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Os bons bandidos
João passou a vida inteira trabalhando no mercado de frutas. Nunca foi alfabetizado, nem quis. Aprendeu apenas a transportar frutas de um canto da cidade para o outro. Um dia, João caiu doente. Ninguém sentiu sua falta. Ele teve que se alinhar na fila lotada do INPS, entre centenas de outros Joões, com quem ninguém se importava e que provavelmente também morreriam ali. Enquanto estava na fila, João ainda teve a oportunidade de ver, num aparelho de tevê de uma loja de eletrodomésticos, a cena que eu também presenciei no Jornal Nacional e cuja descrição saiu em O Globo de 30/12: Os seqüetradores de Abílio Diniz, aceitaram o acordo que o Governo lhes propôs e vão finalmente sair da greve de fome. Os seqüestradores ainda negociam a liberdade condicional do brasileiro, único dentre eles que não será extraditado. João ouviu, então, que, enquanto faziam greve de fome, os seqüestradores tinham sido transferidos para o Hospital das Clínicas de São Paulo, um dos melhores daquela cidade, para não morrerem. Ouviu também que o arcebispo de São Paulo e o ex-presidente do PT tinham intercedido a favor dos seqüestradores. E foi a última coisa que teve tempo de ouvir, porque um enfarto logo lhe paralisou o coração, ali mesmo na fila, e não veio ninguém socorrê-lo. Para o neoliberal, João era apenas um trabalhador informal, à margem do processo produtivo. Para as nossas esquerdas, João poderia ser massa de manobra, poderia ser objeto de uma bela pregação política para prometer-lhe um lindo mundo novo socialista. Mas João nunca teve paciência para ouvir essas coisas, de forma que, para os similares do arcebispo de São Paulo, ele era apenas uma mosca morta. E por isso ninguém veio lamentar-lhe a morte publicamente. Ninguém dava a mínima. O Governo brasileiro está, claro, muito mais preocupado em produzir petróleo e em extorquir dinheiro dos empresários do que em realmente melhorar o sistema de saúde. A esquerda está muito mais preocupada em defender os direitos humanos de bandidos, porque bandidos são muito mais úteis no processo revolucionário – principalmente bandidos politizados. João nunca tinha se preocupado com política, e nunca cometeu um crime na vida – não interessava à esquerda, pois. João não teve tempo, nem saúde, para se indignar com o que viu na tevê. Mas é dever de qualquer pessoa com um pingo de consciência moral, qualquer pessoa que não tenha ainda sucumbido ao diálogo de zumbis que domina a cena política nacional, perceber o absurdo da situação. Enquanto todos ficam se hipnotizando com os próprios discursos, é preciso que haja alguns ainda acordados. E qualquer um acordado percebe que, quando morrem milhares de Joões pelo país afora, ninguém se lembra de defender seus "direitos humanos", e dom Evaristo Arns não faz homilias a respeito deles. Dom Evaristo defende apenas aqueles cuja defesa é politicamente vantajosa. Lula a mesma coisa. E, no caso dos bandidos, essa situação chegou ao cúmulo. Se um bando de seqüestradores resolve fazer greve de fome, a única coisa "humanitária" a fazer é deixá-los morrer de fome. Humanitária em relação a todo o restante da sociedade. Existem muitas outras pessoas que nunca cometeram um crime na vida morrendo de fome sem querer, e a atenção da sociedade deve estar voltada para estes, não para aqueles. João não estava querendo morrer, e não estava chantageando ninguém. Os bandidos estavam. Mas, claro, eles cometeram um crime – e um crime grave – sob pretextos políticos. Não importa, para as esquerdas, que, para a Justiça brasileira, seqüestro nada tenha de político, se a parte política supostamente beneficiada é de fora do país. Importa apenas que eles estavam a favor da "causa" – e quem quer que esteja a favor das esquerdas passa a personificar o bem. Por isso toda essa mobilização em torno desses bebês chorões. Por isso tanto barulho, tanta mídia, todo esse séquito de zumbis em torno de uma mesma palhaçada. E os Joões continuarão sendo, sempre, apenas Joões... *** Uma outra observação vem bem ao caso hoje, e pode ser considerada a "menção honrosa" da idiotice desta semana. O Rio de Janeiro assistiu, atônito, à subida ao cargo de eminência parda do Governo Garotinho do cientista político Luís Eduardo Soares. A primeira medida de segurança anunciada pelo sr. Soares foi a criação de uma central de denúncias contra os policiais. Fico imaginando que, a essa hora, cada um dos traficantes já deve ter designado uns três ou quatro funcionários para ligar para essa central o dia inteiro. É possível que esse microcéfalo desse Luís Eduardo não tenha percebido que um negócio desses vai paralisar a polícia, mas também é possível que ele o tenha feito exatamente com esse objetivo – isso saberemos ao longo do governo Garotinho. Mas jogar a polícia contra si mesma é um passo para destrui-la e permitir que os bandidos reinem por aqui, quer isso seja feito intencionalmente ou não. Por outro lado, como disse um amigo outro dia, não podemos dizer que o sr. Soares não tenha nenhuma experiência policial. Ele teve uma notória atuação na polícia do pensamento que tentou censurar a existência deste jornal... *** Ainda nessa linha "mito do bom bandido", o Pen Clube do Brasil, até há pouco uma instituição respeitável presidida por Antonio Olinto, acaba de fazer um papel ridículo, que fornece a idiotice mirim desta semana: eles enviaram uma carta ao presidente Bill Clinton pedindo... que ele conceda visto de entrada ao Gabeira! Gabeira, como se sabe, é aquele deputado que pensa que é intelectual só porque leu meia dúzia de livros do Willhem Reich e porque seqüestrou um embaixador americano. Mas, pensando bem, o Bill Clinton é capaz até de simpatizar com ele: o presidente americano adoraria Reich, se o conhecesse, e certamente gosta muito dessa história de esquecer crimes passados... |