Mitos sobre o Comércio
Por Ninos Malek
O capitalismo (ou economia livre) vem sendo criticado constantemente, e essas críticas geralmente começam como oposição à classe comerciante. Entretanto, os argumentos e exemplos usados contra o comércio no sistema capitalista não são somente ilógicos mas também incorretos.
As pessoas costumam dizer que grandes empresas recebem favores especiais por parte do governo. Essa seria a prova de que o capitalismo é somente para ricos e poderosos. Escândalos de grandes corporações como a Enron e a WorldCom supostamente demonstrariam a perversidade da busca pelo lucro e a destruição que a ganância causa. Entretanto, o que é claro é que esses exemplos só provam como o livre-mercado realmente funciona. Neste, empresas são punidas por mentiras e corrupção. Basta dar uma olhada ao que aconteceu a elas.
Quando John Stossel, em seu programa de televisão Stossel Goes to Washington, relatou como agências governamentais como o Departamento de Transações Internas e o Departamento de Defesa perderam bilhões de dólares do contribuinte, o que aconteceu com essas instituições? Absolutamente nada. Essas instituições ainda tomaram, indiretamente, mais do nosso dinheiro, com a ajuda do Congresso (o governo não nos pede nosso dinheiro; ele é a única entidade que pode tomá-lo à força).
Sou o primeiro a apoiar aqueles que condenam o sistema de benefícios estatais a empresas. Em um mercado verdadeiramente livre (o qual nós não temos), as empresas não desfrutariam de legislações que lhes concedem privilégios. Também não receberiam subsídios nem proteção contra a concorrência estrangeira. No livre-mercado, o governo não privilegiaria a alguns porque isso significa tomar de outros primeiro.
Obviamente, as pessoas pela própria natureza são "gananciosas". Nós não queremos apenas mais dinheiro e mais bens, mas também mais tempo para gastar com nossas famílias, mais tempo para ler e aprender, mais tempo para relaxar. Você iria todos os dias ao trabalho se não fosse pago para isso? Alguma vez você já recusou um aumento de salário ou um bônus de Natal? Creio que já sei a resposta. Pois então: por que nós não somos tachados de maldosos e gananciosos por tentar levar sempre a melhor, enquanto as empresas o são simplesmente por fazerem a mesma coisa que nós?
Admito que empresas não sejam necessariamente entidades compassivas que se importem muito conosco. Mas e daí?! Eu não me sentiria melhor caso bebesse meu Café Mocha sabendo que a Starbuck's "se importa" comigo. Eu não preciso de um estimulo espiritual por parte da Starbuck's. Tudo o que eu quero é uma boa xícara de café. Do mesmo modo, os comerciantes querem meu dinheiro. Não brinca ! Entretanto, eles só poderão ter sucesso se fabricarem algo que eu queira e algo pelo qual eu esteja disposto a pagar.
A troca voluntária é um jogo de soma positiva. Essa afirmação não precisa ser provada cientificamente. É uma verdade a priori. Por exemplo, quando eu decido ir à Starbuck's, eu não penso comigo mesmo "Hum, o que será que eu posso fazer para arruinar o meu dia? Já sei! Vou à Starbuck's". Não - eu voluntariamente pego o meu carro, dirijo até a Starbuck's, faço o pedido, tiro o meu dinheiro e digo "obrigado" quando recebo o meu café.
Sim, a Starbuck's ganha quando recebe o meu dinheiro (percebam que eu não escrevi "toma"); no entanto, eu também ganho, porque valorizo aquele líquido marrom mais do que o dinheiro que estou gastando ou qualquer outra coisa que poderia comprar com ele.
No video Greed de John Stossel, T.J. Rodgers da Cypress Semiconductors diz: "O mundo fica melhor quando eu ganho um dólar, não pior...". Ele está certo. O único meio através do qual ele pode ficar mais rico (excetuados os subsídios estatais) é criando coisas que os outros valorizarão e que farão as pessoas abrir mão voluntariamente de seu dinheiro. Infelizmente, os críticos do mercado-livre não conhecem esse princípio básico. Eu tenho também uma pergunta para eles: se a Starbuck's me explora quando recebe o meu dinheiro, por que eu não estou os explorando também quando recebo seu café?
O sentimento que parece permear nosso mundo é que as empresas e as corporações são perversas, e o "pobre" indivíduo é bom. Analisemos alguns exemplos: o controle de aluguéis supostamente protege as pessoas contra preços excessivamente altos; em outras palavras, o malvado proprietário precisa de uma limitação para quanto dinheiro ele pode ganhar das pessoas. É fácil ver neste exemplo a mentalidade anticapitalista em ação. Em verdade, o que os defensores do controle de aluguéis estão realmente dizendo é que é perfeitamente justo que os inquilinos paguem o menos possível, mas é imoral que os proprietários cobrem o máximo que puderem.
O salário mínimo é outra das políticas favoritas de muitos indivíduos de mente "igualitária". Os defensores do salário mínimo acreditam que esta medida protege um empregado de um restaurante tirânico ou de uma loja varejista que queira explorar seus trabalhadores. Novamente, parece ser justo que alguém receba o maior salário possível, mas injusto que os empresários paguem os menores salários possíveis.
É provável que os argumentos mais sentimentais em
favor de preços "justos" surjam quando se discutem medicamentos.
As empresas que fabricam remédios são retratadas como aproveitadoras
da miséria e da infelicidade alheias. Portanto, o governo deve proteger
os doentes contra estas companhias de ladrões magnatas. Mais uma vez:
o que está claro é que aqueles que defendem tetos máximos
para os preços dos medicamentos acreditam basicamente que é nosso
direito obtê-los a qualquer custo.
Posso pensar em muitos outros exemplos de supostos preços injustos. Que
tal os bilhetes para jogos esportivos? Entradas para os cinemas? Não
se esqueça do preço das rosas durante o Dia dos Namorados. O fato
é que aqueles que reclamam sobre preços altos ou desejam a intervenção
do governo de modo a nos proteger não entendem a realidade.
Ludwig von Mises escreveu em A Mentalidade Anticapitalista:
"O homem comum é o consumidor soberano cuja compra ou abstenção da compra determina em última instância o que deve ser produzido e em qual quantidade e qualidade."[1]
Muitos excelentes economistas têm escrito a respeito das conseqüências indesejadas do controle de preços e da regulamentação governamental. No entanto, o que está ausente em muitos livros e artigos sobre Economia é a sua dimensão moral. Minha principal crítica aos argumentos que dizem que os preços são altos demais, ou que as empresas "extorquem" as pessoas diante de desastres naturais ou exploram os doentes, é que as pessoas falam como se fosse seu direito ter um apartamento, receber determinado salário, obter os medicamentos, ou mesmo ir a um evento esportivo. Esse pensamento é extremamente arrogante e imoral em si mesmo, porque subentende que alguns têm o direito sobre a propriedade de outros (um complexo de apartamentos, um cinema, etc.).
Estava eu em um jantar com alguns amigos quando eles começaram a reclamar a respeito do jantar estar "acima do preço". Terminaram por ficar um pouco constrangidos quando eu lhes respondi dizendo: "Não, é somente um preço. Ninguém os forçou a entrar aqui e comer o jantar. Obviamente, vocês pensam que vale a pena comer nesse lugar ou não teriam sequer entrado. Portanto, calem a boca e comam, ou saiam."
A hipocrisia que existe em expressões como "ganhando demais" é estarrecedora. Em livros de economia, o conceito de saldo excedente é explicado. Em resumo, saldo excedente é a diferença entre o preço máximo que certo indivíduo pagaria para obter um bem ou serviço e o que realmente paga. Assim, se eu estou disposto a pagar $5 por uma chícara de café na Starbuck's, mas me cobram apenas $3.25, meu saldo excedente seria de $1.75. Se eu vou à Kenneth Cole e compro uma camisa por $50, mas teria pago o preço original de $75 pela peça, e - ah, sim - ainda recebo um desconto promocional de $10, eu então estou tendo mais $10 adicionais de saldo excedente que se adicionam aos $25 que eu já havia recebido.
Quanto a vocês eu não sei, mas eu nunca disse ao funcionário da Starbuck's ou ao vendedor de roupas: "Olha, muito obrigado pela venda mas eu preciso lhe dar mais dinheiro, porque eu teria pagado um valor maior pelo produto e eu não quero lhe extorquir". Você já disse isso alguma vez na vida? Bem, você então não estaria extorquindo os comerciantes e sendo "ganancioso" também?
Exatamente como não é imoral pagar o menos possível,
também não existe nada de imoral quando as empresas tentam cobrar
o máximo possível. Uma transação jamais acontece
sem que ambas as partes se beneficiem com isso. Claro, eu não gostaria
de precisar pagar nada pela minha gasolina e o posto de combustível adoraria
me cobrar $1.000.087,00 por galão e não $1,87 que de fato me cobra.
Tanto eu quanto o dono do posto precisamos nos conformar. O preço é
determinado pela oferta e pela demanda.
Outra questão que precisamos responder: o que é um preço
alto e um preço baixo? Como o governo pode saber qual deveria ser o preço
correto? Ou como nós determinamos qual é o preço justo?
Se a resposta é um lucro "modesto" sobre o custo de um bem
ou serviço, outra pergunta surge: quanto significa a palavra "modesto",
e, mesmo que nós pudéssemos determinar o valor, por que este seria
o preço mais alto a ser cobrado? Por que é errado que uma empresa
cobre o máximo possível?
No especial sobre o preço dos medicamentos de John Stossel, Barbara Walters disse a certa altura que se sentia "ofendida" porque teve de pagar $90 por um remédio para seus olhos. Em primeiro lugar, ela não tinha de pagar por coisa alguma. A farmácia não poderia tê-la obrigado a pagar os $90 e, obviamente, ela o fez porque isso valia a pena para ela. Em segundo lugar, por que ela se sentiu ofendida? Nunca foi obrigação da companhia farmacêutica criar colírio para os olhos de ninguém.
Algumas vezes as empresas ganham a nossas custas: por exemplo, quando um time esportivo convence o prefeito e a câmara de vereadores a utilizar o dinheiro do contribuinte para construir um estádio. Isto é extorquir dinheiro dos contribuintes que odeiam esportes ou daqueles que jamais iriam a um estádio. Entretanto e mais uma vez, num mercado verdadeiramente livre tal coisa jamais aconteceria; o governo criaria leis e atuaria como um juiz e não como um jogador participante.
Aqueles que se enervam com preços altos acreditam que é seu direito ter um bem ou serviço, ainda que ajam de forma diferente quando são eles os vendedores. A atitude-padrão que muitos possuem é espantosa. Talvez uma forma de fazer com que as pessoas pensem duas vezes antes de se irritarem com o preço alto dos alimentos, ou com o alto custo do entretenimento, ou com o preço do combustível, seja pedindo para que fabriquem sua própria comida, para que criem e abatam seu próprio gado ou para que perfurem seu próprio solo em busca de seu óleo e combustível, ou mesmo para que conquistem seu próprio Ph.D. em bioquímica e gastem milhões de seu próprio dinheiro em pesquisa, e assim fabriquem seus próprios medicamentos.
Caso essas pessoas não lhe respondam, faça outro pedido: para que parem de tomar seu tempo e desperdiçar fôlego enquanto continuam sendo "extorquidas" voluntariamente pelas perversas empresas perversas que lhes fornecem suas refeições, os filmes a que elas assistem, e a melhor qualidade de vida da qual elas usufruem.
(Tradução de Breno Nunes)
Ninos P. Malek leciona Economia em San Jose State University, De Anza College (Cupertino, CA), e na Valley Christian High School (San Jose, CA). Este artigo foi originalmente publicado no site do Mises Institute, e é reproduzido aqui com autorização do autor.
NOTA:
[1] A Mentalidade Anti-capitalista, p. 1, Ludwig von Mises.
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