IDIOTICE DA SEMANA

Traidores, mentirosos e idiotas

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Meus amigos, se alguém ainda tinha alguma dúvida de que o Apocalipse está próximo, essa semana que passou serviu para dissipá-la. A quantidade de bobagem, de cretinice, de canalhice, de idiotice, que circulou ao longo dessa semana foi incrivelmente alta.

Continuou a discussão imbecil sobre os pitbulls, o Garotinho anunciou que vai proibir a venda de armas (prometo um artigo sobre isso em breve), a Marxilena Xuchauí apareceu em todos os jornais e no Jô Soares dizendo as besteiras de sempre (ver, em breve, crônica de Paulo Afonso Hernandez), saiu o veredicto final sobre o Pinochet - e ainda tem as várias menções honrosas que vão aparecer no fim deste artigo.

A escolha de uma "idiotice", nesta semana tão repleta delas, se deu por motivos inteiramente subjetivos: me enche o saco essa maldita mania da esquerda de reescrever a história a seu modo, demonizando certas pessoas e endeusando outras, retirando o senso das proporções nas análises dos fatos, etc. etc. etc.

Claro que mentir assim não é privilégio esquerdista. É só que, como os estudos de História, nas últimas décadas, têm sido inteiramente dominados por esquerdistas, a esquerda está em melhor posição para fazer isso. E conta, para isso, com o apoio da mídia iletrada.

Refiro-me a dois episódios. Primeiro, a revista Época publica uma matéria gabando-se de ter encontrado "o traidor", o cabo Anselmo. Foi ele quem denunciou dezenas de membros das guerrilhas, durante a ditadura militar, praticamente desmontando o esquema da luta armada. Segundo a revista, ele foi um "traidor da pátria". Traidor da pátria coisíssima nenhuma. Traidores da pátria eram os facínoras que ele denunciou; traidores eram os jovens descerebrados e desprovidos de senso moral, prontos a matar todos os seus inimigos políticos e a seguir rigorosamente todas as ordens que viessem de seus superiores da União Soviética ou da China.

Sem as denúncias de cabo Anselmo, a ditadura teria sido muito mais terrível, e teria havido muito mais derramamento de sangue: a guerrilha teria continuado, e muitas vidas teriam sido perdidas no conseqüente confronto entre Exército e guerrilheiros. A denúncia de cabo Anselmo poupou muitas vidas, tanto de guerrilheiros, quanto de militares (e já mostramos aqui como, comparativamente, morreram mais militares do que guerrilheiros durante a ditadura).

O outro caso é o do cineasta Elia Kazan e o Oscar especial que lhe foi concedido na cerimônia ocorrida em 21/03. O Walter Salles Jr. encheu a boca para dizer à Bolha de São Paulo que tinha se levantado na hora da premiação; a mesma Bolha fez um quadrinho em que dava o prêmio "a few good men" para Nick Nolte, Ed Harris e Holy Hunter, que não se levantaram para aplaudir Kazan. E mesmo um sujeito que de esquerdista não tem nada, o sr. Diogo Mainardi, que enche com sua arrogância às vezes divertida e freqüentemente insuportável uma coluna na revistinha Óia, também chamada de Veja, disse a seguinte coisa:

"Resolvi assistir ao Oscar pela primeira vez na minha vida [who gives a damn?]. O único assunto que me interessa é o Oscar pelo conjunto da obra para Elia Kazan. Eu sou contra. Como diretor, merece nota 7. Porém, como todo mundo sabe, ele foi um dedo duro. Nos anos 50, quando o senador McCarthy ia à caça de comunistas em Hollywood, Kazan reagiu delatando colegas".

Quanta bobagem. Em primeiro lugar, Mainardi mostra não saber do que está falando: McCarthy nunca foi a Hollywood. Os comitês em Hollywood são anteriores à ação de McCarthy, e ele nada teve a ver com eles.

Em segundo lugar, Kazan não é diretor nota sete; é autor de alguns dos grandes momentos do cinema americano. Quem não se lembra de Marlon Brando, em On the waterfront, sua maior interpretação, fazendo um ex-boxeador que vira estivador, dizendo para seu irmão bem-sucedido, no banco de trás de um táxi: I could have been a somebody! Kazan também deu a James Dean sua melhor interpretação, no filme East of Eden, belíssima adaptação cinematográfica do livro de Steinbeck (aliás, um comuna). E a dupla Marlon Brando e Anthony Quinn em Viva Zapata!, a suave melancolia de The Last Tycoon, Natalie Wood e Warren Beatty em Splendor in the glass? E - certamente seu melhor filme - o confronto entre Vivian Leigh e Marlon Brando em A streetcar named desire, memorável adaptação de Tennessee Williams, com todo o clima que o texto exige, toda a tensão baseada nos diálogos e interpretações inesquecíveis - inclusive a antológica cena de Brando berrando na janela de Kim Hunter: Stella! Stella!

Ora, me perdoem, mas Walter Salles vai fazer filmes a vida inteira, e todos eles somados não vão ser capazes de valer uma cena de A streetcar named desire. Noto, inclusive, que nenhum desses filmes citados pode ser minimamente chamado de "conservador". Em geral, são filmes com aguda sensibilidade social e com uma sincera preocupação com as injustiças - enfim, aquilo mesmo que a esquerda devia fazer, se fizesse filmes e não apenas protestos e passeatas. Talvez seja isso que mais incomode em Kazan, tanto a direitistas quanto a esquerdistas: a enormidade de seu talento, sem precisar de rótulos e sem precisar de apoio do establishment.

Porque o establishment, como se viu nesse Oscar, lhe é contrário. E o pretexto para essa contrariedade é a acusação de "traição": ele é um dedo-duro e, portanto, não merece ser premiado. Cabe a mesma pergunta que cabia no caso do cabo Anselmo: quem é o verdadeiro traidor?

Porque o negócio é o seguinte: a) as pessoas que Kazan denunciou já tinham sido denunciadas, e seriam condenadas de qualquer jeito; b) eles não eram jovens idealistas, eram agentes infiltrados do Partido Comunista soviético, à época chefiado por ninguém menos que Joseph Stálin - ele mesmo; c) o papel desses agentes era fundamental na estratégia soviética para os Estados Unidos, que incluía a penetração na cultura americana, fazendo filmes na linha do partido e fazendo listas de diretores que eventualmente se desviassem dessa linha.

Alguém reclamaria se Kazan tivesse denunciados nazistas? Qual o problema de ter denunciado stalinistas? Essa foi não só uma atitude justificável, como foi a melhor atitude a ser tomada: o que estava em risco era a segurança nacional. Pedir que o Kazan se desculpe por ter feito a delação é ofensivo à inteligência humana, especialmente porque nenhum dos jovens stalinistas nunca se desculpou por ter apoiado e obedecido a Stálin, o maior carniceiro do século.

Alguns vão invocar um senso moral aparentemente superior e dizer: mas nada justifica a delação. Caio Blinder, o chato de plantão do Manhattan Connection, equacionou o problema: é melhor trair seus amigos ou seu país? E respondeu: é melhor trair seu país. Os amigos acima de tudo. Bobagem.

Esse problema me lembra o final de Dirty Harry, aquele filme maravilhoso do Clint Eastwood. O bandido tinha prendido uma menina, com contagem regressiva para ela morrer. Ela acaba morrendo antes da hora, mas Eastwood não sabe. Ele pegou o bandido, e o deixou estirado no chão, com uma das pernas presas. O bandido implora clemência, e pede que Eastwood o solte. Eastwood está, pois, diante de uma escolha moral: pode soltar o bandido, e provavelmente nunca ficar sabendo do paradeiro da menina, ou tentar descobrir onde ela está. Ele pisa na outra perna do bandido, até que ele lhe conte onde prendeu a menina. O que eu quero dizer, amigos, é que essa era a única opção moralmente correta. A vida da garota valia muito mais do que a saúde momentânea do bandido que ia matá-la. Não importa o que instituições de direitos humanos venham dizer.

Pois bem: no caso de cabo Anselmo, a escolha (essa não era a escolha subjetivamente, mas objetivamente, é preciso deixar claro) era entre sacrificar alguns momentaneamente, acabando logo com o derramamento de sangue das guerrilhas, e permitir que se perpetuassem aqueles confrontos absurdos e inúteis. Não estou dizendo que a primeira opção fosse ótima, mas nas devidas circunstâncias, era, obviamente, a melhor opção. No caso de Kazan, a escolha era ainda mais clara: era entre o seu país e suas instituições e um bando de agentes de Stálin que seriam condenados de qualquer maneira. O resultado parece óbvio.

Não venham com chorumelas do tipo "é um absurdo sacrificar a vida de um para salvar a de dez". Em tese, é mesmo. Mas a vida não acontece "em tese". A vida acontece na prática, e freqüentemente nos conduz a situações onde é necessário escolher o mal menor. É um imperativo da conduta moral saber distinguir o valor de cada coisa, e agir de acordo com essa valoração. Quem aí vai me dizer que a vida de um vale mais do que a vida de dez? Tanto no caso Kazan, quanto no caso do cabo Anselmo, é mais ou menos que estão dizendo...

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Vamos às menções honrosas, porque não dá para ficar sem mencionar essas cousas.

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A primeira vai para o mesmo Diogo Mainardi, na mesma coluna citada acima. Ele dizia o seguinte:

"Num romance, tudo é lícito, tudo é admissível".

Já conhecemos essa ideologia. Foi disso que tratei no artigo sobre o Helio Hara. Para essa gente, não tem problema nenhum se um romance insulta a religião, se defende o incesto, se defende o assassinato, etc. etc. - e eles certamente se sentem superiores por pensar assim. Tão superiores que, depois, costumam reclamar da pobreza do "imaginário social", sem se dar conta que são eles mesmos que constróem esse imaginário...

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A segunda vai para Gislene Alves, uma leitora da revista Veja, que mandou uma carta para lá dizendo a seguinte pérola:

"Meu grande desejo é que as meninas bonitas de hoje (mulheres bonitas de amanhã) se inspirem em Rita Camata, Rosa Luxemburgo, Joana D'Arc, Olga Benário Prestes, Tarsila do Amaral e tantas outras que provaram que nós, mulheres, somos mais, muito mais do que corpos maravilhosos."

Pela madrugada! Tenham a santa misericórdia! Pôr no mesmo plano Santa Joana D'Arc, uma santa que morreu em nome de Deus, sacrificada no altar dos interesses políticos e da burrice pseudo-teológica, com uma política insignificante, uma facínora defensora do assassinato de seus adversários políticos, uma agente soviética infiltrada no Brasil e uma das piores pintoras do século é, simplesmente, o fim da picada. Será que essa gente perdeu todo o senso das proporções?

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A terceira (e juro que é a última) vai para um cientista que chega a ser caricatural de tão idiota. Sua tese, já discutida aqui, é a do "gene egoísta", provavelmente a tese pseudo-científica mais imbecil do século (e olha que a briga é difícil!). Pois vejam o que o sr. Richard Dawkins declarou ao jornal O Globo de 27/03:

"Todos os organismos, inclusive os seres humanos, são veículos de informação, portadores de genes, cujo o [sic] único objetivo é propagar o seu DNA".

Fale por si, Mr. Dawkins: se o senhor nada mais é do que um portador de DNA, não queira estender essa limitação ontológica a todos os outros seres vivos...