Liberalismo pouco cordial

 

Nos nossos tempos (refiro-me aos anos 90), o único livro a desafiar o establishment foi "O Imbecil Coletivo", do professor Olavo de Carvalho. Na época de seu lançamento, muitos tomaram o título do livro como um insulto à inteligência dos personagens retratados, não obstante o aviso do próprio autor: "o imbecil coletivo não é a mera soma de um certo número de imbecis individuais. É, ao contrário, uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem movidas pelo desejo comum de imbecilizar-se umas às outras."

Em outras palavras: os intelectuais brasileiros não são imbecis; mas existe alguma coisa na vida intelectual nacional que faz com que esses mesmos intelectuais, quando reunidos, produzam tolices monumentais. Nenhum deles tem coragem de apresentar um pensamento individual, fruto de um esforço pessoal; eles preferem agarrar-se aos mesmos lugares comuns coletivos, para não parecerem estranhos ao resto da patota – e isso cria o fenômeno da imbecilidade coletiva.

Digo tudo isto porque a idiotice desta semana vem de um sujeito que pode ser qualquer coisa menos idiota. O sr. Daniel Piza tem inteligência muito superior à média dos intelectuais nacionais. O que justifica, então, sua presença nesta coluna?

Em primeiro lugar, esta coluna trata de idéias, não de pessoas. É a idiotice, não o idiota. Em segundo lugar, recorremos à explicação do prof. Olavo: o intelectual brasileiro torna-se progressivamente incapaz de vir a público dizer algo que não seja do agrado de seus colegas. Sempre há o temor de ser mal interpretado, ou de desagradar à facção política que ele julga representar.

A facção do sr. Piza nem mesmo é majoritária: são aqueles poucos liberais céticos ao estilo H. L. Mencken e Paulo Francis que ainda restam. Mesmo assim, Francis e Mencken não tinham pudor de desagradar a todos, se fosse necessário. Piza, talvez pela pouca idade (mas quem sou eu pra falar nisso?!), ainda não conquistou tanta independência.

Pois é só mesmo o desejo de agradar que leva alguém a escrever o que ele escreveu em sua coluna na Gazeta Mercantil de sexta-feira, 13/11/98:

Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda foram extremamente perniciosos ao Brasil. O primeiro, pelo mito da boa convivência racial; o segundo, pelo mito do brasileiro como homem cordial. Existe racismo no Brasil, sim, e o aumento da mestiçagem não resolve o problema, mas pelo contrário, o agrava.

Aí está, caros colegas. Segundo ele, o "homem cordial" é um mito. Bom, acho que o sr. Piza não sabe do que se trata (ou finge não saber). Quem deu a explicação definitiva sobre essa expressão foi o mais inteligente historiador brasileiro vivo, Evaldo Cabral de Melo. "Homem cordial" é aquele que antepõe a emoção à razão. O brasileiro reage emocionalmente, antes de reagir intelectualmente; em sua vida particular, prefere proceder de acordo com os apelos sentimentais a ouvir a voz da razão.

Para quem quer que viva no Brasil há mais de seis meses, isso é sumamente óbvio (tá, pode não ser em algumas áreas de São Paulo – vamos dar um desconto ao Piza). O brasileiro prefere esquecer que está certo, se estar certo o fará perder um amigo. O brasileiro tem uma abertura imediata para o diálogo, é normalmente bem humorado e de boa convivência. Andem cinco minutos de metrô aqui no Rio e vão comprovar isso imediatamente.

Agora, isso é a constatação de um fato. Dizer "o brasileiro é o homem cordial" é apenas constatar uma nota essencial do caráter nacional. Não é atribuir a essa nota uma conotação positiva ou negativa; não é um juízo de valor.

Desta forma, dizer que Sérgio Buarque nos foi prejudicial porque constatou esse fato é uma imensa tolice. Ele poderia ter sido prejudicial se tivesse operado com juízos de valor, isto é, se tivesse dito que "ser o homem cordial é lindo" ou que "ser o homem cordial é a ruína do brasileiro". Constatar um fato não pode causar nenhum prejuízo à cultura de nenhum país, em nenhum momento.

Mas a coisa fica pior no caso do Gilberto Freyre: já está começando a ficar chato esse negócio de todo mundo dizer que Freyre era um canalha porque disse que o Brasil não era racista.

Os argumentos dos defensores da tese do "racismo brasileiro" são normalmente dois: (1) a situação social do negro no Brasil é muito ruim; (2) existem "preconceitos ocultos", um "racismo implícito e inconsciente" na nossa sociedade.

O (1) é falso porque a situação do negro no Brasil deve-se ao fato de que a nossa industrialização só ocorreu 40 anos depois da libertação dos escravos. No meio tempo entre a libertação e a industrialização (e conseqüente criação de empregos), a população negra cresceu sem que houvesse um mercado de trabalho para absorvê-la. Agora, isso aconteceu por causa das condições econômicas da época; não foi um plano maligno arquitetado por algum racista nojento.

O (2) é absolutamente ridículo, porque o que o não se manifesta conscientemente é precisamente aquilo que a consciência reprime. Desta forma, se existem preconceitos inconscientes é precisamente porque conscientemente eles não existem, ou são rejeitados. É óbvio que existem racistas, e sempre vão existir, porque isso é uma infantilidade típica do ser humano, mas esses racistas, no Brasil, não têm nenhuma repercussão sociológica. Nunca houve, por aqui, perseguição sistemática a negros, Ku Klux Klan, ou bairros onde negros não podem entrar – precisamente porque o nosso instinto é o da convivência, não o da segregação, e porque somos "homens cordiais".

Mas o caso do sr. Piza é mais estranho: ele não apresentou os dois argumentos acima. Ele simplesmente não apresentou argumento nenhum. Ele pretende que o leitor se fie exclusivamente na autoridade dele: se Piza diz, assim é. Há muito eu não via o argumento de autoridade levado tão longe (exceto no próprio caderno da Gazeta que o sr. Piza dirige, num artigo assinado por Luiz Antonio Giron). Essa é a estrutura argumentativa que ele usa: o Brasil é racista porque eu estou dizendo que é. Existe racismo no Brasil porque eu digo que existe. Eu faço, eu aconteço; eu prendo, eu mato, eu arrebento! – parece bradar aos leitores o sr. Piza, desesperado para aparecer como belo defensor da causa dos negros.

Como se vê, Piza tanto despreza o que ele chama de "mito" do homem cordial que acaba incorrendo na pior das conseqüências dessa característica nacional: não argumenta racionalmente, mas emocionalmente. Não trata a questão com seriedade; deixa-se levar pelo impacto de frases feitas e lugares comuns, que, ele imagina, conferirão credibilidade imediata ao que diz.

Para não me acusarem de ser injusto, analisemos a estranha frase que ele produziu depois de berrar que o Brasil é racista sim, e que pode valer como arremedo de argumento. Segundo essa frase, a mestiçagem piora o racismo brasileiro. Pensando melhor, seria menos constrangedor para o sr. Piza não ter dito nada...

Vejam bem: um mestiço não surge por geração espontânea, nem por algum processo de degeneração genética. Um mestiço surge da união sexual de pessoas de raças diferentes. Não sei quanto ao sr. Piza, mas eu não costumo me "unir sexualmente" com pessoas de quem não gosto – menos ainda com pessoas cuja raça odeio. É o óbvio do óbvio que, se existe um alto grau de mestiçagem (e a esmagadora maioria da nossa população é mestiça), é porque existe um alto grau de íntima convivência entre as raças. A não ser que o sr. Piza ache que os brancos brasileiros odeiam tanto as negras que querem f... com elas...

Mas eu disse lá em cima que é explicável o fato de o sr. Piza, um homem inteligente, ter dito tanta besteira. E alguns leitores podem não ter atinado com a identidade do que ele disse com a ideologia liberal-cética-progressista. Explico.

Quando se trata de pôr a ideologia no meio, o intelectual começa a meter os pés pelas mãos. Um ideólogo nunca está falando por si, mas por um grupo político. E a consciência individual dele, nesse momento, fica reprimida, em nome da abstrata "consciência coletiva".

Não existe nada que a ideologia do sr. Piza odeie mais do que o cordialismo brasileiro. O que eles admiram é a frieza americana, é a "eficiência" dos nossos irmãos do Norte. Repugna-lhes a idéia de uma sociedade tão esculhambada e afetiva como a brasileira.

É natural, pois, que o sr. Piza tente negar essa afetividade. É natural que seu cérebro se recuse a registrar o fato, simples, de que aqui no Brasil as raças dialogam na cama. Ele preferiria que elas "dialogassem" nos tribunais, como nos EUA.

Evidentemente, a cordialidade brasileira tem conseqüências negativas. Tudo aqui parece piada, nada nunca é levado a sério, a nossa vida intelectual fica reduzida ao plano retórico e existe um desejo instintivo de adotar qualquer besteira só para não desagradar aos outros. Mas foi essa cordialidade que nos deu a receita para a boa convivência racial, e é essa cordialidade que dá à nossa cultura uma nota distintiva em relação às outras culturas. É essa "geléia geral" que nos dá um caráter diferente, mais leve, mais divertido. Os liberais odeiam isso, porque para eles o valor supremo é a eficiência econômica. O brasileiro, ao contrário, prefere perder um pouco de dinheiro e ajudar um amigo; prefere dar presentes mesmo que não tenha dinheiro para isso; e prefere resolver as questões por si só, em vez de recorrer aos tribunais. Tudo isso é muito pouco eficiente economicamente, e muito pouco "moderno".

Para embarcar na "modernização" liberal, será preciso, pois, que renunciemos aos traços distintivos da nossa cultura e de nosso caráter. Será preciso abandonar a cordialidade, e adotar o egoísmo (que os economistas tanto idolatram). E Daniel Piza já dá o primeiro passo e mostra o caminho: negar que exista boa convivência entre os brasileiros, para, assim, começar a criar fissuras nessa convivência, semear a discórdia e tornar o Brasil uma sociedade tão dependente dos tribunais quanto os EUA.

Nessa trilha rumo à modernização progressista, os liberais contam ainda com a ajuda dos movimentos esquerdistas de defesa dos negros, movimentos tão burros que nem mesmo sabem a quem servem (e ainda se dizem contra a globalização). Por contar com essa ajuda enorme, é raro que eles venham a público dizer as coisas que disse o sr. Piza. O trabalho sujo, como sempre, fica com a esquerda – e a grana, no final, com a direita.

Enquanto isso, assistimos atônitos à progressiva mudança em nossos hábitos, por esse esforço conjunto de transformação da mentalidade nacional. E pode ser que quando a maior parte da população se der conta do que fizeram com suas vidas, já seja tarde demais.

(Alvaro R. Velloso de Carvalho)