação, o plágio. No âmbito coletivo é a guerra de conquista, o genocídio. Todos os sistemas ético-religiosos o condenam.
O Trocar: Este universal e múltiplo comportamento aplica-se a muito mais do que ao estritamente econômico. Compreende toda sorte de intercâmbio de interesses, materiais, intelectuais, afetivos. Aqui é a esfera da razão, ou "ratio", que compara e avalia. Trocam-se VALORES. A medida do valor é o mérito. O critério do mérito é a contribuição para o bem alheio. Todos os sistemas éticos apontam escalas de valores comparativos, priorizam, hierarquizam. (* Autores Prêmio Nobel de Economia, como James Buchanan e Gary Becker, trabalham a tese acima, da universal relação de troca de interesses em todas as esferas sociais)
O Doar: Situado acima do cálculo racional (ratio) e designável como Amor, ou Caridade, parece ser uma outra alternativa a explicar o natural comportamento humano. Protótipo desta relação seriam as existentes entre Pais e Filhos (ver família, acima), Herói e Pátria, Mártir e Fé, Amante e Amada. Pretendem ser relações desinteressadas. Todos os sistemas éticos exaltarão tal comportamento. Cínicos, ou realistas, dirão que trata-se aqui também de uma troca. Ainda que de valores de gêneros diferentes, de materiais e temporais por espirituais e eternos.
A palavra grega CARIS, raiz de nossos vocábulos Caridade, Carismático, e Graça (Por graça de Deus) passou significativamente da Teologia para a linguagem comum, no português e espanhol apenas, como dom, doação. A expressão "é de graça", significa que algo não se troca, nada custa, é dado. Mas a doação como tal só pode ser voluntária. À imagem da relação Criador- Criatura. Ou Redentor Redimido. O doar, portanto, está eticamente situado acima da troca racional. Toda a utopia socialista, impregnada na "Teologia da Libertação", seria perfeitamente aceitável, se apenas trocasse a palavra Justiça por Caridade. O vício da motivação socialista está neste equívoco, apresentar-se como "caridade compulsória". O esboço teórico acima pretende apenas despertar interrogações. Tal reducionismo nas relações humanas seria aceitável? Na complexa realidade das relações humanas tais verbos se sobrepõem, se intercruzam, se arranjam, se combinam. A troca, este amplíssimo leque de interação, é certamente condicionada por valores culturais, epocais, individuais. Impossível esquematizá-la. Mas a tarefa da filosofia sempre foi encontrar, na multiplicidade variável, a unidade permanente. Talvez Platão tenha bem definido a síntese universal dos valores e sua hierarquia: Prazer, Honra (autonomia) e Verdade. O Mercado é expressão do comportamento natural humano.
LEHMANN
JUNHO 2002