Leitura hedonista
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Nossa época é, como vários antes de mim já assinalaram, uma época de aparências e de superficialidades. É uma época em que os homens gostam de se prender ao secundário, ao desimportante. E não se trata apenas do homem comum, capaz de levar a sério os jogos de futebol e de opinar da forma mais leviana sobre religião e outros assuntos mais graves. Trata-se, principalmente, dos intelectuais - e, aqui, sigo sempre o conselho de Bernanos, segundo o qual, se há uma crise de consciência, a culpa não é dos que não a têm, mas do que deveriam preservá-la.
Não é o caso, essa semana, de falar do intelectual de esquerda, para quem tudo se resume a política ou economia, mas de uma outra espécie dos bem pensantes tão desprezível quanto essa: a dos cultores dos livros.
É, isso mesmo: são os caras que cultuam os livros não por seu conteúdo, mas por serem livros. O livro enquanto livro. A leitura enquanto leitura. Eles têm até um slogan, a famosa frase de Ziraldo: "Ler é mais importante do que estudar".
Não, não é. É muito menos importante. A leitura não pode, sob hipótese alguma, ser um fim em si. A leitura é um instrumento. E isso se explica de forma muito simples: ninguém escreve livros por escrever, ou porque gosta de livros. Se alguém escreve um livro, fá-lo por algum motivo, por querer dizer alguma coisa, ou produzir algum tipo de emoção no leitor, ou mesmo expressar algum sentimento. O texto não é um fim em si mesmo, mas é um veículo expressivo utilizado pelo autor. Por que diabos, então, o leitor deveria encará-lo de outra forma?
Não deve e, se o fizer, será um péssimo leitor. Ler, portanto, tem um determinado objetivo: lemos para aprender algo sobre o assunto de que o autor fala, para escrever melhor, para abrir novos espaços imaginativos. A leitura é fruto do interesse intelectual, ou mesmo do interesse sentimental; se for um passatempo como outro qualquer, não serve para nada, e seria melhor não ler.
Tomemos um exemplo: se a leitora recebe uma carta do namorado, vai ler a carta por quê? Porque gosta de ler, ou porque quer saber o que o namorado disse? Algumas meninas que conheço vão ainda além: lêem e relêem, quase decoram cada palavra. E o que estou querendo dizer é o seguinte: cada livro deve ser lido exatamente como se fosse uma carta de amor. A leitura deve ser interiorizada e trabalhada ao máximo.
Olavo de Carvalho tem uma bela imagem sobre isso: diz ele que livros de filosofia devem ser lidos como partituras, em que cada frase é como uma nota que precisa ser tocada pelo leitor. Quer dizer, o livro precisa ressoar internamente, a tal ponto que você seja capaz de enxergar as coisas de que o autor está falando, e não simples palavras jogadas sobre o papel.
O leitor deve estar vendo que estamos, aqui, nas antípodas dos adoradores da leitura por si só. É que estes põem mais ênfase no instrumento do que no objeto final, como o sujeito que, se alguém lhe aponta a lua, presta mais atenção no dedo que aponta do que propriamente na lua. E eis, novamente o que estou querendo dizer, dito de outra forma: a lua é mais importante do que o dedo que a aponta. O tema de um livro, as coisas de que ele fala, são mais importantes do que o próprio livro.
Isso tem inúmeras aplicações. Na filosofia, por exemplo, tudo que se faz no Brasil versa sobre dedos, e não sobre a lua: o sujeito leva vinte anos espremendo o cérebro para fazer não uma obra sobre o Ser, ou uma interpretação diferente do que alguém disse antes, mas para expor de novo uma filosofia já exposta - por exemplo "a dialética de Hegel", ou "o pensamento político de Rousseau". O exemplo mais fantástico é a tese que garantiu ao prof. Leandro Konder o título de doutor, com as maiores honrarias: uma tese sobre quem leu Karl Marx no Brasil desde o lançamento de "O Capital". Esse, realmente, é um exemplo extremado: a tese de Konder não chega a ser sobre dedos que apontam a lua, mas é sobre dedos que apontam para dedos que apontam para dedos...
Outra conclusão é que existem certos livros mais importantes que outros e existem, mesmo, livros que não deveriam nunca ser lidos. Os mais importantes são, evidentemente, aqueles que tratam com maior profundidade os assuntos mais interessantes; os que nunca devem ser lidos, aqueles que não tratam de absolutamente nada - como as obras completas de Manoel de Barros.
Digo tudo isso por causa de uma entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja desta semana (07/07/99) com o escritor Alberto Manguel, autor de um livro perfeitamente inútil chamado Uma História da Leitura, da editora especialista no gênero, a Cia. das Letras (também chamada de Companhia Unibanco das Letras de Música). Cito alguns trechos.
Quando perguntado sobre a diferença existente entre ler um livro e ler a mesma coisa num computador, eis o que disse Manguel:
As palavras impressa no papel são tangíveis, você quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível. (...)No computador, o texto não tem uma realidade sólida, além de ser extremamente frágil - se você apertar um comando errado, adeus texto. Quando falamos em ler um livro, nosso vocabulário é gatronômico: "Devoramos um livro" ou "saboreamos um texto". Já em relação ao computador usamos palavras que têm a ver com a superfície, como "surfar na internet" ou "escanear um texto". É impossível interiorizar o texto que aparece na tela luminosa.
Tolice atrás de tolice para cultuar o secundário. Ora, é óbvio que, se o livro em si mesmo já é secundário em relação aos assuntos de que trata, ainda mais secundário é o formato do livro. Que importância tem se você vai ler um texto na tela do computador, num livro impresso em papel reciclado, ou num pergaminho antigo? Que diferença faz? Claro, é mais prático ler um livro impresso, mas isso nada influi na qualidade da leitura.
Noto, primeiro, que não é verdade que seja "quase possível" tocar a tinta do livro: é inteiramente possível. Mas isso não é possível na tela do computador pelo simples fato de que não há tinta na tela. Mas, se o sr. Manguel quiser tocar as letras na tela, poderá fazê-lo com alguma facilidade...
Quanto à realidade sólida, fico me perguntando o que será uma tela de computador se não sólida: líquida? Gasosa? As letras estão em estado de ebulição? Quanto a elas poderem desaparecer, isso é bastante relativo: se eu leio um site na internet, a única forma de desaparecer com as palavras dele é desligar o computador - e aí elas vão desaparecer para mim, mas não para os outros. Mas ele talvez se refira ao texto no editor de texto: é verdade, qualquer comando errado, babau. Mas experimente o sr. Manguel acender um fósforo perto de um texto impresso, e vai ver se o efeito não é bastante parecido ao do comando mal dado.
Chegamos, então, às estranhas analogias com que ele tenta diferenciar o texto impresso do texto no computador. Mas ele se esquece de que "devorar" um texto e "escanear" um texto são coisas inteiramente diferentes. Nada impede que alguém "devore" um texto na tela do computador, e o uso da expressão nesse caso é perfeitamente cabível. O que não tem cabimento é achar que porque chamamos a ação de escanear escanear, e não devorar, e a ação de surfar ou navegar na internet surfar ou navegar na internet, e não saborear, não é possível devorar um texto escaneado e, no meio da navegação, saborear um texto num site qualquer.
Volto a dizer: mais absurdo do que o culto da leitura, só o culto do livro em sua forma impressa - e historicamente transitória e efêmera, como todas as criações humanas.
Mas vejamos os momentos em que o nosso amigo faz o culto da leitura, que, afinal, foi o motivo pelo qual escrevi este artigo:
Veja: É melhor ler publicações sem qualidade do que não ler nada?
Manguel: Essa pergunta pressupõe que certos livros são necessariamente melhores que outros. Não acredito em hierarquias absolutas no campo da leitura. Nos países árabes, que valorizavam a filosofia e a poesia em detrimento da ficção, As mil e uma noites eram vistas como literatura barata. No Ocidente, tornou-se um clássico. (...)É arrogante dizer "esse livro você não deve ler e esse você deve". Há obras certas para diferentes momentos de sua existência.
Se não existem hierarquias entre os livros, não existem hierarquias entre os autores, não existem diferenças de inteligência, grau de consciência e qualidade estilística entre os autores. Quer dizer, Shakespeare é igual a Plínio Marcos, São Tomás de Aquino é igual a Antonio Gramsci, e assim por diante. Não preciso nem dizer que isso é loucura.
Quanto ao exemplo citado, prova mais que existe uma hierarquia do que que não existe. Porque o fato é que, comparadas ao resto da literatura árabe da época, As mil e uma noites são, sim, literatura barata. São livros de entretenimento, enquanto praticamente tudo o que se escreveu de importante na cultura árabe diz respeito às questões mais profundas da existência humana - razão pela qual, perto de Ibn 'Arabi, Rumi, Al-Gazzhali, As mil e uma noites são, mesmo, literatura barata, e só se tornaram um clássico porque as demais obras árabes quase nunca chegam ao Ocidente e, quando chegam, caem nas mãos de gente inteiramente incapaz de entendê-las - como o sr. Manguel.
Não é de espantar que alguém que diz essas coisas continue dizendo o seguinte:
Veja: Que autores tiveram grande influência sobre o senhor?
Manguel: Um nome que me ocorre é o do brasileiro Monteiro Lobato, autor do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ter lido Monteiro Lobato numa certa fase da minha vida foi mais enriquecedor do que ter lido Camões, há cinco anos. Camões é interessante, levou-me a pensar em questões profundas, mas não mudou minha vida.
O sujeito diz, de cara limpa, que Monteiro Lobato é mais importante que Camões! Ah, alguém vai dizer, mas ele só diz que foi mais importante para ele. Certo: então ele está confessando que é um perfeito idiota, que só é capaz de ler alguma coisa para mudar a própria vida quando a lê cedo, que não consegue mais tirar conclusões práticas profundas do que lê hoje em dia.
Afinal, se Camões o fez pensar em questões profundas mas isso em nada mudou sua vida, quer dizer que ou ele não entendeu nada das tais questões ou o pensamento, para ele, está completamente desligado da vida - e, portanto, é um pensamento morto e inoperante. Não há questão profunda que, se pensada, não mude em alguma coisa a vida de quem a pensa. É exatamente para isso que serve o estudo, a leitura e o pensamento: para tornar quem os pratica pessoas melhores. Camões serve para isso, porque é um grande poeta; se não serviu, então o sr. Manguel não o leu direito. Não lendo direito, acaba transformando a própria incapacidade de perceber as hierarquias em regra universal. E iguala Camões a um autor secundário como Monteiro Lobato.
Mas a frase principal da entrevista, que resume tudo, é a seguinte:
Não há por que tratar a leitura de grandes livros como obrigação. Não há prazer na obrigação e devemos ler apenas por prazer.
A leitura relegada a mais um tipo de prazer, talvez um substituto para o sexo, ou para o futebol. A leitura desvinculada das partes mais profundas e mais importantes da existência, desprovida de toda vitalidade.
A vida intelectual como uma masturbação mental, como um hedonismo sem finalidade, uma agitação vazia e estéril destinada a dar prazer. Não é de surpreender que, nesse contexto, surjam as teorias mais absurdas, as afirmações mais estapafúrdias, as decisões mais inconseqüentes - afinal, tudo não passa de uma vasta brincadeira, de uma vasta palhaçada.
Diante disso, não há mesmo por que se espantar com a decadência geral das consciências. E o pior é que essa inconseqüência toda é ensinada e propagada dia e noite, por todos os meios de comunicação e pelas escolas. Escolas nas quais os livros de Paulo Coelho e Emir Sader são postos em pé de igualdade com Machado de Assis e Gilberto Freyre. Afinal, é mais importante ler do que escolher o que ler...
Ô
Permitam-me ainda uma observação. A repórter de Veja disse a seguinte coisa, antecedendo uma pergunta:
O filme Mensagem para você mostra que as megalivrarias americanas, como a Barnes & Noble, estão abocanhando as pequenas.
Dá para perceber o absurdo? A fonte de informação da menina é o cinema americano. Esse é o estado da imprensa brasileira...