Betto versus Marcelo: quem perde é Jesus Cristo

 

Verdade que a disputa pela idiotice desta semana foi acirradíssima. Mas o nosso contemplado é sempre um candidato muito forte; perto dele, todos os demais empalidecem. Como já disse antes, ele merecia uma home-page inteira para suas idiotices, de tão significativas que são do estado mental de nossos intelectuais – especialmente daqueles que se dizem religiosos.

Sim, é provável que os leitores já tenham adivinhado que me refiro a "frei" Betto, Carlos Alberto Libânio Christo, frei tão sincero e verdadeiro quanto uma nota de três reais. Bettinho ocupou, em companhia de um anúncio, a página de artigos da Bolha de São Paulo do dia 20/11/98, sexta-feira.

Vamos tentar analisar o artigo do nosso amigo como comíamos mingau quando crianças: começando pelas beiradas para chegar ao centro. A comparação com o mingau, aliás, diz muito sobre a consistência das idéias do sr. Betto/Libânio.

O artigo era uma carta aberta dirigida ao padre Marcelo Rossi, o novo popstar da Igreja – ou, como diz um amigo meu, a Scheila Carvalho da Igreja. Quem é pior nessa história, eu ainda não sei. Mas fiquemos, por ora, com o Betto, que pelo menos já conhecemos bem. Ele começa o artigo dizendo que o assusta ver um padre popstar. E logo depois diz: "Preocupa-me ver religiosos que fogem da imprensa como o diabo da cruz." Pelo que se vê, como conselheiro, Bettinho sai-se ainda pior do que como frei. Onde é que já se viu dar conselhos tão contraditórios? Afinal, Betto quer que o padre apareça na tevê ou não?

A resposta está logo adiante. Ele diz que a mídia tanto pode ser usada para o bem como para o mal: "Desconfie da mídia que se dobra à sua presença e não suporta ouvir os nomes de d. Hélder Câmara, d. Paulo Evaristo Arns e d. Pedro Casaldáliga. Essa mídia não quer o Evangelho. Quer uma isca que atraia maior audiência. Mais audiência significa ampliar a veiculação de clipes publicitários -formar consumidores e não cidadãos. Muito menos cristãos." E aí se esclarece o sentido mais superficial do artigo de "frei" Betto, que se resume a uma palavra: inveja. Explico.

Betto sabe perfeitamente bem que sua frase é uma mentira deslavada. Ele sabe muito bem que, se houve eclesiásticos em quem a mídia prestou atenção, foi nesses pseudo-eclesiásticos que ele cita. Se houve bispos popstars, foram Hélder, Arns e Casaldáliga. Se houve gente que dava tudo para aparecer nas primeiras páginas dos jornais, foram eles – e os jornais sempre corresponderam a suas expectativas. A completa ignorância religiosa predominante nas redações contribuiu para que a imagem dos cristãos no imaginário popular correspondesse a esses comunistas ateus, sempre dispostos a negar os dois mil anos de Igreja em nome do marxismo ou das mais recentes diretrizes do Partido.

Mas, se Betto sabe disso, por que diz ao padre Marcelo que a mídia é muito má com seus pobres companheiros de ideologia? É simples: a teologia da libertação está saindo de moda. Daqui a pouco, esses padrecos vão aparecer só na Caros Amigos, e vão ter que se dar por satisfeitos. Os setores ditos "conservadores" da Igreja, que sempre foram condescendentes com essas estripulias comunistas e nunca tiveram coragem de combatê-las de frente, agora acabam de encontrar o jeito mais prático de sumir com elas: defender o movimento carismático. E Betto sabe perfeitamente bem que o movimento carismático tem muito mais apelo midiático do que a chorumela das viúvas de Stálin, e é por isso que ele quer converter o padre Marcelo às comunidades eclesiásticas de base.

Agora, antes de avançarmos, que o leitor entenda o seguinte: não estou defendendo, nem por um instante, a substituição da teologia da libertação pelos carismáticos. Ambos são desvios grotescos no catolicismo, e, cada qual a seu modo, são de um ridículo insuperável. Não há nada no padre Marcelo Rossi que o faça mais confiável do que Libânio e seus asseclas. Há até um trecho muito sensato no artigo de Libânio, onde ele critica o excesso de sentimentalismo do movimento carismático, e lembra que não há nenhuma oposição entre a fé e a razão – isso seria melhor ainda se a razão dele funcionasse de alguma forma.

Claro, não é só por saber estar perdendo espaço na mídia que Libânio quer que o padre Marcelo venha a público se confessar esquerdista. Existe um fundo doutrinário nessa história toda, e é justamente isso que torna o artigo de Betto tão ridículo. Vejam só o que ele diz: "exaltados devem ser Jesus e sua mensagem: a solidariedade, a justiça para com os pobres, a denúncia das injustiças, o amor aos excluídos e a utopia de uma nova ordem das coisas, consubstanciada na categoria do Reino de Deus."


Impossível conseguir uma síntese mais perfeita da doutrina dos padres latino-americanos esquerdistas. Descontado o estilo caracteristicamente trôpego, o que o mais falso dos freis está dizendo é que Jesus Cristo veio apenas prenunciar o esquerdismo, o qual, por sua vez, tem sua realização mais plena nele mesmo – frei Betto. Não há nada nas palavras de Betto que recorde, por mais vagamente que seja, os Evangelhos. Tudo nelas remete apenas às palavras de ordem berradas em passeatas por estudantes semi-letrados, à plataforma política do PT e – porca miséria! – à pauta de assuntos da ONU.

Sabemos, por exemplo, que o que Betto entende por "solidariedade" é ou a disseminação nas escolas do método de alfabetização Paulo Freire, no qual Ivo aprende não a ver a uva, mas a interpretá-la segundo a ideologia marxista; ou ainda as doações numerosas a ONGs encarregadas de fazer caridade e aliviar a consciência daqueles que têm nojo de mendigos e, incapazes de dar esmola por conta própria, recorrem aos serviços das ONGs.

E é muito engraçado que ele misture "denúncia das injustiças" com "justiça para os pobres". Já mostrei, em "idiotice" anterior, que a "justiça" de que fala "frei" Betto é oposta à do Cristo; que a mensagem cristã diz respeito ao anseio interior de justiça, ao desejo que temos de ser justos, enquanto a "justiça" libânica é a dos fariseus, que acusam os outros publicamente ao mesmo tempo que são incapazes de fazer uma auto-análise moral. E nada poderia ser mais elucidativo dessa diferença do que o termo que Libânio utiliza: "denúncia". Agora, pergunto aos leitores do Evangelho: alguém já viu Jesus Cristo dizer coisa semelhante? Pelo contrário, quando vieram reclamar com Ele dos impostos, Sua resposta foi: a César o que é de César. Já "frei" Betto não conhece outro mundo que não o de César. A justiça que ele quer é a tal de "justiça social", que ninguém até hoje foi capaz de explicar em que consiste. O conceito é mais ou menos o seguinte: tirar dos ricos para dar pros pobres. Não importa que isso contrarie os mais elementares conceitos econômicos modernos, que claramente mostram que é impossível o sistema capitalista progredir na base da exploração dos mais pobres pelos mais ricos.

Esse limitado horizonte mental de Betto é comprovado pelo último termo da "mensagem cristã" (e agora me lembro do Meira Penna, que se referia à teologia da libertação como "O Evangelho segundo Marx" – esse é o ponto). Betto acha que o "Reino dos Céus" de que falava o Cristo é uma utopia simbólica, que deve servir de guia para a reforma da sociedade. Claro que isso é coisa de débil mental. O "Reino dos Céus", para o cristão, não tem nada de utópico. Pelo contrário: é muito mais real do que o mundo onde vivemos. É a nossa verdadeira pátria, a nossa morada eterna, enquanto este mundo é fugaz e transitório. Os atos do cristão se dirigem à conquista dessa verdadeira pátria, e não à satisfação dos interesses políticos próprios a este mundo, que é o reino de César.

A César o que é de César; a Deus o que é de Deus – palavras já tão esquecidas nos meios católicos que fica até parecendo esotérico falar delas. Bettinho & cia. são apenas os aspectos mais grotescos do esquecimento dessas palavras. Mas ele invade toda a vida da Igreja contemporânea: das sucessivas "desculpas" do papa João Paulo II à exaltação dos movimentos carismáticos (tudo para agradar ao reino de César). O resultado é que a Igreja católica virou um arremedo de protestantismo, em que seitas heréticas se degladiam umas com as outras, e todas concordam apenas num ponto: o desprezo pela tradição católica.

(Alvaro R. Velloso de Carvalho)