Adeus às armas e saudação à burrice
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
"Há males que vêm para bem". "Talvez fosse preciso que uma coisa dessas acontecesse para que possamos finalmente passar as leis que queríamos".
As duas frases foram ditas por membros do governo Bill Clinton a respeito dos assassinatos em Littleton, Colorado. Talvez agora os defensores desse estuprador mentiroso patológico estejam começando a entender a "obsessão moralista" daqueles que diziam, alguns meses atrás, que o caráter do presidente importa, sim.
Mas não é do Bill Clinton que eu quero falar. Desse, pouco mais há a dizer do que a verdade inapelável de que ele é o pior presidente da História dos Estados Unidos. Eu quero é falar das leis a que seus assessores se referiam nas frases que iniciaram este artigo, e que mostram o tamanho do oportunismo dessa gente. E quero falar desses seres desprezíveis que, usando seu espaço na imprensa brasileira, vieram dizer a mesma coisa.
Confesso que tenho algumas dúvidas sobre como falar dessas pessoas. Elas parecem insensíveis a todo argumento racional, parecem incapazes de enxergar a realidade por um momento que seja. Parece que se comprometeram a fechar os olhos para a verdade, optaram conscientemente por viver na mentira e na ignorância. O que dizer a essas pessoas?
Eu fico sem saber o que dizer, quando vejo a que ponto pode chegar a exploração política de uma tragédia. Estudantes são mortos e já vêm os benfeitores da humanidade apontar o culpado e anunciar a solução. Criou-se quase um consenso: a culpa toda é das armas. Vamos banir as armas.
Quando eu ouço um negócio desses, o meu impulso é um desejo de colocar em fila cada um desses cretinos e fuzilar um por um.
Mas é claro que nunca faria isso. Todos sabem que não sou um sujeito violento, por mais que algumas coisas me causem impulsos violentos. Do impulso à realização vai justamente a diferença entre os seres humanos normais e os assassinos, e eu não cruzaria essa fronteira. As únicas armas de que disponho são a língua e a lógica. Então, antes de citar as idiotices dessa semana, aí vai a comprovação lógica de que as armas não são a causa do massacre em Littleton:
Tomemos um exemplo matemático. Seja k uma constante, e x, y e z variáveis. Observem as seguintes equações:
xk= 6
yk=8
zk=10
Houve, de uma equação para outra, uma variação no resultado. Essa variação não pode ser atribuída a k, mas sim à diversidade das variáveis que se combinaram com k.
Se ainda não ficou claro, tomemos um exemplo da química. Suponha-se uma mistura de elementos A e B, de cor azul. Ao adicionar um elemento C, eu noto a formação de determinadas partículas sólidas na superfície da mistura. A formação dessas partículas deve ser atribuída a A e B, ou à adição de C?
Em outras palavras: se existe um fator constante, e alguns fatores variáveis, a mudança deve ser atribuída ao fator constante ou aos variáveis?
É óbvio que não se pode culpar uma constante por uma variação. No máximo, pode-se dizer que a combinação da constante com uma variável recém-introduzida provocou a mudança.
Pois bem: os Estados Unidos têm liberdade de porte de armas há 200 anos. Esse é o fator constante. Massacres e assassinatos em massa em escolas como o de Littleton ocorrem há, no máximo, 10 anos. Essa é a mudança. Encontrem a variável que quiserem para explicar essa mudança, mas não venham me dizer que a culpada é aquela constante. Não venham me dizer que o porte de armas é culpado pelos assassinatos em massa, porque isso atenta contra a lógica elementar, contra a realidade dos fatos e contra a inteligência humana. Arrumem outro bode expiatório: esse só cola se raciocinarmos como porquinhos da índia.
Pois foi exatamente como porquinhos da índia que raciocinaram, essa semana, os jornalistas Luís Fernando Verissimo, Caio Blinder e Hildegard Angel (e alguém tinha alguma dúvida de que eles o eram?).
Blinder, primeiro, em O Globo de 25/04/99:
É fato que os incidentes de violência estão diminuindo nas escolas americanas, mas crianças e adolescentes têm um facílimo acesso às armas.
O fato, como qualquer um sabe, é justamente o contrário: os atentados têm crescido, e não são só os casos de violência em escolas, mas os atos de violência cometidos por adolescentes têm crescido assustadoramente.
Ao mesmo tempo, o acesso às armas tem sido dificultado: são cada vez mais numerosas as leis contra porte de armas. Em Littleton, os assassinos quebraram dezenove delas.
Blinder consegue, em duas orações, mentir duas vezes. Uma mentira por verbo. Admirável para um jornalista. Mais admirável ainda é sua refutação do slogan da National Rifle Association:
Uma batalha de vida e morte deve ser empreendida contra o poderoso lobby da Associação Nacional do Rifle e sua infame palavra de ordem: "Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas." É Verdade. Mas quando foi a última vez que alguém matou 15 pessoas com o seu próprio punho?
Muito bem: qual foi a última vez que alguém escreveu um artigo de jornal sem um computador ou uma máquina de escrever? Conclusão, pela lógica blinderiana: a culpa por artigos idiotas como esse dele é dos computadores e das máquinas de escrever. Proíbam os computadores e o Caio Blinder vai, subitamente, se tornar um gênio assombroso.
Claro que não. Armas não matam ninguém sozinhas, exatamente como computadores não escrevem artigos sozinhos e seringas não injetam heroína sozinhas. Mas, exatamente como computadores podem servir para escrever bons artigos e seringas podem servir para aplicar remédios, armas podem salvar vidas. Bastaria, para isso, que a sanha anti-armas não tivesse embotado a mente esquerdista americana a ponto de fazê-los passar leis como a de Littleton, que proibia a presença de seguranças armados a menos de 400 m da escola. Bastariam alguns seguranças armados para impedir o assassinato em massa, o que nos leva a uma outra conclusão: longe de salvar vidas, as leis anti-armas contribuem para os assassinatos.
Vide, por exemplo, o caso de Israel: a primeira vez que houve um caso como o de Littleton por lá, o governo fez o contrário do que pregam Blinder et caterva: armou a população, estabelecendo cursos de tiro para as professoras e diretores de escola. Nunca mais se ouviu falar de casos semelhantes. Mas essa é justamente a diferença entre um governo ditatorial, que quer submeter os cidadãos a seu arbítrio, e um governo que confia na população.
Quanto ao outro "argumento" (chamemo-lo assim) de Blinder, de que ninguém mata ninguém sem arma, só lembro que existem vários tipos de armas, e ninguém precisa de um revólver para cometer assassinato. Joseph Farah acaba de lembrar um caso de garoto de 17 anos que matou seu irmão de 16, mais a namorada do irmão de 35 e as três filhas desta (de 12, 10 e 6 anos) - tudo isso usando um martelo. Será que Blinder vai propor a proibição de martelos também?
Mas mudemos de personagem, que esse aí não deu nem para o começo. Ninguém vai dizer que Luís Fernando Verissimo é um Caio Blinder. Claro que não: Verissimo, ao menos, escreve muito bem e de vez em quando escreve coisas bastante sensatas. Mas seu artigo em O Globo de 30/04 foi lamentável - para dizer o mínimo. Eis o primeiro parágrafo, que resume todo o resto:
Pode-se imaginar os problemas de RP que teriam uma Associação Pró Câncer ou uma Liga Contra o Amor de Mãe. Estariam constantemente na defensiva, obrigadas a se explicar a cada notícia ruim ou protesto do público. Dificilmente teriam apoio político e nem como matéria paga sua posição sairia na imprensa. Mas a National Rifle Association, que defende o direito de todo americano acima de 15 anos ter uma metralhadora em casa e é a responsável direta por alguns milhões de mortes, sobrevive à má imprensa e a surtos de revolta, provocados por massacres como o da escola no Colorado, com cada vez mais poder e influência.
Vejam a beleza da comparação: uma associação que defende o direito de venda de armas e uma associação pró câncer! Uma associação de defesa de um direito individual previsto na Constituição, e uma associação que defendesse uma doença! De onde diabos o escritor tirou essa comparação? Quais são os termos similares, as notas comuns entre as duas coisas? É um disparate total, uma aberração.
Mas nada que se compare à frase "responsável direta por alguns milhões de mortes". Quer dizer, a atribuição absurda de responsabilidade vai muito além de culpar a arma pelo crime - Verissimo culpa a associação que defende o direito de ter armas! É exatamente como culpar os fabricantes de camas pelo alto número de adultérios, ou os fabricantes de carros pelos acidentes de trânsito. É uma coisa tão despropositada, tão absurda, tão fora da realidade, que quem quer que chegasse a pensar uma bobagem dessas devia sentir vergonha de si mesmo e ocultar esse pensamento para sempre. Mas, não: o jornalismo brasileiro chegou a um estágio tão elevado de burrice que o sujeito se orgulha da própria bobagem e a publica em O Globo com ares de grande sabedoria. E depois ainda se queixa de que a NRA não dá atenção às críticas racionais...
E vale um acréscimo: seria preciso ser muito ingênuo para supor que os rapazes de Littleton compraram suas armas legalmente. Claro que não: conseguiram-nas com um vendedor clandestino. Ninguém nunca pretendeu que menores pudessem comprar armas livremente, ninguém é doido a esse ponto. Mas agora também vão culpar a NRA pelos vendedores clandestinos, e pelos menores que desrespeitam a lei? Provavelmente vão - a idéia de que o responsável pelos seus atos seja o próprio indivíduo é absurda demais para cabecinhas comprometidas com a falsidade.
Chegamos, por fim, ao teletubbie de plantão no jornal O Globo (o grande achado não é meu; todo crédito ao outro editor de O Indivíduo por ter chegado à conclusão indiscutível de que Hildegard Angel é um teletubbie). Vejam o que disse a mais idiota das colunistas sociais, ou a mais social das colunistas idiotas, em 01/05 (dêem o devido desconto ao estilo que beira o analfabetismo - essa é a marca registrada da colunista):
APESAR DE ocupar lugar decisivo na formação cultural do cidadão, a mídia nem sempre usa seus poderes para o bem. Em plena campanha nacional, quiçá mundial, contra a violência e pela paz, a TV mostra, sempre, filmes onde noivas apaixonadas descobrem, logo após o casamento, que se casaram com um psicopata. Ou crianças que atiram no ladrão salvando a família.
Percebem a comparação, tão maluca quanto a de Verissimo? Uma criança que, heroicamente, salva sua família e mata um bandido está no mesmo plano de um psicopata que mata a própria noiva?! Como é possível?
Pois vejam o raciocínio que está por trás da bobagem: o problema é ter armas. Não é usá-las mal, é simplesmente tê-las. Mesmo que você a use para o bem, você está fazendo o mal. Porque as armas são o próprio mal. São um mal em si. Esse raciocínio é comum aos assessores de Bill Clinton (que pelo menos têm a justificativa de estarem fingindo pensar assim para aumentar seu poder sobre os cidadãos) e aos jornalistas citados aqui.
E eis que a mente moderna conseguiu criar esse prodígio de juízo moral que consiste em julgar um instrumento não por sua finalidade ou pela maneira como é usado, mas por sua maldade intrínseca.
Um raciocínio idiota que põe poderes formidáveis nas mãos do Estado e dos criminosos, pois onde as armas são proibidas, quem as tem reina - e quem as tem nessas circunstâncias são, precisamente, assassinos (por definição, quando armas são proibidas só quem as tem são os bandidos) e agentes do Estado. De um jeito ou de outro, quem sai perdendo é o cidadão honesto, ordeiro, que só quer se proteger. Ou que poderia proteger as vítimas de uma tragédia absurda como a de Littleton.