Por que Lula é um desastre em potencial

Por Marco Centeno


Muito se fala agora no temor dos investidores internacionais com relação a hipótese de Lula ser eleito presidente da República.

Claro que imediatamente houve a redução da discussão para o ponto de vista da nacionalidade das partes. Lula foi apresentado como o defensor nacional e os capitalistas internacionais como a ameaça externa querendo interferir nas decisões soberanas do país.

Encarar a questão dessa forma é no mínimo uma leviandade. Se o capital estivesse no exterior e seus ricos donos palpitando sobre como devemos tomar nossas decisões, aí sim teríamos uma afronta a nossa soberania.

Acontece que o capital externo não está sempre externo, às vezes ele está aqui. Seus donos estão lá fora, mas aquilo com que eles se importam está uma boa parte aqui, logo importa sim quem esteja na gestão do país onde suas propriedades estão investidas.

Como poderia ser diferente?

Se você empresta dinheiro para um sujeito, e ele começa a apostar em corridas de cavalo, você fica impassível?

Mas por que essa implicância com Lula? Nossa constituição diz que qualquer pessoa com mais de 35 anos e filiada a um partido pode ser Presidente.

Lula atende a essas condições, mas por que o mercado implica com ele?

Quem começou foi ele. Sem nem conhecer o que é um mercado ele assumiu compromisso com quem pretende aboli-lo.

Mercado é uma soma de decisões individuais livres sobre trocas de bens e de serviços. O mercado existe em qualquer comunidade humana onde exista liberdade.

Mas para Lula e sua gente é diferente, são incapazes de perceber que quando se diz "o mercado quer isso" só o que se está dizendo é que muita gente deseja algo (investir num negócio, comprar determinado bem). É apenas uma figura de linguagem chamada elipse. Esta gente dele, incapaz de captar o que o mercado é na essência (decisões de pessoas livres), cria mentalmente, com base em seus ressentimentos e preconceitos, uma entidade abstrata que personifica o mal e se contrapõe ao poder público, o bem.

Quando se diz por exemplo que o mercado quer que não haja cobrança de determinada taxa sobre certas operações, está simplesmente se dizendo que pessoas que corriqueiramente praticam este tipo de operação, no uso de suas faculdades, poderão deixar de fazê-lo caso se torne desvantajoso para seus negócios. Não há uma decisão isolada voltada a prejudicar quem quer que seja, apenas gente querendo prosperar, e não ter prejuízo. Quando se observa a vontade do mercado o que está se observando é a vontade das pessoas.

A gente do Lula não compreende o mercado mas o detesta tanto que considera seu elemento fundamental como a essência do mal: a Propriedade Privada é um mal, um instrumento de exploração do homem pelo homem e o Estado o redentor.

Ora este raciocínio é pueril e não resiste a um instante de reflexão sensata.

Basta tomar por base o ser humano, indivíduo.

O ser humano necessita de elementos externos para sobreviver. Tendo em vista esta necessidade, o direito se apropriar destes elementos precisa existir também.

Assim, a propriedade privada não é um elemento de exploração do homem pelo homem, mas precisamente o contrário, a única maneira de garantir uma existência livre.

Quando se cria um sistema em que não há o direito à propriedade privada, o que se cria, na verdade, nada mais é do que uma tirania que submete a sobrevivência de um indivíduo ao arbítrio de outrem.

O ser humano na essência é um indivíduo. A propriedade existe para que o ser humano seja livre desde a essência.

Qualquer sistema coletivista tenta perverter esse aspecto da natureza, que reage fazendo com que a essência individual se volte contra a mesma coletividade que visava proteger.

Ou seja, em nome de uma igualdade material já impossível na origem, pois na própria concepção do sistema já se revela uma desigualdade latente necessária para sua imposição, cria-se também uma desigualdade de natureza política, o poder de uma pessoa submeter uma outra à sua vontade, muito mais intolerável.

Qual a natureza das pessoas que desejam que o mundo não se governe pela igualdade política formal e pela liberdade econômica, mas por uma hierarquia de status político que tudo subjuga?

Só pode ser gente da pior espécie.

Qual a natureza dos sentimentos que leva um sujeito a preferir a uma ordem econômica natural surgida de relações contratuais livres e espontâneas uma artificial baseada no arbítrio das simpatias da política?

Isso é sede de poder somada a inveja do estado de mansidão, disfarçadas de caridade (com o alheio ainda por cima).

Uma falsa caridade, que nasce da revolta contra o jeito como as coisas são, dirigida pela inveja contra aquele setor da sociedade que prospera por seus próprios méritos com o fim subjugá-lo.

Daí nascem as mais diversas reivindicações em favor dos revoltados, que lhes dão suporte em força bruta, e cujos custos do atendimento são sempre impostos aos de índole ordeira e pacífica .

Saúde, educação, habitação e uma lista sem fim de aspirações que nada mais são do que bens que podem ser obtidos espontaneamente por livre acordo de vontades na medida do interesse de cada um, quando assimilados pelas insaciáveis reivindicações desta horda, elevada por sua própria força a condição de poder público (seja pelo voto ou não), se transformam em direitos universais oferecidos de um modo indiscriminado, as vezes como imposições irrenunciáveis sem se importar com o desperdício que isso implica.

Isto mais o custo de violência de sua gênese sempre acaba debilitando as estruturas produtivas que se ressentem do golpe gerando novos desamparados (descontentes em potencial) possibilitando que este fenômeno se replique como um vírus nas mentes das pessoas mais propensas a seguirem seus maus instintos, que por fim impulsiona sempre uma nova agressão contra os laços naturais da sociedade sempre com o efeito inverso do prometido pela propaganda demagógica.

Assim, as fileiras de reivindicantes vão sempre engrossando, bem como o número de espécies de reivindicações cujo limite é dado pela imaginação a serviço da inveja e da cobiça, que passam a tomar cada vez mais a forma de exigência, deixando para trás qualquer traço daquilo que um dia pareceu caridade e assumindo sua verdadeira identidade: extorsão.

Por fim, não havendo mais o que assimilar, a produção toda se esgota e o bode expiatório é paradoxalmente quem um dia produziu alguma coisa, justamente por não ter mais nada a oferecer e ainda não estar aninhado em nenhum grupo beneficiário da operação de pilhagem.

Por isto que os investidores estrangeiros estão preocupados com seus investimentos, nem poderia ser diferente. Me admira nós não estarmos.

Mas é injusto dizer que é só culpa do Lula. Os quatro candidatos são desta mesma estirpe, são os quatro cavaleiros do Apocalipse postulando ser quem jogará o país no caos. O Lula é apenas o fim mais rápido, os outros são em maior ou menor medida a lenta agonia.

Todos estão comprometidos com este sistema de pilhagem do welfare-state, que drena o país a pretexto de sua falsa e ostentada caridade com o alheio, em que inexiste o elemento gratidão, só o cumprimento do dever de cidadania.

"Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; de outra sorte não tereis recompensa junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará." Mateus 6, 1.

Talvez não ocorra a esses sujeitos autoproclamados senhores de toda bondade e piedade que o mundo prescinda deles pois já funciona muito melhor com base no que está escrito acima ao invés de seus programas sociais ou redes de proteção, que nada mais são do que desvios da ordem natural das coisas, que, por viciados desde a origem, estão fadados a produzirem sempre muito mais mal do que bem.

O mercado está apreensivo com a eleição brasileira não só porque o Lula está na frente, mas também porque qualquer outra alternativa é igualmente odiosa.

Mas eles têm toda razão para odiar o mercado, pois provavelmente essas "pessoas malvadas e covardes que ficam escondidas no anonimato" praticam a caridade autêntica, esvaziando assim a pretensa utilidade que eles julgam ter.


Página inicial - Busca - Mapa do Site - E-mail