IDIOTICE DA SEMANA

Mea Cuba

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Tem certas coisas que não mereciam resposta racional; mereciam apenas uma cara de nojo, e quem não fosse capaz de compreendê-la não seria capaz de entender mais nada. Três artigos seguidos de Luís Fernando Verissimo no jornal O Globo são desses que ninguém devia explicar por que são artigos idiotas. Minha tentação, na verdade, é simplesmente transcrevê-los e deixar que o leitor perceba por conta própria o quão absurdos, o quão idiotas, o quão nojentos são os artigos.

Mas minha vocação pedagógica me impede de fazer isso. Sinto-me na obrigação de responder a tanta bobagem, e de explicar por que é bobagem. Por isso, tapo o nariz e começo. Antes, aviso ao leitor: vamos descer aos infernos da estupidez em estado puro; vamos descer aos mais sujos pântanos da mentira, da cara de pau e da malícia. Não recomendo as linhas abaixo aos estômagos sensíveis, nem aos que têm medo de perder a sanidade ao entrar em contato com a loucura.

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O primeiro dos artigos foi publicado dia 29/06, e versava sobre Fidel Castro. Nem sei se culpo Verissimo: seu artigo foi um dentre muitos, foi mais um sintoma dessa grave doença que acomete o Brasil inteiro, e que Jean-François Revel chama de "tentação totalitária". Mais do que tentação: veneração, idolatria. Meninos, eu vi: o clima na UERJ no dia que Fidel ia falar lá era de um monte de cabritinhos esperando seu pastor. Parecia que aquele era o dia que daria sentido a muitas vidas, parecia que aquela era a tão esperada chegada do messias, que os libertaria da dominação neoliberal.

Verissimo é apenas mais um desses cabritinhos, certamente mais poderoso que os outros, porque tem a página de opinião de um dos maiores jornais do país à sua disposição, mas não menos idiota. É preciso, realmente, muita cara de pau para escrever as seguintes coisas:

[Fidel] É um tio excêntrico com múltiplos significados. É um parâmetro e um aviso. Um dos subtemas não explícitos dessa reunião no Rio é a vida possível longe dos Estados Unidos, ou perto dos Estados Unidos mas longe da submissão.

Fidel representa, ao mesmo tempo, as duas formas de viver com independência num mundo americano. Não há vida possível e você acaba virado numa curiosidade anacrônica só esperando a hora de morrer ou aderir, ou há vida possível, sim, e longa, tanto que aí está ele com suas barbas de palha e Cuba, sem a ajuda de ninguém, mantendo pelo menos sua saúde pública em níveis de dar vergonha nos nossos pseudo-socialdemocratas.

"Fidel é um parâmetro". Eu pergunto: como é que um regime que matou mais de 15 mil pessoas, que levou mais de 20% da população a fugir para Miami, que nunca admitiu o mais mínimo sinal de contestação, e deixou toda a população em terrível estado de pobreza pode ser parâmetro para alguém? Como é que uma coisa monstruosa dessas pode servir de modelo, de guia, para quem quer que seja?

Fidel é, sim, uma espécie de contra-parâmetro. É o exemplo do que não se deve fazer, é um exemplo de como não governar e de como não organizar uma economia. É o exemplo máximo daquilo que quem quer que tenha algum amor pela liberdade e pela justiça deve evitar a todo custo.

"Fidel é um exemplo da vida longe da submissão aos Estados Unidos", que é, em suma, o que Verissimo está dizendo no resto do trecho que cito. Aqui, por um instante, os leitores vão me perdoar a grosseria, mas não consigo evitar. Essa frase do Verissimo me lembra uma piada que o Roberto Campos conta longo no início de seu Lanterna na popa: nos tempos em que ele tinha simpatias esquerdistas, alguém disse a ele que o comunista é o sujeito que, para não ser estuprado pelos Estados Unidos, se deixa sodomizar pela União Soviética…

Aí é que está: Cuba, sob Fidel, nunca foi independente, nem por um único momento. Cuba sempre foi inteiramente dependente do dinheiro soviético, e nunca conseguiu desenvolver nenhuma riqueza própria. Acrescento que é preciso ser muito, muito burro e muito, muito incapaz para criar uma economia tão pobre quanto a cubana. Não conheço nenhum outro exemplo de país que sobreviveu durante décadas somente de ajuda estrangeira e nunca desenvolveu nada por conta própria. Originalidade fidelista.

Diante de tal pandemônio, argumentar com o sistema de saúde nada mais é que um sofisma. Primeiro, porque não há belo sistema de saúde no mundo que valha a vida de 15 mil pessoas. Segundo, porque de nada adianta um belo sistema de saúde se toda a população passa fome, e se ninguém tem nem mesmo a liberdade de dizer o que pensa. Terceiro, porque não é mérito nenhum ter bons resultados na saúde numa ilha pequena como Cuba, e com índices de ocupação populacional tão baixos.

Mas Verissimo continua (nunca é o suficiente):

Entre os olhares de irritação ou afetuosa condescendência que Fidel recebe dos seus pares durante a reunião deve haver um ou dois, se não de inveja, de admiração e suspirosa nostalgia. Dos que um dia acreditaram que também seriam coerentes a vida toda.

Com uma coisa concordo: muitos dos presentes à Cimeira devem ter mesmo olhado com inveja para Fidel. É que muitos têm uma certa vocação para o totalitarismo, e certamente lamentam não terem podido mandar e desmandar num povo inteiro, e reduzi-lo à desgraça, ao mesmo tempo que recebiam os aplausos de fiéis seguidores. Esse, realmente, é um privilégio de Fidel.

Mas Verissimo imagina que a inveja vem do fato de os governantes ali presentes não serem coerentes, enquanto Fidel o é. Algum tempo atrás, expliquei nesta coluna a diferença entre coerência interna e coerência externa. A coerência externa é a concordância de suas visões com a realidade do mundo, é a fidelidade à lógica, etc.. A coerência interna, de que comunistas em geral tanto se gabam, não passa de uma forma superior de burrice: concordar consigo mesmo o tempo todo significa nunca mudar de idéia. Tudo bem, mas e se essa idéia que você nunca muda não passa de uma idiotice? Aí, você é o Fidel Castro, ou o Luis Fernando Verissimo. Nesse mesmo sentido, Stálin foi coerente a vida inteira, Jack, o Estripador sempre foi coerente, o maníaco do parque é outro exemplo admirável de coerência interna – essa coerência dos assassinos que Verissimo acha que os outros invejam em Fidel.

Ah, mas antes que eu me esqueça: a miséria do povo cubano não é culpa de Fidel. É culpa do "obsceno boicote norte-americano". Transcrevo o último parágrafo:

Cuba aos poucos vai se entregando. O obsceno boicote americano que os chanceleres reunidos não quiseram condenar faz os seus estragos, cedo ou tarde o país se abrirá e os dólares que já circulam clandestinamente virão em massa e o país voltará ao mercado e à normalidade pan-americana.

Não sei se o leitor percebe o tamanho da incoerência lógica desse parágrafo. O boicote americano é "obsceno", é a culpa da miséria da ilha, é o que impede Cuba de prosperar. Mas não era da independência de Cuba em relação aos EUA que Verissimo estava se orgulhando alguns parágrafos atrás? Não era da capacidade da ilha de ser uma "opção" fora do domínio americano? Afinal, o que quer Verissimo: que os americanos comercializem com Cuba ou não? Nessa incoerência ele se trai: comercializar com os americanos implica abrir o regime e acabar com o socialismo; ou seja, a única solução para Cuba é o capitalismo – mas era esse mesmo capitalismo que Verissimo estava demonizando alguns parágrafos antes!

Mas veja como ele caracteriza a abertura cubana: "Cuba está se entregando". Isto é, o socialismo, que levou o povo à miséria (e qualquer estudante de primeiro ano de economia deve ser capaz de provar em dois minutos por que o socialismo não pode dar outro resultado), está implorando aos americanos que o transformem em capitalismo. Verissimo reclama de que os americanos estão se recusando a fazer isso, mas ao mesmo tempo ele reclama de que Cuba esteja pedindo essa ajuda. Enfim, o que diabos ele quer? Nem ele mesmo sabe. Ele não é capaz de perceber a incoerência entre reclamar do boicote americano e defender o socialismo. Ele, que não cessa de reclamar da penetração das multinacionais na economia brasileira, reclama de que elas não querem penetrar em Cuba. Um primor de raciocínio.

Notem que o artigo de Verissimo terminou, e ele não fez nem uma menção aos cubanos mortos e exilados por causa de Fidel. Mas qualquer pessoa honesta que fale de Cuba tem a obrigação moral de prestar suas homenagens aos homens e mulheres corajosos que se lançaram ao mar e, correndo o risco de enfrentar tubarões, de morrer afogado, de morrer de frio, foram em botes precários em direção a Miami, fugindo de Fidel. Arriscaram a própria vida para terem o direito de viver com dignidade, aquela dignidade que lhes foi negada na ilha de Fidel. Arriscaram a vida por aquilo que Fidel e seus comparsas tanto odeiam, porque onde quer que ela exista não há lugar para os tiranos – a liberdade.

É insultuoso ver o jeito como Fidel Castro foi tratado na mídia brasileira. É insultuoso, porque esse homem é o causador direto do sofrimento de inúmeras pessoas, é um tirano frio que não vale o que come, e que não merecia o aplauso de ninguém.

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Mas, se chega de Fidel, não chega ainda de Verissimo. Ele se meteu a falar de um assunto, no dia 30/06, que está manifestamente acima de suas capacidades. Resultado: deu com os burros n’água. Resolveu falar da nova ordem mundial, e do líder político americano Pat Buchanan. Vejam só:

Pat Buchanan é um eterno candidato a candidato à Presidência dos Estados Unidos. Nunca vai muito longe mas dá o seu recado. É o único que diz todas as coisas certas a respeito de concentração de renda, globalização, tirania do capital especulativo internacional, sacrifício do assalariado lá deles por interesses financeiros etc. Não é um homem de esquerda. Pelo contrário, em todas as outras questões é um ultra-reacionário, racista e xenófobo. O que quer dizer não sei bem o quê. Ou que se deve ter muito cuidado ao escolher os aliados ou que não se deve ter cuidados demais, e aceitar a sua ajuda sem olhar os dentes. Ou apenas que se deve aprender a conviver com o paradoxo.

Verissimo não está entendendo, mas eu explico. O negócio é o seguinte, meu caro: a esquerda brasileira, toda ela, sem uma única exceção, foi feita exatamente para não ser capaz de entender o que quer que seja. São todos um bando de inconscientes que não sabem em que mundo vivem, não sabem a quem estão servindo, não sabem qual o sentido de suas ações – e que, assim, vão acabar ajudando o inimigo sem saber. Vejamos.

Buchanan, evidentemente, não é racista nem "xenófobo". Ninguém é racista por ser contrário ao sistema de cotas para entrada de negros nas universidades – pelo contrário, esse sistema de cotas é que é realmente racista. Ninguém é "xenófobo" simplesmente por achar que seu país deve ter o direito de escolher quem vai entrar nele e quem não vai entrar – antigamente isso era simplesmente chamado de soberania nacional. É preciso ser muito burro para confundir essas coisas, mas isso já virou tradição esquerdista brasileira.

O verdadeiro problema do artigo de Verissimo nem mesmo está nesse ponto – que, realmente, está dentro do que já se podia esperar dele. Está em que ele se mostra incapaz de perceber a coerência no discurso de Buchanan. Como é possível, diz Verissimo, o sujeito ser contra a tirania do capital especulativo, contra a globalização, contra a concentração de renda, e ao mesmo tempo ser contra direitos especiais para negros e gays, contra a ecologia, contra o aborto, a favor do controle de imigrantes? Parece, com efeito, muito estranho.

Mas só parece estranho porque a discussão política brasileira nos últimos anos virou um debate de zumbis que não sabem do que estão falando. Nessa configuração, de um lado ficam os neoliberais, pró-globalização, defendendo as privatizações e a retirada da influência estatal da economia; do outro, ficam os esquerdistas, atacando a globalização e defendendo reforma agrária, affirmative action, aborto e afins. O que ninguém pára para pensar é que reforma agrária, affirmative action, aborto, e afins, não são tópicos de um programa nacionalista e anti-globalista. Pelo contrário: eles são justamente os temas preferidos da Nova Ordem Mundial.

Não à toa, todas essas bandeiras surgiram nos centros produtores de opinião, e são defendidas aqui diretamente por representantes de organizações internacionalistas, como ONU, UNESCO, etc.. É só parar para olhar: não há uma única entidade de direitos humanos que não tenha financiamento da Rockfeller Foundation, ou da Ford Foundation, ou da Comunidade Européia, ou da UNESCO. E não são só as defensoras de "direitos humanos": são as defensoras de controle populacional (aborto incluído), são os Sem Terra, são os ecologistas…

Tudo isso, que a esquerda defende com unhas e dentes, serve precisamente ao processo globalista que Verissimo acha tão horrível. E aí encontramos a diferença entre Buchanan e Verissimo. Buchanan sabe o que está acontecendo no mundo, sabe que o poder global nascente bate com as duas mãos, se utilizando de neoliberais na economia e de esquerdistas na cultura, e saber isso dá coerência a seu discurso, e ele realmente se opõe à formação do poder global. Ele defende a cultura tradicional que o globalismo quer exterminar, e defende a possibilidade de o país não se render às multinacionais e às instituições globalistas (mas Buchanan não é um neokeynesiano, como nossos esquerdistas). Verissimo, ao contrário, acredita estar na oposição, mas na verdade é mais uma engrenagem na gigantesca máquina globalista; é um inconsciente que não sabe a quem serve.

Justamente por isso, Buchanan é demonizado em toda a grande mídia, enquanto Verissimo é adorado por todos. Aliás, fazendo essa coisa horrível que é citar a mim mesmo, remeto o leitor aqui a um outro artigo que escrevi sobre Buchanan e a imprensa brasileira - Serviço de desinformação

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Chegamos, então, ao último artigo, o do dia 01/07/99. Cito direto o primeiro parágrafo, que já resume o artigo todo:

Acusar a oposição brasileira de só criticar, só criticar é um pouco como acusar o engasgado de só ficar roxo, só ficar roxo. O que mais o coitado pode fazer? "As esquerdas" têm, sim, um modelo alternativo para isso que está aí, é só lhes darem uma chance. E elas conseguirem se unir primeiro, claro. É injusto pedir mais de quem só tem, no momento, o poder de fazer barulho, e assim mesmo abafado pela grande maioria oficialista no Congresso e pelo pensamento quase único na imprensa.

Certo, eu nunca acusaria a esquerda brasileira de só reclamar. Eu sei que elas têm um projeto para o Brasil. Aliás, nós todos sabemos muito bem que elas têm um projeto, e sabemos qual é esse projeto. Não é preciso ir muito longe: é só ver a adoração que elas têm por Fidel Castro. Só que eu prezo demais a minha vida e a minha liberdade para ter, por um único momento, qualquer respeito por esse projeto.

O que é inteiramente absurdo é Verissimo dizer que elas precisam, para pô-lo em prática, vencer o pensamento "quase único" na imprensa. O sujeito ficou louco? Está achando que os leitores são palhaços? Que "pensamento quase único" é esse senão o velho pensamento esquerdista?

Quer dizer, o sujeito tem uma coluna diária na página de opinião do segundo ou terceiro jornal mais vendido do país e reclama de que não dão espaço para a esquerda? Mais ainda: ao seu lado, nesse mesmo dia, um deputado do PT dizia as besteiras de sempre. Dois dias antes, todo mundo fez o maior oba-oba para o Fidel Castro. E mais, lanço um desafio: que alguém me cite 5 nomes de articulistas liberais ou conservadores que escrevam regularmente em qualquer grande jornal, além do Roberto Campos (que não é conservador, é liberal). Só quero cinco nomes. Duvido que alguém consiga: não existem. Mas existe, sim, no Globo, Jabor, Verissimo, Hildegard Angel, João Ubaldo, Zuenir Ventura; na Folha, Otávio Frias Filho, Marcelo Coelho, Boris Fausto, Josias não-sei-o-quê, Luiz Nassif, Frei Betto, Emir Sader, Fernando Gabeira, Fernandinho Barros e Silva; no JB, Artur Xexéo, Fritz Utzeri, Cláudio Paiva, Tutty Vasquez, Sérgio Paulo Rouanet, Flora Süssekind – todos esses, sem exceção, esquerdistas, e a lista poderia conter muitos outros nomes (e agora todos estão juntos num lugar muito apropriado, a Bundas). Que raio de coisa é essa senão o "pensamento único"?

Ah, alguém poderia argumentar, mas eles têm divergências entre si. "A esquerda está desunida". Quem é idiota o suficiente para acreditar nisso? A desunião da esquerda, que Verissimo também critica, é parte da própria estratégia esquerdista. Sempre houve discussões intermináveis entre os esquerdistas, mas isso nunca enfraqueceu o poder da esquerda como um todo: pelo contrário, ao criar essas pequenas dissensões, eles conseguem monopolizar ainda mais o debate, que fica todo colocado nos termos esquerdistas e qualquer discurso alternativo se torna inimaginável. Esse é o único efeito dessa desunião, porque essa desunião é apenas em pontos secundários; no essencial, todos concordam. As divergências pequenas são só para continuar pondo em funcionamento todo esse imenso proletariado intelectual, para dar ocupação a toda essa massa de cretinos mobilizados para um único fim.

Um fim, que, até hoje, a esquerda nunca atingiu. Mas creio que elas estão perto de conseguir realizá-lo: há trinta anos, os esquerdistas vêm ocupando todos os espaços nos jornais, nas universidades, nas emissoras de televisão, nas livrarias, no mercado editorial; não deixam espaço para mais ninguém. Nunca passaram da dominação cultural para a dominação política porque são burros demais para isso – mas até a burrice esquerdista tem limites, e os acontecimentos dos últimos seis meses são no sentido quase inequívoco de uma revolução (e o FHC, como inclusive já disse o Roberto Campos, tem todas as características de um Kerensky). E aí vamos ver no que vai dar esse "projeto" que Verissimo tanto elogia, e que tantos parecem ansiosos para ver realizado. Como se já não tivesse sido realizado várias e várias vezes no século XX, sempre com o mesmo resultado: choro, ranger de dentes e muito sangue derramado.