IDIOTICE DA SEMANA

O culpado de sempre

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Já é um costume conhecido: todo ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um panfletinho com o tema da "Campanha da Fraternidade". Esse tema será o assunto central dos esforços das autoridades eclesiásticas brasileiras ao longo do ano.

Normalmente, é um tema tirado do livro de campanha do PT. Ano passado, por exemplo, falava-se de educação. Até aí, tudo bem: a Igreja sempre se preocupou com educação. Mas, na capa do livrinho, lá estava uma foto de Sebastião Salgado, e o texto denunciava as desigualdades sociais, etc.. Quer dizer, os bispos estavam defendendo a educação, mas não no sentido que os católicos sempre a entenderam, e sim no sentido da esquerda gramsciana.

Este ano, porém, nem uma casquinha católica comparece. Nada. A CNBB é explícita. O tema é "Fraternidade e Desemprego" e o lema é "Sem trabalho… por quê?". Não estou falando grande novidade. Ninguém tem mais muita dúvida de que esses bispos estão mais bem situados no PT do que na Igreja Católica; e as campanhas da fraternidade só comprovam isso. Vejamos, porém, as pérolas de argumentos que o secretário-geral dessa venerável instituição, d. Raumundo Damasceno de Assis, usou para defender esse novo tema.

Ele começa deixando bem claro o caráter exclusivamente político da campanha (as declarações foram tiradas da Folha de S. Paulo, 18/02/99):

D. Raymundo Damasceno Assis, criticou ontem a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, tachada por ele de neoliberal, com juros altos que "contêm o crédito e o investimento e geram desemprego". Condenou também os cortes no Orçamento que "afetam programas sociais".

Isto é: não se trata propriamente de combater o desemprego, mas de combater o tal de "neoliberalismo". Para d. Raymundo, as taxas de juros altos são a prova de que esse é o modelo adotado pelo presidente FHC. Dedução muito peculiar, porque a taxa de juros não decorre das idiossincrasias de um determinado modelo econômico. Não existe um "consenso neoliberal" a respeito delas. Existem, sim, as condições econômicas concretas que influenciam a taxa de juros. Essas condições são objetivas, não podem ser alteradas por decreto.

Pode ser, porém, que d. Raymundo tenha uma solução melhor para essas condições do que as taxas de juros altas. Por que, então, não a apresenta, em vez de ficar choramingando? Por que, do alto de seus profundos conhecimentos econômicos, não oferece aos simples mortais do governo um modo de impedir a alta dos juros e suas conseqüências funestas?

Ou d. Raymundo acredita que a taxa de juros é adotada pelo governo para propositadamente causar desemprego? Quer dizer, será que o bispo acha que o governo é constituído de homens muito maus, que se reuniram e conspiraram para fazer mal à população? E que só ele e seus coleguinhas, representantes do bem, vão poder conter um governo tão desumano?

Será que d. Raymundo é incapaz de compreender as exigências de uma crise econômica - e que entre essas exigências está o detestado corte de despesas?

Tudo isso, claro, é ridículo e infantil demais. Mas a tese se reforça assim que contiuamos a ler sobre a campanha:

O texto-base da campanha -um documento de 138 páginas que tem na capa a foto de um pai com o filho no colo- critica o "neoliberalismo sem freios éticos", que tem como dogmas a eficiência e o lucro, e pede a solução do problema da dívida externa dos países pobres, lembrando que o papa já defendeu o seu cancelamento.

"Neoliberalismo sem freios éticos". Fico aqui tentando atinar com o sentido dessas palavras, como se eu já não soubesse que a principal característica das declarações dos membros da Igreja moderna é que elas nunca fazem o menor sentido.

Ética é uma velha disciplina filosófica, mas ninguém tem mais a menor noção do que seja tal coisa. O Betinho colocou a palavra em moda para ser usada contra políticos e contra o neoliberalismo. Já desenvolvo essa nova conotação da palavra - exatamente a conotação usada pelos bispos. Por agora, suponhamos que a palavra equivale a moral.

O que pode ser moral numa política econômica? Morais ou imorais, em geral, são as ações dos indivíduos. Mas é bem verdade que um certo modelo econômico pode ser moral ou imoral na sua origem. Será o neoliberalismo imoral na sua origem, na sua base mesma?

Ora, neoliberalismo é só um nome dos ressentidos para o velho capitalismo liberal, onde a economia é regrada pelo princípio da concorrência e pela soberania do consumidor (uma decorre da outra). Concorrência significa que o Estado não vai intervir em favor desta ou daquela empresa, mas que quem vai decidir entre elas é o consumidor. Em suma, significa o direito da maioria de escolher o que bem preferir, sem que nenhuma autoridade estatal lhe imponha preços ou marcas. É óbvio que este é o sistema mais "ético" que existe, porque é o único onde a empresa é responsável por si própria; óbvio também que este é o sistema mais livre que existe, porque permite uma margem de escolha maior aos consumidores. Quem quer que já tenha passado pelos EUA sabe muito bem do que eu estou falando, muito embora os políticos americanos estejam fazendo de tudo para acabar com essa farra.

Ademais, quem quer que tenha entendido o sentido dessas palavras reconhece de imediato que a economia brasileira pode ser qualquer coisa, menos "neoliberal". Da mesma forma, o sistema global que a ONU e gente como Soros quer impor ao mundo inteiro não tem nada de neoliberal: aproxima-se muito mais do modelo fascista, que é a aliança do Estado (um Estado global, no caso) com os grandes bancos e as grandes corporações.

Neoliberalismo não significa domínio das grandes empresas e corporações. Pelo contrário, significa que empresas menores podem vir a competir com essas outras empresas, sem que o Estado lhes venha encher o saco (volto a dizer: alguém já viu isso acontecer no Brasil?).

Claro que o Brasil tem tentado algumas tímidas medidas liberalizantes, mas alguém já ouviu toda essa gente que reclama do desemprego alguma vez falar em desregulamentação trabalhista? Alguém já viu o governo incentivar a iniciativa privada na educação ou na saúde? Alguém já ouviu um membro do governo FHC falar em previdência privada? E depois, quando todo esse estatismo falha, põem a culpa no neoliberalismo!

Visto isso, só pode ser um nonsense falar em "liberalismo sem freios éticos". Que freios éticos? A atuação do Estado, seja impondo seus péssimos serviços, seja benefeciando algumas empresas de sua preferência? Dom Raymundo que me desculpe, mas isso já conhecemos bem - e não deu certo.

Os freios éticos que devem existir, esses sim, são os freios das próprias consciências. Cabe ao agente econômico decidir, em determinados momentos, se preferirá o culto da eficiência, ou se agirá em nome de valores superiores. Decidir isso não cabe ao "sistema econômico"; cabe a cada um. O modelo econômico, sozinho, sem a imoralidade dos agentes, não vai impor sozinho o culto da eficiência. O neoliberalismo vai apenas oferecer os melhores instrumentos para que a economia seja eficiente - e isso, em si, é bastante justo.

Aliás, isso sempre foi o que a Igreja ensinou: a responsabilidade de cada um de nós, não de sistemas abstratos, diante de Deus. Não é de se espantar que, vindo de homens que já não têm a menor noção do que seja catolicismo, o documento se esqueça desse princípio elementar e ponha a culpa de tudo no "governo" e no "neoliberalismo".

Tudo isso é fruto desse novo sentido que a palavra ética assumiu desde a campanha do finado Betinho. A sede de justiça de que fala o Evangelho deixou de ser uma sede voltada para o interior do indivíduo - isto é, a sede de ser justo - e assumiu os ares de um discurso inquisitório que, sempre apontando culpados nos outros, faz com que cada militante fanatizado esqueça suas próprias responsabilidades.

É uma forma de desviar a questão, e os bispos se utilizaram dela para não perceberem sua própria miséria interior. Por que não voltar à velha pregação, que recomenda que cada um se assuma como responsável pelos próprios atos, e tente agir segundo as ordens de Deus (e, nesse sentido, J.O. de Meira Penna afirma que a Igreja deveria fazer a opção preferencial pelos ricos, porque estes são os que mais precisam de ensinamentos morais)?

Ah, essa opção ninguém nunca leva em conta. Os Dez Mandamentos e os mandamentos da Igreja parecem "antiquados". A CNBB prefere proferir um discurso infantil contra um sistema que ela não entende, no domínio de um assunto que ela desconhece por completo. E, exatamente por isso, os bispos nada propõem e nada ensinam; repetem apenas um palavrório sem significado, cheio de conceitos vazios e retórica inútil. Esquecendo-se de pregar o caminho de salvação das almas (até porque não o conhecem mais), pregam o caminho de perdição do país.

Por outro lado, é claro que qualquer sistema econômico, bem como qualquer sistema político, deixado a si próprio vai ser imoral e anti-ético. É precisamente para pôr freios à ação individual dentro deles, para ligar esta ação a um sentido superior, que serve a moral religiosa. São justamente esses valores que vão sustentar a cultura, sob pena de toda a cultura perecer na guerra de uns contra outros. Mas quem vai prestar atenção neles, se as autoridades eclesiásticas não os defendem mais? Quem vai se lembrar de Deus, se os bispos só falam na clave política ou econômica, sem nunca se referir a Ele?

Dom Raymundo me lembra um filme com Walter Matthau e Ossie Davis, onde Matthau faz um velhinho comunista, que entra num supermercado e ouve alguns clientes reclamarem dos preços. Ele se apresenta aos diretores do supermercado como membro de uma organização de defesa dos consumidores, e cria a maior confusão quando começa a remarcar os preços, baixando-os até um patamar que ele julgava "justo". Eis aí os nossos bispos: velhos comunas que, sem perceber a própria esclerose, acham que vão resolver todos os sistemas econômicos com uma canetada. Mas tudo que vão conseguir é criar mais confusão.