Manipulação semântica e pobreza mental
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Um dos expedientes preferidos dos ideólogos e politiqueiros de plantão é a chamada manipulação semântica. Ela consiste em dar a determinadas palavras uma acepção que elas não tinham originalmente, ampliando seu sentido até que elas não queiram dizer nada objetivamente e adquiram um apelo mágico junto ao público.
Embora seja altamente difundida nos meios políticos, é óbvio que políticos não pensam nada por conta própria. A manipulação semântica começa justamente entre aqueles responsáveis pela preservação do idioma, os escritores. Três exemplos colhidos a esmo, esta semana, darão a idéia precisa do que estou querendo dizer.
No dia 16/04, o repórter da Rede Globo Pedro Bial entrevistou a antropóloga Heloísa Buarque de Holanda. A entrevista, no entanto, não versou sobre o trabalho antropológico de D. Heloísa, mas sobre aquela ocupação que a tornou famosa nos meios literários: a organização de antologias.
Ela acaba de lançar uma antologia de poetas contemporâneos, e, exatamente como sua antologia sobre a geração de 70, o livro é uma coleção inacreditável de pseudo-poetas, reunindo todo tipo de bobagem, de discurso vazio e tolo.
O poeta Bruno Tolentino, que pode ser meio maluco mas bobo não é, escreveu na revista Bravo! uma resenha engraçadíssima dizendo o óbvio: que o livro não valia coisa nenhuma, e que o nome "antologia" devia ser reservado a coisas mais nobres.
Tanto D. Heloísa quanto Bial estavam revoltados com a diatribe de Tolentino. E Bial lançou a acusação definitiva, a crítica que ele próprio deve julgar a coisa mais profunda que alguém já disse sobre Tolentino:
A poesia do Bruno é apenas parnasiana.
Percebem que a frase não quer dizer nada? Mas vale explicar exatamente por que, e tentar entender como alguém pode pronunciar uma cretinice dessas.
Desde aquela idiotice generalizada de 1922, a literatura brasileira vem sofrendo sucessivos ataques. Não só a própria literatura, como também os estudos literários. Aos poucos, todos os critérios para a discussão literária foram abolidos e se instalou o "liberou geral". Nessa acelerada decadência, certos termos foram mudando de acepção, até perderem todo o sentido objetivo. Os literatos se tornaram incapazes de distinguir um poema de uma imitação de poema, um verso de uma frase curta. Quando surgiu, na década de 50, o concretismo, a palhaçada chegou ao paroxismo: como muito bem disse o escritor Antonio Fernando Borges, cartazes de oftalmologista passaram a ser vistos como poemas.
As gerações posteriores até que se curaram desse nível de bobagem, mas não ficaram muito acima: poesia virou instrumento de "expressão dos sentimentos", e nada mais. Falar em forma, métrica, rima, num meio demente desses era como pregar castidade para as prostitutas.
Desse liberou geral nasceu a pobreza poética da presente geração - mas como os estudos literários empobreceram junto, ninguém parece ter se dado conta do estado calamitoso daquilo que D. Heloísa chamou de poesia.
É por isso que a presença de Bruno Tolentino é tão escandalosa: o sujeito não parece ter vindo do meio literário brasileiro. Na verdade, ele dialoga com os poucos que não se sujaram na lama geral de concretismos e pseudo-modernismos: sua poesia, no Brasil, segue a linhagem de Drummond, Bandeira e Cecília - poetas que, por mais que dissimulassem simpatias com os modernistas, nunca se envolveram diretamente com movimento nenhum. Tolentino apareceu do nada, introduziu em nossa lírica temas metafísicos e filosóficos que ninguém nunca tinha abordado, e embalou-os com perfeição formal inimaginável para os herdeiros dos Andrade e dos Campos.
Mas, depois de décadas de manipulação semântica, a "forma" virou uma inimiga da poesia, virou uma remanescente de escolas antigas - mais especificamente, do "parnasianismo". Por isso, para tentar enquadrar em sua própria estreiteza mental aquilo que não entende e nem é capaz de entender, Pedro Bial lançou o estigma sobre a poesia de Tolentino: é apenas uma poesia parnasiana. Não importa que o parnasianismo seja um movimento restrito que privilegia a forma em detrimento do conteúdo, e que nada possa estar mais distante da obra de Tolentino: Bial não está usando a palavra no sentido que ela realmente tem, mas no sentido que ela adquiriu na retórica anti-poética dos pseudo-poetas que infestam nossos meios literários desde a Semana de Arte Baderna. Nesse sentido, Bial disse "parnasiano" exatamente como poderia dizer "reacionário"; trata-se apenas de xingamentos, não de críticas sinceras e responsáveis. Até porque, nesses meios, poesia não é mais poesia, parnasianismo não é mais parnasianismo, e antologia não é mais antologia. Só que, independente da cretinice de críticos e popstars, a verdadeira arte continua existindo e falando por si.
Mas falando em postars, é de um popstar o segundo exemplo de manipulação semântica e de empobrecimento do vocabulário que trago aos senhores esta semana. Confesso que me sinto meio cruel usando-o de exemplo, porque coerência nunca foi uma de suas virtudes e precisão vocabular muito menos. De qualquer forma, o caso é irresistível. Vejam só o que disse Gilberto Gil à revista Veja a respeito da visita do Dalai Lama ao Brasil:
A vulgarização é própria do proselitismo religioso. (...) É bom que seja assim, é mais democrático.
Bom, quer dizer que é mais democrático que o Dalai Lama se torne mais popular. O que diabos um negócio desses pode querer dizer? Talvez nem Gil saiba, mas a frase serve de exemplo do abuso do termo "democracia".
Ora, democracia, a rigor, é um tipo de regime político. Isso quer dizer que só quem pode ser democrático ou não é o Estado. Se eu cumpro as leis de um Estado democrático, não estou sendo "democrático", estou apenas agindo dentro das regras da democracia; assim como, se eu as violo, meus atos não são "anti-democráticos", e sim ilegais.
"Democracia", no entanto, na boca de manipuladores e aproveitadores, virou qualificativo para absolutamente tudo. Ouço gente pregar a democracia sexual, a democracia literária, a democracia na educação, etc. etc. - como se algum desses domínios pudesse realmente ser "democratizado".
Agora, de todos, o domínio que menos pode ser "democrático", nem mesmo como metáfora distante, é a religião. Primeiro porque em qualquer religião que se preze, há uma Revelação, que nenhum dos fiéis pode negar, por mais que queiram. Segundo, porque religião pressupõe hierarquia de conhecimento e de elevação espiritual. Não é possível fugir disso, seja você budista, muçulmano ou católico. A opinião das pessoas comuns, num meio religioso, não conta absolutamente nada - só o que conta é a Revelação. Como se vê, um meio nada "democrático".
Gil poderia estar se referindo à propagação e à divulgação da mensagem religiosa. Mas divulgação é muito diferente de democratização - todos nós podemos conhecer as opiniões do Dalai Lama, mas nenhum de nós vai poder votar para escolher o próximo Dalai. O compositor, na verdade, foi vítima de um dos casos mais populares de manipulação semântica, que consiste em dar à democracia um sentido que ela não pode ter - e um sentido perverso, porque inspira nas massas um desejo igualitário que nunca poderá ser atendido e abre espaço para a penetração estatal em diversos domínios que deveria estar alheios à sua atuação, sob o pretexto de "democratizá-los".
Caso análogo é o do repórter Carlos Eduardo Lins da Silva, em matéria da Folha de São Paulo de 11/04/99. Ele entrevistou algumas pessoas que estavam esperando ônibus em São Paulo a respeito da demora dos mesmos para aparecer nos pontos. Como nenhuma das pessoas se mostrava revoltada com a demora, e como ninguém propôs a invasão e a destruição das empresas de ônibus, ele denunciou, já no título:
"Resignação mostra falta de cidadania."
Agora, eu confesso que minha paciência com o mau uso do termo "cidadania" já se esgotou completamente. Prometo tratar especificamente desse termo num artigo, em breve, mas vamos deixar algumas coisas bem claras desde já.
Querer quebrar janelas de ônibus não mostra cidadania - e não querer quebrar também não. O conceito, simplesmente, não se aplica ao caso. É como dizer que fulano de tal é resignado, logo, é louro; ou que fulano de tal não é resignado, logo, é louro. Não é possível esse tipo de inferência.
Queiram quebrar os ônibus ou não, os paulistas continuam sendo cidadãos: cidadania, no Estado moderno(1) quer dizer, simplesmente, a garantia dada pelo Estado a certos membros de sua população para o exercício dos direitos políticos. Em suma, eu sou cidadão porque posso votar e ser votado, desde que eu atenda a certas condições estabelecidas pela Constituição. Ninguém pode ser mais cidadão ou menos cidadão, e não cabe ao próprio indivíduo desenvolver o "sentido de cidadania" - a cidadania é dada pelo Estado, ponto final.
Que, de alguns tempos para cá, esse conceito político e jurídico tenha passado a ser usado como uma espécie de slogan midiático é prova de que o sentido objetivo das palavras já deixou de contar há tempos no Brasil. Cidadania, então, virou uma espécie de mantra, repetido à exaustão, como se a simples menção do termo fosse a solução para todos os problemas que nos afligem.
Esses casos de manipulação semântica - vindos desde os meios literários até os meios políticos - são ilustrativos das conseqüências do empobrecimento da linguagem. Como não sabemos mais o que as palavras significam, passamos a viver num mundo de ilusões, em que as bobagens mais flagrantes parecem verdades profundas, em que a discussão séria de determinados problemas tornou-se impensável. Termos como "democracia" e "cidadania" parecem exercer efeitos mágicos, insondáveis. Passamos a viver numa atmosfera nebulosa, em que tudo parece absurdo e impenetrável, porque já não sabemos nomear as coisas. Boa parte da confusão em que os brasileiros vivem atualmente se explica por essa deficiência, fruto direto da burrice e da malícia de nossa classe letrada.
NOTA:
(1) A comparação desse conceito moderno com o conceito medieval é um dos temas mais fascinantes da teoria política moderna, e foi esboçada por Robert Nisbet em The Twilight of Authority. Voltar