Meus Filmes de 2001

Por Álvaro Oppermann


Já é uma tradição da crítica de cinema começar um texto de retrospectiva de fim de ano com palavras tipo "apesar de nenhum filme ter sido digno de nota nesta temporada, os meus favoritos foram…".

Para honrar esta tradição, devo dizer que em 2001 nenhuma estréia cinematográfica conseguiu me entusiasmar verdadeiramente, com a provável exceção de "O Vento nos Levará" (1999), de Abbas Kiarostami.

Abbas Kiarostami é um diretor genial, que cria seqüências deslumbrantes, tão naturalistas na aparência quanto cuidadosamente coreografadas na realidade. O diretor usa toda a sua arte para esmiuçar a crise espiritual moderna. Seu tema é o choque do Irã ocidentalizado com o Islam; trata do rompimento traumático do homem contemporâneo com a sociedade tradicional. Em conseqüência, retrata homens ocos, cegos e desorientados. Homens que, tragicamente, recusam a religião revelada, que seria para eles uma tábua de salvação.

A desorientação espiritual, por sinal é o tema de três outros filmes que, a meu ver, se destacaram em 2001: "Amnésia", "O Estranho" e "Harry veio para ajudar". Em "Amnésia" (Memento, 2000), de Christopher Nolan, o tema está óbvio e patente, na história do sujeito desmemoriado que busca vingar a morte de sua mulher. Em "Harry" (Harry, un ami qui vous veut du bien, 2000), de Dominick Moll, a desorientação da personagem principal - Michel Pape, o escritor, e não Harry, seu amigo e mecenas - nasce do desconhecimento de sua vocação e da sua própria natureza. Analisei detalhadamente estes dois filmes para a coluna eletrônica de cinema que escrevo regularmente na Superinteressante, a Cinemascope, logo convido o leitor a ler as respectivas críticas no site da Super. Sobre "Amnésia", também sugiro a leitura do artigo "A Dama Comprida de Bem", do Martim Vasques da Cunha, aqui n´O Indivíduo, e "Everything you wanted to know about Memento", do Andy Klein, na Salon.

Assim como em "Amnésia", a desorientação das personagens de "O Estranho" (The Limey, 1999) se reflete na estrutura do filme. Se "Amnésia" era contado em duas linhas de tempo paralelas que acabavam se encontrando, "O Estranho" é narrado em flash backs e flash forwards, numa mistura alucinante de tempos. Mistura alucinante, mas lúcida. A estrutura, criada pelo diretor Steven Soderbergh e pelo roteirista Len Dobbs, é perfeita para mostrar um mundo que se desintegra, o da contracultura e do glamour dos anos 60 da Califórnia.

O destino das personagens destes três filmes é trágico. Uma ponta de esperança surge no filme vietnamita "Luzes do Verão" (Mua he chieu thang dung, 2000), de Tran Anh Hung. Foi um filme que não me impressionou na primeira vez que o vi. Só fui entendê-lo, para falar com franqueza, ao ler o comentário do Alvaro Velloso de Carvalho a seu respeito (não, leitor, não estou querendo rasgar seda, é a pura verdade). Reproduzo abaixo algumas palavras do Alvaro sobre o filme:

"Luzes do verão" é um filme sobre a fragilidade humana e a dificuldade de comunicação entre os seres humanos, sobre a dificuldade de manter vivo um relacionamento - seja amoroso, seja familiar - mas é também um filme sobre o valor da persistência, da paciência e da esperança; o que, de certa forma, é uma excelente metáfora da vida em um país devastado pelo comunismo que, agora, começa a se reerguer. (…) Nos filmes de Tran Anh Hung , o tempo é cíclico, exatamente como na vida: não há uma linearidade absoluta, porque diversos elementos se repetem, e não há uma circularidade absoluta, porque não existe uma repetição contínua dos mesmos elementos; há uma combinação de repetição e inovação, de circularidade e linearidade, e é este ritmo que dá a "Luzes do verão" um efeito quase hipnótico, porque, para usar um lugar-comum, é como se a vida falasse. Como na vida, uma moldura essencial permanece, e se repete dia após dia, mas algo muda dentro dessa moldura.

Finalmente, não poderia deixar de citar "Amor à flor da pele" (Hua yang nian hua, Hong Kong, 2000) de Wong Kar-wai, uma belíssima história de amor contada sem arroubos, como se o diretor tivesse recato de mostrá-la por inteiro. É justamente desse ato de escondê-la que vem a sua intensidade.

Um ano e seis filmes. O inventário de 2001, no entanto, ainda não terminou. Perdi nos cinemas tanto o taiwanês "Yi Yi" quanto o iraniano "Tempo de Embebedar Cavalos", que terão de ser avaliados em vídeo. Os também iranianos "O Círculo" e "A Caminho de Kandahar" ficaram para ser vistos esta semana. Outros filmes elogiados não estrearam em Porto Alegre, de onde escrevo: "Qianxi Mambo", do Hou Hsiao Hsien; "O Quarto do Filho", do Nanni Moretti; a nova versão de "Apocalypse Now", do Francis Ford Coppola - aguardada ansiosamente por mim -; e "Mestre de Armas", do fantástico Ermano Olmi. Além do nosso "Lavoura Arcaica" (a esperança é a última que morre).

Isso para não falar de duas ausências lamentáveis nas telas brasileiras, os inéditos do Woody Allen "Small Time Crooks", de 2000; e "The Curse of the Jade Scorpion", de 2001.

Para terminar o artigo, devo fazer uma menção a "Harry Potter e a Pedra Filosofal". Apesar de bem dirigido por Chris Columbus, apesar de ser tecnicamente brilhante, não são estes os motivos que me levam a mencioná-lo: o que o torna, na minha opinião, digno de nota é a sua coragem. Coragem de não se intimidar frente ao ambiente de sofisticado cinismo dos ambientes dos "bem pensantes". Coragem de ser, na contramão de Hollywood, um filme sobre virtudes fora de moda como a honestidade, a camaradagem e a bondade. É um filme que diz em alto e bom som que a função principal da educação é elevar o homem, libertá-lo de sua condição animal para aproximá-lo de Deus. Não é outra, também, a função da arte.


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