Contra a Guerra, pela Liberdade
Por Miguel Gustavo Lopes Kfouri Jr.
Os verdadeiros defensores da liberdade são aqueles que percebem que a cooperação voluntária, dentro de um livre mercado, é o único sistema de cooperação social compatível com a complexidade da natureza humana. Por isso, essas pessoas sabem que a partir do momento que se restringe esse direito natural, colocando-o dentro de uma moldura político-ideológica - seja ela de que orientação for - institucionalizada num "Estado de Direito", ele inevitavelmente perecerá e, juntamente com ele, o direito à propriedade. Daí para o perecimento do direito à vida é um passo.
E por que é assim? Porque o estado é o monopólio da força e do poder de decidir o que está certo ou errado. É uma máquina feita para impor a sua vontade a qualquer pessoa pela força das armas, e que se arrogou o poder divino de decidir o que é certo ou errado, bom ou ruim, para cada um de nós. Numa palavra, é uma máquina criada para destruir nossa liberdade. Por isso, quanto menor for nossa liberdade, mais poder o estado terá sobre nossas vidas.
O problema é que essa máquina funciona como um organismo artificial que jamais pára de desenvolver-se até virar um monstro gigantesco, destruidor e incontrolável.
A atmosfera mais saudável para o desenvolvimento desse organismo é a guerra. Assim, nesse momento em que tudo indica que haverá um conflito dos EUA com o Iraque, convém refletir um pouco sobre as diversas questões que essa situação nos apresenta, a fim de que possamos ver com clareza as implicações que esse evento terá sobre nossas vidas.
Como se sabe, a iminência de um ataque preventivo dos EUA ao Iraque tem provocado uma discussão acirrada entre os partidários da guerra e os que são contra essa ação militar. No domingo (09.03), a Folha de São Paulo, num de seus editoriais, afirma que a atitude intransigente dos norte-americanos abalou a liderança incontrastável por eles exercida e minou o sistema multilateral (ONU) e as instituições regionais de decisão coletiva (OTAN, OEA) - fundadas com o incentivo dos próprios EUA. Sugere o editorialista que o império norte-americano talvez esteja em decadência.
Adiante, na mesma edição, o articulista Gilson Schwartz ("Guerra no Iraque camufla disputa entre euro e dólar") afirma:
"(...) o que muitos apresentam como um conflito civilizacional entre "Oriente" e "Ocidente", entre "pacifistas" e "militaristas", entre "Jihad" e "MacDonald's" pode não passar de mais um episódio na longa história de disputas entre as principais potências ocidentais.
Asiáticos e islâmicos, que em geral aparecem (e muitas vezes se apresentam) como empreendedores de uma revolução "contra" o capitalismo ocidental, podem novamente estar fazendo o velho papel de bucha de canhão em conflitos sobretudo ocidentais.
As disputas financeiras que se escondem por trás das cotações do dólar e do euro parecem converter a "questão iraquiana" numa bem urdida camuflagem."
Por outro lado, há os que preferem reduzir a questão da guerra a uma disputa ideológica com fundo teológico, enxergando na vaga oposicionista que se alastrou por todo o mundo uma ação concertada da esquerda internacionalista e atéia contra um presidente cristão que quer apenas defender seu país.
Os estudiosos, quando analisam as relações internacionais e seus desdobramentos, costumam dividi-las, para efeitos didáticos, em três planos: econômico, político-estratégico e de valores. As três esferas se interpenetram e interagem. Penso que qualquer análise que se faça da presente situação deve examinar esses três aspectos envolvidos na questão.
Mas um exame como esse dificilmente pode ser feito numa página de jornal, onde os artigos geralmente tem de ser curtos. Talvez por isso, como é possível observar nas opiniões que reproduzi acima, as opiniões a respeito do conflito têm se limitado a investigar apenas aspectos parciais.
Um dos artigos mais completos que pude ler até agora foi do scholar americano Gary North. Em "The End of The Post-War Western Alliance" (O Fim da Aliança Ocidental do Pós-Guerra, publicado no site lewrockwell.com), ele nos apresenta a verdade dos fatos nos seus devidos termos, englobando em sua análise todos os aspectos envolvidos: geopollíticos, culturais, econômicos e estratégicos.
Em síntese, diz ele que, após a declaração conjunta da Rússia, França e Alemanha, de que não permitirão que o CS apóie a guerra dos EUA contra o Iraque, tornando claro que recorrerão, se necessário, até mesmo ao poder de veto que possuem, a aliança ocidental construída após a Segunda Guerra, simbolizada na Organização das Nações Unidas, está acabada. As implicações históricas dessa afirmação conjunta não encontram precedentes. Até a guerra fria, a aliança entre a Rússia e a França operou de forma a manter a Alemanha isolada. Agora estão agindo em conjunto para desafiar a legitimidade da política exterior dos EUA em relação ao Oriente Médio, levando o "Grande Jogo" que se desenrola nessa região a uma nova fase.
O Secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld tentou menosprezar a importância da aliança Franco-Alemã qualificando-a como irrelevante, e dizendo que esses países são parte da "velha Europa". Mas a grande verdade, ressalta North, é que todos esses países, sejam eles da "nova" ou da "velha" Europa, são parte da mesma velha Europa que é branca, "ex-cristã", de um racionalismo ilustrado e que está encolhendo rapidamente. A velha Europa - ocidental, central e oriental - está morrendo. A "nova" Europa é islâmica, e os americanos estão para começar uma guerra com os primos desses novos europeus.
North também destaca que a ONU nunca teve um poder independente. Qualquer ação que ela tomou sempre foi sob as benções dos EUA, que por sua vez sempre usou a ONU como suporte para sua política exterior. O próprio nascimento da ONU simboliza esse fato, pois quando a família Rockfeller doou o terreno onde a ONU foi construída, estabeleceu-se uma aliança entre o "establishment" oriental dos EUA - dominado por internacionalistas como os Rockfeller, que tem sua base de apoio político nos republicanos ligados à indústria petrolífera e que são vinculados a sociedades secretas de corte maçônico (e pertencentes à oligarquia das trezentas famílias que sempre dominaram a história política dos EUA), e o "establishment" (esquerdista e) internacionalista. Hoje, os mesmos republicanos que forjaram essa aliança estão reclamando de que não podem confiar no sistema por eles criado.
A Ásia, com a China à frente, está emergindo como grande potência, e o único caminho que a aliança ocidental sempre vislumbrou para restringir o crescente poder asiático (e de todos os outros países que querem controlar) foi deter as "torneiras" de petróleo.
Os árabes não têm como resistir, pois estão presos na armadilha de seu próprio estado do bem-estar social. Dependem, para suprir seus exércitos, de partes sobressalentes da produção americana. Assim, eles não tem condições de resistir aos EUA, que está querendo voltar à região para extrair um pouco daquela fonte de lucros que haviam perdido. A França e a Alemanha perceberam, em face disso, o que está por vir - uma reação islâmica - e optaram por não participar da empreitada.
O internacionalismo está, pois, se desintegrando, e o exemplo mais evidente disso é que as colônias estão se armando a ponto de poderem até desfiar a oligarquia ocidental. Até há pouco tempo, essa oligarquia mantinha o oligopólio das armas como um clube fechado. Diante disso, só um caminho aparece à frente: o regionalismo. Ásia, Europa e Hemisfério Ocidental, que agora inclui definitivamente a Inglaterra, afastada do continente por seus aliados tradicionais.
Para North, o que ainda tem sustentado esse sistema internacional unido é o sistema bancário de reserva fracionária com base no dólar, que é usado como reserva de valor por bancos centrais de muitos países. Nesse sistema, o dólar é um fator central, pois os bancos centrais têm 70% de suas reservas em moedas estrangeiras investidas em dólares e títulos americanos. Se os bancos centrais em todo o mundo decidirem investir numa moeda alternativa, eles poderiam começar a vender dólares e investir naquela moeda. North acredita que o estabelecimento da aliança Franco-Germânica é também um movimento político contra a libra e o dólar, e que se a China - que já detém 5% do comércio mundial -, tornar sua moeda, o yuan, conversível em ouro, o dólar será imediatamente abandonado. Com efeito, a China possui todos os ingredientes para ter uma moeda forte: uma grande população, um enorme superávit no balanço de pagamento e um PIB de tamanho considerável.
Sua conclusão: nós estamos testemunhando o fim da aliança ocidental do pós-guerra. O internacionalismo está acabado. A ONU, símbolo desse internacionalismo, virou uma confusão que reúne hoje cerca de 190 países. O CS, último emblema da hegemonia do sistema internacionalista ocidental sobre o mundo, está paralisado. O dia da invasão do Iraque será o dia do julgamento da ONU e tudo o que ela representa. Porém, regionalismo é melhor que internacionalismo, e nacionalismo é melhor que regionalismo. Mas localismo é o melhor de todos sistemas.
Sem dúvida, North toca muitos pontos interessantes, mas ainda não no ponto central da questão: não existe paz sem liberdade. E a guerra é o pior inimigo da liberdade. Paz armada, como se sabe, não é paz, pois a qualquer momento seu inimigo pode encontrar um meio de romper o bloqueio imposto pelas armas e causar uma tragédia, como ocorreu nos EUA.
Já Alan Bock, outro jornalista americano, toca exatamente nesse ponto, ao comentar em seu artigo ("What's the Real Key to Our Freedom" - publicado no site antiwar.com), o livro de Robert Higgs "Crisis and Leviathan: Critical Episodes in the Growth of American Government". Segundo Bock, Higgs no adverte que "tempos de crise, mas principalmente de guerra, dá aos governos a licença para invocar poderes emergenciais, aumentar o tamanho dos departamentos e o número de burocratas disponíveis para nos atormentar e 'tirar seu pedaço' do que é nosso, ou seja, fazer tudo o que limita nossa liberdade. Depois que a crise ou a guerra acabam, esses poderes governamentais regridem um pouco, mas nunca retorna aos seus limites originais."
Aí está, a meu ver, a principal razão por que todos os que defendem a liberdade humana não podem se alinhar ao lado dos partidários de uma guerra que é injusta, porquanto não responde a nenhuma agressão sofrida pelo país que atacará o Iraque. Nunca é demais lembrar que se agora o Iraque é a bola da vez, quando os humores dos falcões de Washington mudarem, poderá ser o Brasil, pois nosso governo também tem feito vistas grossas à ação dos terroristas das FARC que operam no país. Demais, esse grupo guerrilheiro não tem hesitado em seqüestrar americanos e abrigar terroristas islâmicos, o que não torna essa hipótese implausível.
Como bem observa LewRockwell ("What You Should Know About the War and the Economy" - lewrockwell.com), "[A] Liberdade torna possível que pessoas de diferentes tradições religiosas e culturais possam encontrar um denominador comum. O comércio é o grande mecanismo que permite a cooperação em meio a uma diversidade radical. Ele também é a base para o desenvolvimento da fraternidade entre os homens. É a chave para a paz. Ele nos permite pensar e agir local e globalmente."
Portanto, se queremos um mundo mais livre, pacífico e próspero, onde nossos direitos sejam respeitados e não espoliados, devemos lutar contra o inimigo correto: o Estado controlador das massas, que, depois do demônio, é o maior produtor de guerras, destruição, pobreza e corrupção moral que a história já conheceu.
miguelgustavolopes@zipmail.com