O grampo e a imprensa

 

A idiotice desta semana vem de fonte insuspeita, mas revela muito bem o estado de espírito de boa parte da população brasileira diante do recente "escândalo" dos grampos, envolvendo Mendonça de Barros e André Lara Resende.

Em artigo publicado no O Globo de 27/11/98, o jornalista Luiz Garcia discute a frase do presidente Fernando Henrique Cardoso de que a imprensa está indo longe demais em seu poder, e que isso precisava de uma regulação – não em termos legais, mas em termos de consciência.

Ao jornalista, essas palavras já pareceram tentativa de censura da imprensa. Ele, com efeito, refere-se à auto-regulamentação da imprensa com ar cético e nitidamente sem crer nisso. Acha que os jornais devem divulgar todos os fatos que chegam, desde que tenham "preocupação ética".

Desde a campanha do Betinho, sabemos que o termo "ética" adquiriu conotações muito peculiares no vocabulário corrente nacional. De uma disciplina filosófica dedicada ao estudo do bem e do mal, ou do bem agir, passou a ser um termo bonito para o discurso acusatório de denunciação da corrupção; de um instrumento de auto-análise, transformou-se na arma pela qual se expõe à execração pública os bodes-expiatórios da vez. O sacrifício do bode expiatório, como explica René Girard, alivia a culpa do restante da sociedade e permite que ela fique com a própria consciência em paz, ao expiar suas culpas através daquele "emissário" do ódio coletivo. E é para isso, com efeito, que a "ética" tem servido. Uma temível inversão do papel.

E uma bela aplicação disso foi vista no caso do Mendonça de Barros. Ninguém está aqui dizendo que a imprensa não deveria divulgar o caso. Apenas, vejam só o que diz Luiz Garcia:

"Não adianta brigar com os fatos. Mendonça de Barros e André Lara Resende caíram numa armadilha armada por chantagistas – mas só ficaram presos nela porque se amarraram com as próprias línguas. E o Palácio do Planalto, ao cometer a imprudência de achar que é possível guardar segredos em Brasília, perdeu o controle dos acontecimentos."

Isso é simplesmente inacreditável. Alguém grampeia conversas internas de ocupantes de altos cargos da República e um jornalista acha isso perfeitamente normal. Alguém lança na imprensa acusações inteiramente infundadas baseadas numa escuta clandestina e o jornalista aplaude! – e ainda reclama do Palácio do Planalto, que cometeu uma "imprudência", ao achar simplesmente que grampo não é fonte legítima de acusação (coisa, aliás, fundamental num Estado de Direito).

O episódio do grampo evidencia a existência de um poder paralelo atuando em Brasília, com acesso direto a conversas internas do Planalto, e influência direta sobre a imprensa. É esse poder paralelo que dá a tônica dos debates políticos, que fornece os "escândalos" de que se alimentam as revistas Veja e Época e que vão abastecer a opinião pública de novas doses de "ética" no sentido "betínico" do termo.

As declarações presentes no grampo não evidenciam nada, não provam nada. Uma cobertura decente na imprensa teria mostrado isso – teria feito uma correspondência entre o que eles falaram e o que realmente aconteceu. A empresa teoricamente favorecida perdeu o leilão, e a acusação de tentativa de elevar o preço do leilão não faz sentido, porque o ministro não é parte isenta, mas parte interessada – interessada em nome do Poder Público, para que o leilão renda o máximo possível (e o leilão foi realmente um sucesso inegável).

Por outro lado, é muito mais grave que exista alguém com esse poder nas mãos: afinal, o grampo foi feito em nome de quem? Com que objetivo? Qual a sua origem?

Essas perguntas a imprensa não se fez. E ainda vem dizer que simplesmente "expôs os fatos"! Não, o que os veículos – Veja à frente, como sempre – fizeram foi lançar mais dois bodes expiatórios para o ódio público. Leiam a seção de cartas de Veja desta semana e verão como eles foram bem-sucedidos.

É certo que, em pouco tempo, sob o pretexto de "prender os corruptos" essas violações não só da soberania nacional (crime dos mais graves) como da privacidade serão moeda corrente no Brasil. Teremos, então, grampos generalizados, fim do sigilo bancário, e assim por diante. E ainda vamos achar lindo e muito "ético"...

(Alvaro R. Velloso de Carvalho)

 

PS- Sugiro, ainda, ao leitor a leitura do seguinte artigo da revista Wired em sua versão online: "Deconstructing 'Public Enemy'". É muito elucidativo dos perigos que nos aguardam, nesses tempos em que a privacidade tem tão pouca importância, e em que tecnologias para bisbilhotar nosssas vidas surgem a cada instante.