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Nazistas babando embaixo da cama
Imagine o leitor que Leandro Konder publique um livro sobre o senso estético de Stálin. Imagine que, nesse livro, o venerável "filósofo" puquiano dissesse que Stálin tinha um belo gosto para pinturas e que, no fim das contas, o realismo socialista era mesmo muito legal.
Imagine, agora, que alguém escrevesse uma resenha sobre o livro de Konder e dissesse o seguinte: "nesse livro, o professor Konder tenta legitimar os crimes de Stálin". O que é que você, leitor, ia pensar do crítico? No mínimo, que ele não sabe ler, certo?
Pois bem: Leandro Konder acaba de fazer exatamente a mesma coisa que esse crítico imaginário. Com a diferença de que, se alguém fizesse isso com o Konder, todo o establishment gramsciano ia sair em sua defesa, mas, como foi o Konder que fez, ninguém fala absolutamente nada.
Pois vejam o que disse o professor em seu artigo no jornal O Globo de domingo, 03/01/99:
Em seu livro, John Lukács sugere que Hitler tinha qualidades próprias, e não apenas aquelas que o povo via nele, como o gosto estético e a boa oratória. Esse tipo de revisionismo é muito perigoso e pode legitimar crimes passados.
Agora, pensemos um pouco: dizer que alguém tem "boa oratória" quer dizer que todos os crimes desse fulano são desculpáveis? Quer dizer que, se um sujeito acha que Hitler falava bem, isso imediatamente implica que esse sujeito legitime qualquer ato de Hitler?
Isso é um raciocínio incrivelmente maluco. Imagino que o prof. Konder desculpe todos os crimes de Fidel Castro porque a música cubana é muito boa, ou porque os charutos cubanos são bons – claro, se os critérios que ele usa para julgar os outros autores também são válidos para ele.
Mas vamos tentar esclarecer as coisas: o livro de Lukács (o historiador, não o pensador) chama-se O Hitler da história e foi lançado no Brasil há alguns meses pela Jorge Zahar. Nesse livro, ele faz uma espécie de compilação dos diversos trabalhos sobre Hitler que saíram nos últimos anos, e tenta fazer uma síntese. Se ele é bem sucedido ou não, é outra história. O ponto é: o livro não tem nada de revisionista.
Revisionistas são certos historiadores que procuram negar a existência do Holocausto, ou pelo menos reduzir as proporções desse fato. Isso, o Lukács não faz em seu livro. Muito pelo contrário: o livro faz duras críticas a um dos principais historiadores revisionistas, o inglês David Irving (autor de Hitler’s War). Irving é, inclusive, chamado de "historiador", entre aspas, por Lukács, e tem a sua credibilidade constantemente questionada. Por causa disso, aliás, Irving está processando Lukács.
Agora, vejamos uma coisa: se um dos principais revisionistas está processando o autor de O Hitler da história, como diabos este pode ser um livro revisionista?
E mais ainda: o único argumento de Konder é que o livro de Lukács diz que Hitler tinha algumas "qualidades próprias". É de se supor que, não sendo Hitler a encarnação do Diabo, ele tenha pelo menos algumas míseras qualidades mesmo. O vampiro de Dusseldorf também dava bom dia aos vizinhos, Mussolini tocava violino. O esteticismo de Hitler é, aliás, característico de tiranos. E, a não ser que se suponha que quase todos os alemães são imbecis, é lógico que alguma qualidade o cara tinha que ter. É óbvio, por exemplo, que a sua oratória inflamada atraía e eletrizava as multidões – do contrário, ele não teria feito tanto sucesso.
Reconhecer isso não é legitimar os crimes de Hitler, muito menos legitimar o próprio nazismo. Dizer que alguém expõe bem certas idéias não é dizer que essas idéias são boas. Essa distinção é tão evidente, tão óbvia, que alguém que não a perceba só pode sofrer de séria disfunção mental.
Que um tal cretino seja um dos principais expoentes da esquerda brasileira, eis aí um escândalo de altas proporções: aqueles que se propõem a dirigir nossa cultura, a influir na nossa política e a nos dizer o que fazer são os mesmos que ouvem um imbecil desses como se fosse um santo! (Informo, inclusive, que acaba de ser realizado, num lugar perto do Rio de Janeiro, um seminário sobre "vida e obra do filósofo Leandro Konder")
Que respeito esperam que eu tenha por gente desse calibre? Como respeitar alguém que confunde o valor das palavras com a ênfase usada para dizê-las? Como respeitar alguém que julga que atribuir bom gosto estético a um político é o mesmo que legitimar suas idéias? Não, me desculpem, mas não é possível.
Ainda há dois outros aspectos estranhos nessa história. O primeiro é que todas as informações sobre a briga entre Irving e Lukács estão disponíveis na internet. Será que o prof. Konder nunca se interessou em procurá-las? Para que será que o prof. Konder usa a internet? Será que ele não se informa sobre os assuntos de que trata, confiante em que todos tomarão sua palavra como verdade absoluta? (E não me digam que ele está velho demais para usar a internet: até ICQ o cara tem.) Isso, aliás, é uma bela amostra do grau de desinformação do intelectual brasileiro médio.
O outro é que, se o livro de Lukács realmente contivesse ofensas ao povo judeu, os judeus já o teriam percebido e teriam protestado, há muito tempo. Ou será que Konder acha que é mais inteligente e esperto do que todos os judeus? Será que ele acha que os judeus precisam dele para descobrirem o inimigo? Ou será que ele quer, simplesmente, chamar a atenção para um perigo inexistente enquanto os existentes passam incólumes – assim como o lobo se disfarça em pele de ovelha?
Não: prefiro afastar essas conjeturas. Seria, enfim, muita arrogância de um pobre professor do departamento de Educação da PUC-Rio (mesmo que, por razões que ignoro, ele se auto-intitule "filósofo"). Por outro lado, a burrice arrogante também tem sido uma marca constante de nossos intelectuais... É, talvez seja melhor não fazer conjeturas mesmo. Eu posso acabar descobrindo que elas são verdadeiras.
(Alvaro R. Velloso de Carvalho)
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