Moralismo ou simples bom senso?
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Hoje em dia, sempre que se trata de questões ligadas a sexo e alguém propõe algum tipo de restrição a alguma conduta sexual, as pessoas "esclarecidas" ou "em sintonia com seu tempo" já empinam logo o narizinho e falam, com ar superior: vamos deixar de moralismos.
E, de fato, a distinção entre moralismo e o puro e simples bom senso já escapou completamente dos cérebros das pessoas "esclarecidas". Claro que não só em questões de sexo: acabamos de ver um monte de gente dizer que julgar um presidente por perjúrio e obstrução da justiça era moralismo, estamos cansados de ver abortistas dizerem que defender a vida da criança é moralismo, etc. etc.
É só que, em termos de sexo, a coisa atinge proporções absurdas. Claro que existe mesmo um moralismo abjeto, que consiste em negar a fragilidade da criatura, e esperar que todos nos adequemos a um esquema moral abstrato, sem nenhuma consideração pelas circunstâncias concretas.
Mas não é disso que estou falando. Moralista, nesse sentido "esclarecido", é, em princípio, todo aquele que ache que os seres humanos não são iguais às gatas de telhado. E, a partir daí, vão surgindo novas posições "esclarecidas" que, se você ataca, também será tachado de moralista. Por exemplo, não falta quem sugira que condenar o estupro é ser moralista, porque, no fundo, a mulher está gostando daquilo; não falta quem diga que sadomasoquismo é lindo e maravilhoso, etc.
Uma ampliação simplesmente inacreditável desse estado de coisas é exemplificada pelo autor da idiotice desta semana, que, aliás, já figurou por aqui. Trata-se do repórter Helio Hara, do jornal O Globo, um sujeito que, enquanto morava no Brasil, escrevia sobre inovações tecnológicas, ecstasy e música techno. Agora, foi morar em Paris e virou correspondente estrangeiro. Vejam só o que a figura escreveu no caderno Prosa & Verso de 13/03:
Genka não escapou dos ataques de conservadores escandalizados com a história da incestuosa relação de um pai com suas duas filhas.
E acrescentou:
Hoje, provavelmente, o livro é pouco capaz de escandalizar pelo conteúdo.
O background, caros leitores, é o seguinte: o livro do tal do Nicolas Genka descreve um pai que transava com a filha mais velha, atraindo os ciúmes da filha mais nova, virgem, que também queria uma casquinha. Pode haver relato mais edificante?
Agora, o negócio é simples: condenar o incesto, dizer que é errado um pai transar com a filha, não é uma questão de moralismo, nem de conservadorismo. É uma simples questão de bom senso - a tal ponto que nem as gatas de telhado embarcam nesse tipo de relação.
Será que é difícil entender que é uma coisa anormal, aberrante, o pai manter relações sexuais com a filha? Não será isso objeto de conhecimento imediato, de identificação instantânea - em suma, não será isso a suprema obviedade?
Ora, o amor de um pai por uma filha é totalmente diferente do amor de um marido pela sua esposa. O amor matrimonial não pode existir sem a devida atração carnal. O matrimônio não se mantém num plano platônico, e sim num mundo de carne e osso, em que a união dos corpos serve de símbolo e intermediação para a união dos espíritos.
Embora o objetivo central do matrimônio seja o aperfeiçoamento da alma dos cônjuges, através do exercício do amor mútuo, esse aperfeiçoamento não pode se dar senão por intermédio da carne, isto é, do corpo. Por isso a função importantíssima do sexo no matrimônio, nunca negada por nenhuma tradição religiosa digna do nome.
É claro que nada disso se aplica ao amor de um pai por uma filha. Esse amor se funda no fato de que a filha é, de alguma forma, parte do pai; sua existência é uma continuação da existência do pai - isso cria um laço mútuo instantâneo. Ora, a relação que se constrói daí é uma relação de aconselhamento e guiamento, onde o pai é a bússola que a filha tem, no início, para guiá-la pelo mundo. Depois, essa relação vai evoluir para uma reciprocidade maior, e é precisamente aí que vão surgir os conflitos, etc., mas nunca em nível sexual, nunca por intermédio da carne.
Não preciso, creio, aprofundar esse tópico. Do pouco exposto aqui, fica muito claro que inserir o fator sexual na relação entre pai e filha é criar uma confusão psicológica de conseqüências catastróficas.
Isso, claro, não precisaria ser dito, exatamente como ninguém precisa dizer a você que é errado matar sua mãe: essas coisas são dados evidentes por si próprios, são elementos constitutivos da consciência moral do indivíduo. Estes, porém, são tempos em que a simples menção do termo "consciência moral" cria urticária em algumas pessoas.
São pessoas incapazes de distinguir uma convenção social (que é o que eles entendem por "moral") de um dado primordial da existência humana. E é precisamente a partir dessas confusões que surgem as piores aberrações. Afinal, se, no plano da cultura, se cria toda uma aura respeitosa e de apologia em relação ao incesto, como, depois, querem reprimir os abusos sexuais que filhos sofrem de seus pais?
O que os "esclarecidos" constantemente esquecem é que aquilo que se fala e se faz na esfera da cultura acaba tendo efeitos sobre a própria vida social. Quanto tempo eles acham que podem ficar fazendo apologia do incesto, até que a sociedade acabe legitimando os tais abusos?
Quanto tempo mais uma cultura que eleva um pornógrafo sujo e deprimente como Larry Flint ao status de mártir da liberdade de expressão pode esperar manter um mínimo de dignidade, de respeito à pessoa humana, e de convivência social?
Mas, claro, se você quer proibir a circulação da Hustler, ou se você condena o tal livro do Genka, você é um moralista, um conservador, um fascista... Não importa que o livro faça apologia do incesto, incentivando uma perigosa inversão da psique humana; não importa que a revista contenha nítidas violações da lei, como fotos de tios abusando sobrinhas, de crianças sendo molestadas. Nada disso importa: importa que é proibido proibir, que não pode ser feita nenhum tipo de restrição ao conteúdo, mesmo que francamente criminoso, de nenhuma publicação, principalmente no que diz respeito a sexo.
O mesmo vale, aliás, para a pedofilia: se você critica um filme nojento como o Lolita do Kubrick, é porque você é um moralista. Se você diz que não é uma coisa normal o João Silvério Trevisan querer transar com meninhos de 3, 4 anos, você é um moralista.
E depois reclamam quando a internet fica cheia de sites de pedofilia, quando proliferam os ataques e estupros de crianças, quando prolifera a exploração da imagem infantil para fins sexuais...
Uma vez perguntei, por meio de carta a uma revista, a um defensor da pedofilia, se ele acharia bonito que alguém viesse transar com a filha dele de seis anos. Talvez seja o caso de perguntar ao Helio Hara o que ele acharia se a sua própria filha viesse tentar seduzi-lo; ou inquirir do digno repórter se ele tem fantasias eróticas com a própria filha. Se ele responder que sim, e ainda por cima achar isso normal, é que as coisas já ultrapassaram mesmo o grau da simples masturbação intelectual "esclarecida", e chegaram a níveis psicóticos. Ora, quando ele diz que ninguém se escandaliza mais com um incesto, o que ele está sugerindo é precisamente que seu próprio estado mental e psicológico se generalizou por toda a população - eis aí mais uma ampliação indevida.
Vale acrescentar, para encerrar, que, aprovado o novo Código Penal, artigos como este estarão terminantemente proibidos. Afinal, sob as bênçãos do sr. Luiz Vicente Cernicchiaro, estarão proibodas as manifestações públicas de desapreço em razão de "opção sexual" - termo extremamente vago e elástico que inclui desde a castidade monástica aos pedófilos e adeptos do incesto. E cá estaremos nós, obrigados a respeitar os pais que transam com as filhas...
ADENDO:
1) É preciso deixar bem claro, no entanto, que sou contra a proibição do livro. Proibir uma porcaria de livros desses só contribui para dar-lhe notoriedade. É muito melhor chegar e simplesmente dizer que o autor não passa um pervertido maluco, e que as pessoas sãs devem se manter afastadas desse tipo de "arte". E quem quiser ler, provavelmente merece mesmo ler esse tipo de coisa.
2)Para aqueles que discordarem das minhas críticas à Hustler, respondo de antemão sugerindo a leitura deste artigo da dra. Judith Reisman. Se mesmo depois de ler este artigo, você continuar achando Larry Flint lindo e maravilhoso, lamento, mas não tenho o que responder.