A legitimidade do capitalismo
Por Llewellyn H. Rockwell Jr.
Por que a liberdade precisa de uma incansável defesa intelectual? Por causa de declarações como a seguinte:
"A legitimidade do capitalismo global, como o sistema dominante de produção, distribuição e troca será erodida ainda mais, mesmo no coração do sistema...; embora haja vilões em grande número, é a dinâmica do sistema de capitalismo global desregulamentado, dirigido pelas finanças, que é o problema central."
As palavras foram escritas pelo economista-sociólogo pop Walden Bello, mas os sentimentos ecoaram ao longo da direita, da esquerda e do centro. Certamente a convicção de Bello de que o problema é com o sistema de mercado reflete a visão de todo burocrata atualmente regulando os mercados de capitais, e provavelmente de dois terços dos professores universitários neste país.
O capitalismo precisa de uma consciência, diz Bush, porque do contrário ele será consumido pela "ganância destrutiva" dos homens de negócios. Greenspan concorda, acrescentando que quando essa ganância é "infecciosa", ela desestabiliza os mercados. "Este capitalismo cowboy precisa parar", acrescenta Maxine Waters, conclamando Bush e Greenspan a aplicar a "consciência" regulatória para pôr de quarentena a "ganância infecciosa".
Ainda assim, Bush não foi longe o suficiente, dizem as páginas editoriais da nação. Ele deveria ter atacado "os males do capitalismo em si mesmo", diz o San Francisco Chronicle, a mesma maneira que Clinton atacou o racismo, mesmo quando ele emanava da Irmã Souljah.
Afinal, os escândalos corporativos demonstram que os manifestantes de Seattle (destruindo fachadas de lojas, pilhando e se amotinando contra o mercado) foram "proféticos", escreve o colunista esquerdista Sean Gonsalves. Ele espera que seus planos para atravancar o mercado possam proceder sem que algum "fanático por F. A. Hayek ou Milton Friedman" os afogue.
Regular os mercados financeiros é apenas um começo. Os gastos estatais estão explodindo. O protecionismo está em marcha. O estado policial está fazendo imensos ataques à habilidade e à responsabilidade dos indivíduos e das comunidades de providenciar a própria segurança e a própria privacidade. Políticos estão clamando para pôr empresários por trás das barras, na crença de que isso parará a queda nos preços das ações.
Se você pensar a respeito, essa histeria é impressionante, mesmo assustadora. A economia de mercado criou uma prosperidade inimaginável e, década após década, século após século, propiciou feitos miraculosos de inovação, produção, distribuição e coordenação social. Ao livre mercado nós devemos toda a prosperidade material, todo o tempo de lazer, nossa saúde e longevidade, nossa imensa e crescente população, quase tudo a que chamamos a própria vida. O capitalismo, e apenas o capitalismo, resgatou a raça humana da pobreza degradante, da doença desenfreada, e da morte prematura.
Na ausência da economia capitalista e de suas instituições subjacentes, a população do mundo, ao longo do tempo, encolheria a uma fração de seu tamanho atual, e o que quer que restasse da raça humana seria reduzida à subsistência, comendo apenas que pudesse ser caçado ou colhido. Até mesmo a instituição que é a fonte da própria civilização mundial- a cidade - depende dos negócios e do comércio, e não pode existir sem eles.
E, com isso, estamos apenas mencionando os benefícios econômicos do capitalismo. Ele também é uma expressão da liberdade. Ele não é tanto um sistema social quanto o resultado natural de uma sociedade na qual os direitos individuais são respeitados, onde os negócios, as famílias e todas as formas de associação podem florescer, na ausência de coerção, roubo, guerra e agressão.
O capitalismo protege o fraco do forte, dando escolha e oportunidade às massas que antes não tinham nenhuma escolha senão viver num estado de dependência daqueles que tivessem conexões políticas e de seus capangas.
Precisamos comparar o histórico do capitalismo com o do Estado, que, olhando-se apenas para este último século, matou centenas de milhões de pessoas em suas guerras, misérias, campos de concentração, e campanhas de fome punitiva? E o histórico do planejamento central do tipo atualmente sendo jogado contra a empresa americana é perfeitamente abissal.
Deixe o Estado tentar erradicar qualquer coisa - o desemprego, a pobreza, as drogas, os ciclos de negócios, o analfabetismo, o crime, o terrorismo - e ele acaba criando mais dessa coisa do que normalmente existiria se ele simplesmente não tivesse feito nada.
O Estado nunca criou nada. O mercado criou tudo. Mas basta a bolsa de valores cair 20% em 18 meses, e o que acontece? Os principais intelectuais logo descobrem por que a Revolução Bolchevique foi uma excelente idéia, ainda que os resultados não tenham sido o que os idealistas esperavam. E então eles nos dizem que nós precisamos repensar os próprios fundamentos da civilização.
Em toda sociedade, há ganância, fraude e roubo. Se esses vícios aparecem numa sociedade socialista - embora a norma seja uma contínua e brutal luta pelo poder - e o fato passa despercebido ou é atribuído aos resquícios de pensamento capitalista. Mas basta esses vícios aparecerem numa economia basicamente livre, e surge o clamor para abolir a liberdade de comerciar, e pôr o Estado no comando!
Os defensores da regulamentação podem protestar: nós não temos nenhum plano para erradicar a economia de mercado e substitui-la pelo socialismo, mas sim para aperfeiçoá-la, torná-la mais transparente, mais honesta, salvá-la de si mesma. Essa é a linha agora defendida por tipos como John McCain, que diz defender o livre mercado mas opor-se ao "capitalismo de comparsas". Ele diz que será necessária a supervisão massiva do governo para trazer "confiança e transparência", que são essenciais às economias de mercado.
Deixemos de lado as evidências de que a recessão econômica e até mesmo os escândalos de contabilidade são conseqüências da interferência do governo no crédito e da regulamentação da indústria e dos mercados financeiros. Uma questão mais fundamental para McCain e para qualquer um que concorde com ele é: você acredita que o capitalismo é manchado pelos pecados de indivíduos, e neste caso nenhum sistema social se compara porque todos eles são habitados por indivíduos pecaminosos, ou você acredita que existe um pecado na própria raiz do capitalismo, que pode e deve ser suprimido pelo Estado?
É claro que nós sabemos as respostas. Afinal, se estamos apenas falando dos pecados dos indivíduos, o mercado foi brutal em sua punição. Na mesma medida que o bull market, alimentado por crédito fácil, ignorou preocupações antiquadas como a renda das corporações, o mercado agora está numa caça às bruxas contra qualquer firma que tenha embelezado seus livros. E isso é muito bom. Não importa que os escândalos resultem da ganância, do erro ou simplesmente de más previsões, os mercados não ligam: a falência é o resultado. Nenhuma instituição, e certamente não o governo, tem mais incentivos para corrigir-se a si mesma do que o mercado.
Se você acredita, entretanto, que existe um pecado no coração do capitalismo, não faz sentido permitir que o mercado policie a si mesmo. Tal possibilidade é excluída a priori, o que é um hábito mental tão endêmico nos intervencionistas quanto nos defensores do socialismo total. E esta é, também, uma mentalidade perigosa, porque uma vez que os reguladores sejam liberados para "aperfeiçoar" a economia de mercado, não há limites para o número de deformidades que a classe política descobrirá e tentará corrigir.
O resultado final é amarrar e aleijar os mercados até o ponto em que eles não conseguem mais fazer aquilo que eles têm a função de fazer. Na melhor das hipóteses, ficamos com economias como as que vemos na Europa hoje em dia: burocratizadas e engessadas, sem inovações e oportunidades, sobrecarregadas por welfare states improdutivos, e repletas de corrupção política. Isso, por sua vez, infecta a cultura, encorajando uma atitude de dependência completamente contrária ao espírito americano.
Parece absurdo ter de dizê-lo: a legitimidade do capitalismo não está em questão. Não fosse pela misteriosa persistência das tendências anticapitalistas, seria perfeitamente claro para todos que as únicas instituições seriamente em xeque hoje em dia são o Estado regulador e o banco central, o primeiro dos quais está inibindo e recuperação e o segundo dos quais causou essa confusão em primeiro lugar.
Voltemos à pergunta original: por que a liberdade precisa de uma incansável defesa econômica?
Considere a descrição de Ludwig von Mises da cultural intelectual de 1931, à medida que o mundo afundava mais numa depressão econômica:
'O sistema econômico capitalista, isto é, o sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção, é rejeitado unanimemente hoje por todos os partidos políticos e governos. Nenhuma concordância similar pode ser encontrada quanto a que sistema deve substitui-lo no futuro. Muitos, embora não todos, vêem no socialismo o objetivo. Eles obstinadamente rejeitam o resultado do exame científico da ideologia socialista, o qual demonstrou a impossibilidade do socialismo. Eles se recusam a aprender qualquer coisa com as experiências da Rússia e de outros experimentos europeus com o socialismo.
'A respeito da tarefa da política econômica atual, entretanto, prevalece um completo acordo. O objetivo é um arranjo econômico que se supõe representar uma solução compromissória, um "meio do caminho" entre o socialismo e o capitalismo. Com certeza, não há nenhuma intenção de abolir a propriedade privada dos meios de produção. Será permitido que a propriedade privada continue, embora dirigida, regulada e controlada pelo governo e por outros agentes do aparato coercitivo da sociedade. Com respeito a esse sistema de intervencionismo, a ciência econômica ressalta, com lógica irrefutável, que ele é contrário à razão, que as intervenções nas quais o sistema se fundamenta nunca atingem os objetivos que seus defensores esperam obter, e que toda intervenção terá conseqüências que ninguém queria.' (V. "The Causes Of The Economic Crisis: An Address", de Mises.)
Depois que Mises escreveu isso, o fascismo reforçou seu domínio na Itália, e o Terceiro Reich iniciou seu programa de intervencionismo e protecionismo extremos na Alemanha. O New Deal surgiu nos EUA, e essa era terminou em guerra mundial e holocausto. Quanta coisa mudou, de fato, em 71 anos? O ódio aos mercados precisa ser combatido por defesas da liberdade em toda geração. Nossas vidas dependem disso.
(Tradução de Alvaro Velloso de Carvalho)
Llewellyn Rockwell é presidente do Ludwig
von Mises Institute, onde este artigo foi originalmente
publicado, e editor da página LewRockwell.com.
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