Distorção proposital

Carta aberta a Márcio Moreira Alves

 

Prezado Márcio Moreira Alves,

Li seu artigo de 03/12/98 em O GLOBO sobre a dona Ruth e os estudantes que a atacaram. Confesso que ainda não acredito que você tenha mesmo escrito aquilo. Afinal, da leitura de sua coluna diária, acabei por aprender a respeitá-lo e até a acreditar que você tivesse algum bom senso. Seu artigo nega isso.

Como é que alguém no pleno uso do próprio senso pode dizer que os estudantes que agrediram a Primeira Dama eram de extrema direita? Como assim, extrema direita? Quer dizer que eles eram filiados ao partido do Enéas?

Olha, vou te contar uma coisa: freqüento a universidade há dois anos e nunca encontrei mais de dois fascistas, que o eram mais por espírito de esculhambação do que propriamente por uma ideologia. A grande maioria dos estudantes universitários são esquerdistas – não é possível que você não saiba disso.

Também não é possível que não saiba quem é que dirige os centros acadêmicos. É o PSTU, meu caro. É o partido da extrema-esquerda – ouviu bem? Extrema esquerda. São os caras que cultuam Mao Tsé Tung, Stálin, Lênin, Trotsky – aqueles mesmos que você, na sua juventude, certamente cultuava.

Mas eu sei que você sabe disso. Eu sei que você sabe que o Lindberg Farias é de esquerda, e que a UNE é de esquerda. É óbvio que a sua intenção foi ironizá-los. Foi chamar aqueles que se chamam de esquerdistas de direitistas e fascistas.

Pois veja bem: é isso que torna o seu artigo tão ruim. É isso que torna o que você escreveu tão medíocre, tão infame, tão imprestável. A sua associação é a seguinte: a direita é o MAL, a esquerda é o BEM. Os "verdadeiros" esquerdistas são progressistas, defensores apaixonados da democracia e do bem comum; os "verdadeiros" direitistas (e, claro, a direita é sempre "extrema") são a própria encarnação do MAL.

E isso fica demonstrado com uma das frases mais idiotas que já li na minha vida: uma ditadura militar é uma violência contra os direitos dos povos equivalente a uma ocupação estrangeira. Tudo o que contra ela se fazia era justificado.

Quer dizer, quando a baderna era contra um governo de que você não gostava (e que a maioria do povo brasileiro apoiava), podia. Para você, a guerrilha, com toda sua violência irracional, era legítima. E se alguém levantar o argumento de que, se algum dos guerrilheiros assumisse o governo mataria infinitamente mais gente do que a ditadura de 64, claro que você também vai chamá-lo de fascista e de conspirador contra o Estado democrático.

E se um outro lembrar que uma ditadura que desaparece com 200 pessoas num país do tamanho do Brasil não é propriamente uma ditadura muito repressiva, você logo dirá que "não se trata de discutir cifras", e que odeia todas as ditaduras por igual. Claro, não há mesmo nenhuma diferença entre a ditadura de Fidel – que sumiu com 20% da população cubana – e a ditadura militar brasileira...

Mas não se trata de discutir 64 – até porque não quero aqui ficar remexendo feridas antigas suas. Afinal, você deve mesmo se arrepender daquele discurso que serviu de pretexto para o AI-5. Mas aquilo devia ter te ensinado que ideas have consequences, como diz Richard Weaver. E, principalmente, que idéias tolas costumam ter conseqüências trágicas.

Pois o seu artigo novo tem a mesma inconseqüência juvenil do seu discurso. Ele serve para perpetuar o estereótipo de que tudo de ruim se deve à direita, e que a violência de esquerda é justificada. Desta forma, quando os esquerdistas passam a atentar contra a democracia, eles instantaneamente se tornam direitistas!

Sua inconseqüência é a mesma que levou Zuenir Ventura, alguns meses atrás, a praguejar contra os "crimes de pensamento", só porque uma meia dúzia de adolescentes disse que gostava de Hitler. É aquela inconseqüência que leva o sujeito a esquecer perigos reais e destruir ovos de codorna pensando serem de serpente. É aquela inconseqüência que não vê nenhum mal no culto de assassinos como Fidel Castro, Che Guevara e Mao Tsé Tung, fingindo não saber que a distância que os separa de Hitler não é tão grande assim.

Não, meu caro, os membros da UNE não estão a serviço da extrema-direita. Estão a serviço da esquerda, essa mesma que acredita ter o monopólio do bem. Estão a serviço de grupos que até hoje crêem que a luta armada é a única saída para o país.

Aproveito para contar um caso recente. Na PUC-Rio, estranha entidade onde estudei durante um ano, um grupo neoliberal acaba de assumir a presidência do DCE. O resultado é que todas as suas iniciativas são boicotadas pela vice-reitoria acadêmica, e que os membros da chapa derrotada (ligada ao PSTU) lhes fazem sucessivas ameaças de morte, em geral seguidas de cusparadas. Aliás, é esse mesmo grupo esquerdista que está por trás da destruição de livros nos pilotis da universidade, recentemente noticiada pelo seu jornal, na coluna de Ricardo Boechat.

E, no entanto, você clama que a universidade ensine "tudo". Não sei bem o que você quer dizer com isso, uma vez que "tudo" é um pronome indefinido, que torna a frase igualmente indefinida. Sei apenas que o ensino universitário, no Rio de Janeiro ao menos, não foi feito para ensinar nada. Foi feito para doutrinar esses jovens esquerdistas, para lisonjeá-los em sua arrogante ignorância. E não foi exatamente a isso que a esquerda se dedicou desde a luta armada – a treinar militantes?

Pois bem: os novos militantes estão começando a mostrar suas asinhas. A tendência, claro, é a histeria piorar. E, enquanto isso, você, Zuenir Ventura e tutti quanti vão continuar denunciando um inexistente "perigo direitista".

Não, meu caro: o perigo é esquerdista. O amor da esquerda pela democracia sempre foi fingido, e esse fingimento diminui nos seus membros mais jovens – e, no momento, mais ativos. Mas esses jovens não operam sozinhos. Sempre há pessoas responsáveis por ensiná-los, e outras a lisonjeá-los. A primeira função cabe aos professores universitários; a segunda, aos jornalistas, sempre dispostos a distorcer e inverter os fatos para melhor adequá-los a suas paixões políticas. E é exatamente por isso que você preferiu chamar os jovens de direitistas, em vez de revelar a verdadeira ideologia que os anima.

PS- Esta é uma carta aberta, e será incluída na coluna "idiotice da semana" da home-page do jornal O INDIVÍDUO (http://www.oindividuo.com).

 

Atenciosamente,

Alvaro Rosário Velloso de Carvalho