IDIOTICE DA SEMANA

O mito da superioridade americana

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Durante anos, a ocupação favorita da esquerda brasileira foi denunciar o "imperialismo americano". Segundo eles, nós seríamos terrivelmente explorados pelas empresas malvadas vindas dos EUA, e quem quer que defendesse a abertura econômica era "entreguista".

Bom, os tempos são outros, a abertura econômica está aí, e eles agora preferem falar mal dos "especuladores" e esquecer as multinacionais. Ao mesmo tempo, não dizem uma palavra sobre os atos de verdadeiro imperialismo, simplesmente porque esse imperialismo serve a seus interesses.

Para quem se acostumou a pensar em termos binários e simplistas, dividindo o mundo entre esquerdistas nacionalistas e liberais globalistas, isso pode parecer meio enigmático. Mas, se quisermos entender alguma coisa do mundo, já está passando da hora de abandonar esse tipo de esqueminha e tentar ver as coisas como elas são.

E o fato é que a tal globalização não é um fenômeno unilateral; é um fenômeno que se utiliza das oposições existentes nos países para progredir. O que quer que cada um faça, seja à direita, seja à esquerda, acaba contribuindo para a globalização. Não é de se espantar, pois, que a esquerda nada tenha falado a respeito da mais nova investida globalista contra a soberania nacional que eles tanto dizem respeitar.

Não quero, com isso, dizer que o processo globalizante seja mais favorável aos EUA do que aos outros países; não creio que o seja. Também não creio que os EUA estejam liderando sozinhos o processo. Mas a administração Clinton trabalha dia e noite para globalizar os parâmetros da ONU. Vejamos sua mais recente investida no Brasil, noticiada pelo jornal O Globo de 27/02/99:

Os Estados Unidos anunciaram, no relatório anual sobre direitos humanos, aumento acentuado dos abusos policiais no Brasil em 1998.

Ou seja: em nome dos "direitos humanos", os EUA se arrogam o papel de polícia do mundo, e vêm nos "ensinar" como devemos agir.

Agora, me digam uma coisa: com que autoridade os Estados Unidos vêm denunciar abusos policiais aqui no Brasil? Com que autoridade vêm nos dizer o que fazer, se a sua polícia é a mais violenta do mundo?

Praticamente toda semana, a imprensa de lá noticia abusos em perseguições policiais, tiroteios que não precisavam ocorrer, suspeitos mortos sem provas, inocentes assassinados pela polícia.

Só para ilustrar: algumas semanas atrás, um porto-riquenho, que trabalhava há anos como vendedor em Nova Iorque, estava chagando a seu apartamento, quando encontrou quatro policiais na sua porta. Quando ele meteu a mão no bolso de trás para pegar a própria identidade, levou mais de vinte tiros. Assim, à queima-roupa. E ele não era culpado de nada: era apenas semelhante ao suspeito de um crime de estupro.

E acredito que todos ainda se lembrem de Rodney King, e de toda a violência que explodiu nas ruas de Los Angeles alguns anos atrás.

Quer dizer, por mais abusos que cometa a polícia brasileira, casos como esses são de uma violência gratuita que simplesmente não se vê por aqui. Não estou tentando tapar o sol com a peneira: existem torturas, com certeza, mas simplesmente o grau de violência da nossa polícia não pode ser comparado ao da polícia americana. Ora, se há um país que não pode ensinar isso aos outros é precisamente o Grande Irmão do Norte.

Agora, a parte mais ridícula do documento é aquela que trata do terrível racismo brasileiro. A esse racismo é atribuída a desigualdade de renda entre negros e brancos e também o fato de poucos alto funcionários do Governo e das Forças Armadas serem negros - apesar, diz o documento, de quase metade da população ser de origem africana.

Tudo isso é uma bobagem e, sinceramente, é coisa de americano. A metade da população brasileira não é "de origem africana"; a metade da população brasileira é mestiça. A maior parte dos brasileiros simplesmente abandonou suas origens raciais e se misturou com as outras raças, formando o caldo cultural tipicamente brasileiro.

Eis aí por que é tão difícil diferenciar pretos e brancos no Brasil - simplesmente porque nós já esculhambamos com essa coisa, pondo de lado o fator racial.

Quando, porém, um americano diz "negro", ele está se referindo a qualquer pessoa que tenha um pingo de sangue negro. Mesmo que apenas sua bisavó seja negra e todos os demais sejam brancos, para um americano, você é negro. Daí que eles digam que a maior parte dos negros no Brasil são pobres: é que a maior parte da população brasileira é pobre, e a maior parte da população brasileira também é negra (na verdade, mestiça; negra apenas para os padrões americanos), tornando-se simplesmente impossível que a maior parte dos negros não sejam pobres.

Existe, também, nessa relativa marginalização dos negros, uma herança da escravidão. Mas não por fatores racistas, e sim por fatores exclusivamente econômicos: a liberação dos escravos ocorreu em 1888, e a industrialização do Brasil começou em 1930. Nesse período, os negros libertos foram reduzidos à miséria, ou retornaram a suas ocupações antigas em regime de salários baixos, simplesmente porque não havia emprego disponível para eles. Notem: isso não é racismo; isso não ocorreu graças à decisão racista de ninguém, mas por fatores exclusivamente econômicos.

Daí a farsa que é a tese do "racismo brasileiro". Ainda mais, vinda de americanos, esses sim racistas. Ora, a própria catalogação de todos em brancos e pretos já é racista: por aqui, nunca nos preocupamos muito com isso.

Aquele que no mundo inteiro é considerado como campeão dos direitos dos negros, Abraham Lincoln, não lutou a guerra com o intuito de libertar os escravos: ele queria que eles fossem mandados de volta para a África (alguns foram, e formaram a Libéria).

Essa mentalidade persiste até hoje, mas de forma diferente: não foi à toa que surgiram nos EUA as teses de que os negros deviam lutar pela cultura "afro", o que equivale a dizer que eles devem ficar presos à cultura tribal, por não terem capacidade de se inserir na cultura ocidental. O que é isso senão racismo?

O que é o sistema de cotas, inventado nos EUA, senão racismo? Obrigar as universidades a aceitar 20% de negros não equivale a dizer que os negros não são capazes de entrar lá por mérito próprio, mas precisam da ajuda do Estado?

Ora, os EUA são o país da Ku Klux Klan; são o país que teve leis racistas até a década de 60 - o que equivale a dizer que, até essa década, o racismo era oficializado em vários estados. Como é que um país desses vem nos dar lições de racismo - justo a nós, brasileiros, que pelo menos esse problema já resolvemos?

Que fique bem claro que não sou daqueles que acham que os EUA nada têm a nos ensinar. Claro que têm. Temos muito a aprender com a economia americana e com o sistema legal americano (mesmo assim, olhem a burrada que eles fizeram no caso Clinton...) - exatamente aquilo que a esquerda odeia. Mas não temos absolutamente nada a aprender deles em matéria de racismo, nem de violência policial. Aí, temos muito a ensinar, porque os brasileiros sabem conviver entre si e tolerar uns aos outros - e essa tolerância, nos EUA, só é possível se o Estado estiver vigiando de perto.

Mas aí fica claro também por que a esquerda não disse nada: é que esses falsos problemas levantados pelos americanos são justamente os falsos problemas de que elas adoram falar. É que esse relatório deixa claro de onde vêm as idéias de gente como Milton Santos, frei David e Luís Eduardo Soares, e também deixa claro quem é que realmente trabalha para o "imperialismo americano". Ou por acaso será mera coincidência que os Estados Unidos divulguem um relatório falando contra o Brasil as mesmas coisas que esses esquerdistas vivem falando? Claro que não. Eles são apenas fantoches nas mãos do poder global, por mais que se digam nacionalistas ou contra a globalização. Já está passando da hora de pararmos de ouvir todos esses farsantes, e nos preocuparmos com problemas que realmente temos.