Os Inimigos do Povo

Por Rodrigo Szüecs


"O projeto do PT é conquistar o poder (não só o governo) para transformar o Brasil numa sociedade democrática (sic) e socialista. Para acabar com o capitalismo e iniciar a construção de uma sociedade socialista, é necessário, em primeiro lugar, realizar uma mudança política radical: (...) promovendo uma verdadeira revolução democrática no Brasil".
Bancada Estadual do Partido dos Trabalhadores (www.pt-rs.org.br/docs/oqueept.htm)

Diante dos argumentos de que o PT é um partido tão revolucionário quanto o PCO ou o PSTU, seus fiéis (pois esse é o termo correto para aqueles que fazem parte do novo credo político que causa uma comoção religiosa juntamente com seu messias que traz a promessa de um "Novus Ordo Saeclorum" ) parecem ter encontrado na aliança com o PL representada na figura do vice José Alencar, a resposta definitiva de que o PT é um partido moderado e de centro.

Esse raciocínio traz a idéia de que alianças políticas são tão irrevogáveis quanto as leis da física. Pois nada é tão efêmero e enganoso quanto essas alianças, pois na busca pelo poder, a dissimulação e a mentira são elementos essenciais. E a aliança de um partido de esquerda com um partido "burguês" é exatamente a prova de que esse partido é radical e não moderado, como nos lembra Sergio Coutinho:

" Logo depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956 nasceu uma nova versão da revolução marxista-leninista que ficou conhecida por Via Pacífica para a tomada do poder nos países não comunistas. Em síntese, a via pacífica ou etapista é uma alternativa ao assalto direto ao Estado, recomendando que a revolução socialista seja realizada em duas etapas. Na primeira, denominada Revolução Nacional-Democrática, o partido revolucionário usa as franquias democráticas do país e desenvolve uma ação política aparentemente legítima para conquistar o governo pela via eleitoral.
Esta fase política admite alianças com todas as tendências de esquerda e mesmo com organizações burguesas de centro e de direita para eleger um candidato próprio e estabelecer um Governo Popular-Democrático, um Governo de Coalizão, Governo dos Trabalhadores ou com qualquer outro nome de fachada, conforme a conveniência ou tendência política do Partido hegemônico.
"A segunda etapa, denominada Revolução Socialista, é aquela em que o partido ou frente elabora a "acumulação de forças" e cria as "condições subjetivas e objetivas" para realizar o "salto qualitativo", ato de força (golpe-de-estado ou violência armada) para tomar o poder pleno, implantar a Ditadura do Proletariado e impor a nova ordem socialista."

A aliança do PT com o PL é a prova de que o partido dos trabalhadores é tanto mais extremado quanto mais se aproxima de seu oposto ideológico; mas a febre esquerdista já contaminou a sociedade e como sequela, nos legou a cegueira. A idéia de quem detém poder econômico, detém o controle da sociedade, cria a idéia de que José Alencar e sua empresa com capital aberto na CVM poderiam evitar uma tomada de poder pela esquerda. Se fosse assim, a primeira coisa que uma revolução faria seria tomar os bancos, e não o exército e as armas da população.

O que aconteceria com José Alencar se houvesse uma efetiva tomada do poder pelo PT, estilo bolchevique, após a primeira etapa? Bom, de duas uma: Ou ele iria pro beleléu, junto com todos os industriais e empresários e teria sua empresa estatizada, ou então seria inserido na burocracia estatal e teria a melhor das vidas que um mortal pode ter: ser um membro da nomenklatura. Exterminada a concorrência, controlaria a produção têxtil do país; uma situação que não existiria em um ambiente de livre concorrência, o que prova que o monopólio só pode ser exercido com a proteção estatal, pois em um mercado livre, quem pratica preço "predatório" vai a falência antes dos seus concorrentes. Mas a euforia da produção coletiva duraria até o Partido secar o rio Amazonas, desviando seu curso para o Nordeste para irrigar as plantações de algodão, que forneceriam a matéria prima para a indústria socialista cumprir sua meta de produção de roupas e onde trabalhariam milhares de pessoas em situação de igualdade: são todas exploradas igualmente pelo Partido e pelos seus burocratas. Uma vez que a meta não fosse cumprida - e ela realmente não seria, pois na falta de um sistema de preços e relação custo/benefício, a produção é escassa ou excedente e neste caso ela apodrece - alguém ia parar no paredão para servir de exemplo ou seria mandado para as minas de ouro da Amazônia, que agora seria o maior brejo do mundo depois que as políticas do Partido secaram o rio, acabando com o equilíbrio ecológico, espalhando epidemias para a população.

Mas de qualquer maneira se um governo do PT falhar, seja uma administração de extrema ou de centro esquerda, a aliança com o PL vai salvar a imagem do partido e da esquerda em geral. Foi assim em todo governo socialista: a incapacidade inerente ao sistema de coletivização dos campos e indústrias para gerenciar os recursos naturais é culpa da "contaminação burguesa" no método de produção, e não da aplicação estrita da teoria coletivista (o maior desastre ecológico do século XX, a seca completa do mar Aral no Uzbequistão pela União Soviética, é a prova concreta de que o sistema socialista para gerenciar os recursos naturais é verdadeiramente um desastre). Só que a culpa pela ineficiência da produção de bens e alimentos não pode nunca ser de um governo "democrático e popular" ; não, a culpa é dos inimigos do povo, daqueles que não romperam com a mentalidade burguesa e continuam alienados pelo discurso da liberdade de expressão e insistem em criticar os métodos do governo; a culpa é daqueles que já exauridos em suas capacidades físicas devido ao trabalho escravo, ainda assim não trabalharam o suficiente. A ineficiência que no capitalismo resulta em demissão ou falência, no regime socialista é recompensada com a morte.

O movimento dialético da sociedade - Tese/Antíntese/Síntese - assim teorizado por Hegel e incorporado por Marx, justifica toda a ação do governo socialista e suas consequentes catástrofes. Assim funciona o discurso esquerdista em relação a política stalinista: O stalinismo, por ter criado um Estado monstruoso, perverteu a teoria marxista que visava a destruição do Estado por ser uma construção burguesa. Mas se a história é superada dialeticamente pela próxima fase histórica, como negar que Stálin agiu sabendo perfeitamente que sua antíntese leninista-marxista seria superada na síntese seguinte, e assim em diante até o comunismo? Como negar que todas as ações da esquerda, por mais desatrosas que sejam, nunca serão atribuídas aos seus governos pois tudo não passa apenas uma etapa dialética na destruição do capitalismo e na realização do comunismo, nem para que isso se mate em escala industrial, aparentemente o único modo de produção em larga escala que parece funcionar no socialismo?

A contaminção burguesa do PT pela sua aliança com o PL é desde já a desculpa de todos aqueles que irão justificar o fracasso do governo petista, e irão pedir por medidas mais intervencionistas e menos liberais, aumentando assim o controle da esquerda sobre a sociedade. E, novamente, os inimigos do povo irão pagar pelo fracasso socialista.


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